O universo particular de Mario Bellatin « COSACNAIFY NA FLIP 2009

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Flip Zona

  1. O universo particular
    de Mario Bellatin

    Quinta-feira, 18 junho, 2009, às 17:43

    Entrevista para Livia Deorsola

    Um termo foi criado especialmente para designar os acontecimentos que cercam sua vida. Ele criou uma escola de escritores onde há uma regra fundamental: não escrever. Fã de Machado de Assis, por supuesto, organizou um congresso de autores mexicanos no qual compareceram apenas dublês. Rótulos a respeito de sua literatura assustam, mas por pouco tempo.
    Na entrevista a seguir, descubra mais sobre o escritor Mario Bellatin, cuja presença é mais que aguardada para a sétima edição da Flip.

    Em Flores, os personagens se manifestam sobretudo por suas ações, mais do que por seus pensamentos. A perspectiva parece não ser o mundo interior das idéias e sentimentos, mas sim o mundo exterior das condutas, dos objetos e lugares. Qual o papel dos acontecimentos na construção de suas narrativas? E como a reflexão se materializa na voz impessoal e objetiva deste narrador tão particular?
    Costumo pensar que, como escritor, vejo o mundo através de um visor, de uma câmera antiga, muda e aparentemente objetiva, situada sempre em um mesmo ângulo. Então, através desta lente, supostamente se captam apenas ações, abjetos, cenografias. Mas todos sabemos que a aparente objetividade dessa câmera é falsa, e é ela quem vai falando desde sua própria mudez.

    Acha possível confiar ao leitor o preenchimento dos espaços vazios, dos silêncios que se abrem pela linguagem econômica de sua prosa?
    Eu gostaria que houvesse um leitor perfeito, que fizesse o que bem entendesse com o texto que tem diante de si. Que não se sinta subjugado pela presença de um autor que se imponha como dono do universo que está criando. Dar ao leitor algum papel ou esperar dele algo determinado significaria ir de encontro ao meu propósito inicial. Se penso no leitor quando escrevo, é somente para lhe oferecer uma série de recursos que lhe permitam começar e terminar o livro que tem em mãos.

    O entrecruzamento de histórias dentro do mesmo conjunto narrativo, como ocorre em Flores, ou o recorte de textos combinados entre si, como em Lecciones para uma liebre muerta, é reflexo de uma busca por novos sentidos na literatura?
    Acredito que seja a intenção de fazer sempre o mesmo livro, mas de maneira diferente a cada vez. Isso pode soar como um contrassenso, mas acho que trato de encontrar a escritura, a minha escritura. Sempre tenho a impressão de que estou fazendo a mesma obra, uma e outra vez. Por isso, às vezes me envergonho diante das pessoas por fazer um exercício semelhante e me esforço para que os textos apareçam de forma distinta, ao menos aparentemente.

    O escritor catalão Enrique Vila-Matas revelou ao site Cosac Naify que tudo que vive, lê ou observa “é convertido imediatamente em literatura vilamatasiana”. Para você, a conexão entre o vivido e o escrito se dá de que forma?
    Alguns amigos criaram o termo “mariontropía”, que consiste em considerar que muitos dos acontecimentos ao meu redor se comportam de uma maneira particular. Não tenho certeza de que isso seja exatamente assim, mas talvez eu possa funcionar como um eixo em torno do qual as coisas sejam vistas pelos outros a partir de ângulos diferentes dos tradicionais. Transformar essas experiências em escrituras? Ufff, seria um trabalho interminável e, além disso, sem sentido. Para que escrever algo já regido pela lei de sua própria “mariontropía?

    Acredita que a dissolução do corpo, tema presente em seus livros, leva a uma maior liberdade da linguagem em relação às amarras realistas? Uma coisa contribui com a outra?
    Acho que o tema da dissolução dos corpos tem a ver mais com uma visão mística das coisas. Ou platônica, se queremos levar isso ao campo da filosofia. Podemos nos converter em almas móveis e apartadas das impurezas do corpo? Lembro que justamente esta era uma de minhas preocupações quando eu tinha dezesseis anos. Que curioso que me perguntem sobre isso agora.

    Em sua poética, encontramos muitos aspectos caros à pós-modernidade, como a fragmentação, a mescla de gêneros literários, o questionamento do papel do autor. Ao mesmo tempo, suas histórias recuperam um mundo mítico, feito de uma ordem própria. Como transitar entre esses dois universos?
    Acho que os elementos considerados pós-modernos – eu duvidaria do termo – estão presentes no imaginário coletivo, e não há escritor que não seja receptor de seu próprio tempo. A aparição de uma espécie de mundo mítico, de um espaço fundador presente em meus escritos pode ter a ver com minha prática espiritual, com minha recorrência aos livros sagrados, que são as únicas leituras que, na verdade, levo relativamente a sério.

    Você fundou, no México, a Escola Dinâmica de Escritores, um lugar onde não se aprende a escrever. O que de mais interessante se pode colher dessa experiência?
    Estou certo de uma coisa: de que não se trata de um lugar de trânsito. A escola não é procurada para se aprender a escrever e logo colocar em prática algum tipo de habilidade. O importante, a finalidade de se frequentar uma escola como esta – na qual se proíbe escrever – é justamente presenciar o instante em que um criador de alguma arte se reúne com trinta interessados na escritura com o fim de ir adiante com um determinado projeto.

    O escritor argentino César Aira afirmou certa vez que “quando alguém te põe uma etiqueta, é um estímulo a desmenti-la no próximo livro, e renovar-se”. Rótulos têm o mesmo efeito sobre você?
    Rótulos produzem sobre mim uma estupefação tal que me deixam paralisado por um tempo. Mas rapidamente sigo escrevendo, como se nunca tivessem existido.

    Quando se fala em literatura latino-americana, é corrente a ideia sobre a distância que separa as experiências ocorridas no Brasil do resto da América Latina. Concorda com essa posição ou percebe diálogos ainda pouco explorados?
    Percebo diálogos pouco explorados e nem sequer vejo uma literatura latino-americana, nem autores latino-americanos, e menos ainda considero o Brasil como parte ou não da América Latina. Trato de apreciar somente os livros, e procuro separá-los de suas circunstâncias.

    Há muitos autores brasileiros, do século XIX até nossos dias, que chamam minha atenção. É uma lista muito comprida, mas destaco Machado de Assis, claro, e Mário de Andrade. Dos contemporâneos, Rubem Fonseca, João Gilberto Noll e sobretudo Glauco Mattoso, todo um mistério.

    Você organizou, em Paris, um congresso de escritores mexicanos no qual, no lugar dos escritores propriamente, se apresentaram dublês que memorizaram opiniões e projetos literários dos verdadeiros autores. Podemos estar seguros de que quem se apresentará em Paraty será você mesmo?
    Espero de todo o coração que não seja o verdadeiro Mario Bellatin quem estará presente na Flip. Digo isso porque, entre outras coisas, sempre tentamos ser melhores que nós mesmos.

    Mario Bellatin na Flip 2009
    3/07, sexta-feira, 17h – Mesa 9
    O eu profundo e os outros eus, com Cristovão Tezza. Mediação de Joca Reiners Terron

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