A revista francesa Les Inrockuptibles publicou, em 19 de novembro de 2003, um questionário elaborado por Sophie Calle e Grégoire Bouillier sobre suas próprias questões pessoais, artísticas e filosóficas. Você encara?
1) Quando você já morreu?
2) O que faz você se levantar de manhã?
3) O que viraram os seus sonhos de infância?
4) O que distingue você dos outros?
5) O que falta em você?
6) Acha que todo mundo poderia ser artista?
7) De onde você vem?
8) Você acha o seu destino invejável?
9) A que você renunciou?
10) O que você faz com o seu dinheiro?
11) Qual tarefa doméstica provoca mais aversão em você?
12) Quais são os seus prazeres favoritos?
13) O que você gostaria de ganhar de aniversário?
14) Cite três artistas vivos que você deteste.
15) O que você defende?
16) O que você é capaz de recusar?
17) Qual é a parte mais frágil do seu corpo?
18) O que você já foi capaz de fazer por amor?
19) O que recriminam em você?
20) Pra que serve a arte?
21) Redija o seu epitáfio.
22) Sob que forma você gostaria de voltar?
Numa tarde fria de domingo, “no dia da morte de Michel Leiris”, o telefone acorda o autor-narrador de O convidado surpresa. Ele reconhece a voz da mulher que o abandonara cinco anos antes sem nenhuma explicação. Perplexo, ele ouve não as desculpas que esperava (e sempre esperou), mas o convite para uma festa. Ela o convida para o aniversário de uma amiga que costuma celebrar a data chamando para a festa o número de pessoas correspondentes à sua idade e mais um, o convidado surpresa. Bouillier é o convidado surpresa da vez; a aniversariante é a artista plástica Sophie Calle. A relação, cujo início é narrado neste livro, terminou tempos depois com um e-mail enviado por Bouillier, que dizia na última linha: “prenez soin de vous” (“cuide de você”). A frase deu origem à famosa exposição de Calle, exibida na Bienal de Veneza em 2007, que reuniu depoimentos de 107 mulheres sobre a mensagem de rompimento. Depois de polêmicas e discussões, os dois se reencontram agora em uma mesa da Flip 2009.
Se é possível conhecer uma época através de suas histórias de amor, O convidado surpresa é o retrato deste início de milênio. Seu autor se insere em uma tradição confessional que acaba por deixar à mostra a intimidade e a encenação pública do eu.
Uma comparação em chave oposta pode ser feita com o livro Carta a D. (Cosac Naify, 2008), em que o filósofo e escritor André Gorz (1923-2007) narra sua paixão pela mulher, Dorine, nos quase sessenta anos em que viveram juntos partilhando posturas políticas e intelectuais. Dois momentos históricos, duas histórias de amor.

Grégoire Bouillier. Arquivo pessoal
Em entrevista a Folhaonline (23/06/2009), Teresa Chaves pergunta: “O senhor acredita que Calle e o senhor exponham suas vidas privadas de maneiras distintas?”
Bouillier – Acredito que a diferença essencial seja que Sophie Calle é uma artista plástica e eu sou um escritor. Isso quer dizer que nosso olhar sobre o mundo não é o mesmo, não buscamos os mesmos efeitos e não dispomos dos mesmos meios. Não manipulamos o íntimo da mesma maneira. Por exemplo, para mim é inconcebível pedir aos outros que exprimam em meu lugar aquilo que eu sinto, como vejo as coisas etc. Isso é algo que vai totalmente de encontro aos objetivos da literatura, da verdade da escrita. Mas é que a verdade de Sophie está no exterior. Tudo o que eu digo é que a verdade dela não é aquela de um “homem de letras”…
04/07 – Sexta, 11h45 – Mesa 12
Entre quatro paredes, com Grégoire Bouillier e Sophie Calle. Mediação de Angel Gurría-Quintana
Em Prenez soin de vous, exposição que representou a França na Bienal de Veneza de 2007 e programada para acontecer em São Paulo em julho, Sophie Calle exibe a reação de 107 mulheres à carta de rompimento recebida de seu ex-namorado, Grégoire Bouillier. Pela primeira vez eles aparecem em público para discutir o episódio e embaralhar ainda mais as fronteiras entre vida privada e vida pública, entre vivência pessoal e ficção.
“O livro que você tem em mãos é mais do que um livro. É parte de uma obra maior que começa na escritora inglesa Virginia Woolf, passa por Sophie Calle, a mais importante artista conceitual francesa, e continua em nós, como um desafio a dar sentido à vida, transformando o acaso em arte. [...] Esta é uma impressionante narrativa sobre o amor, a intimidade e o que há de mais instigante na arte moderna, sobre aqueles que entendem que toda manifestação artística emana do indivíduo e de sua tragédia cotidiana repleta de som e fúria”.
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