*Texto de Joca Reiners Terron para quarta capa de Flores
Uma estufa dedicada ao cultivo de raras mutações, Flores é também a introdução perfeita à obra de Mario Bellatin. Mas o assunto aqui não é exatamente a perfeição. No mundo de próteses, membros postiços e mutilações de Flores, a beleza será imperfeita ou não será. Ou melhor: em Flores, a beleza é artificial, de plástico e se condensa na forma e nos artifícios da ficção. Se há algo de irretocável no livro é justamente a exatidão artificial das flores plásticas que dão título a cada um dos 36 fragmentos que compõem o texto.
Renovador de um gênero fronteiriço, a novela, o mexicano Bellatin desde os primeiros livros imprime rígida consistência formal às suas histórias, concebendo textos de brevidade e rigor incomuns à caudalosa língua espanhola. Nas flores nascidas no interior desta máquina narrativa, evidencia-se a montagem como procedimento. Tal um Edward Mãos de Tesoura tarado por elipses, Mario Bellatin poda suas flores a golpes de bisturi, arrancando delas a beleza fria surgida do silêncio e da mais absoluta contenção. “Existe uma antiga técnica suméria, para muitos a precursora das naturezas mortas, que permite a construção de estruturas narrativas complexas a partir da soma de determinados objetos que, juntos, compõem um todo”, afirma o autor, com firmeza de estatuto a reger toda uma obra.
O universo de Flores é o da diferença, de uma busca por “religiões e sexualidades alternativas”, em que o anômalo cava seu lugar no interior da norma. Os personagens do livro, solitários e ambíguos, são aparentemente muito diferentes entre si: há o cientista que descobre certo fármaco cuja composição causa deformações físicas; um outro que diagnostica vítimas do produto, e entre elas descobre mutantes que buscam se beneficiar da indenização do laboratório; os gêmeos que são encontrados sem braços nem pernas e adotados por uma poeta; um homem, o Amante Outonal, que tem especial atração por velhos. Mas algo de comum rasteja entre essas figuras, a violência implícita mas potencial, ou a sexualidade como uma entre as várias dimensões da agressividade.
Autor de extensa obra pulverizada em dezenas de pequenas narrativas, escritas para serem lidas como um único e grande livro, Mario Bellatin parece estar conduzindo ao limite dois dos maiores mitos estilísticos da literatura moderna: mais frio do que o iceberg de Hemingway e sua enorme área de significação oculta, Bellatin é o próprio iceberg, que submerge despedaçado, feito um quebra-cabeça; especialista em cortes tal como Tchekhov, ninguém amputa livros e finais de histórias impiedosamente como ele.
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