A mesa número 6 da Flip 2009, Evocação de um poeta, reuniu numa manhã de garoa os poetas Heitor Ferraz, Eucanaã Ferraz e Angélica Freitas, com mediação de Carlito Azevedo. Todos escolheram poemas de Bandeira para ler: Angélica optou por “Porquinho-da-Índia” e “Namorados”, do livro Libertinagem (1930). Heitor Ferraz preferiu “O martelo”, do livro Lira dos cinquent’anos (1940), e “Consoada”, de Opus 10 (1952). Já Eucanaã Ferraz recitou “Evocação do Recife” e “Satélite”, para depois apresentar seu “Bandeira e guarda-chuva” (“Sob bibliotecas, qual piolharia: / Bandeira sob um guarda-chuva. / Nada mais dada. Quem imaginaria?”).

Carlito Azevedo, Angélica Freitas, Heitor Ferraz e Eucanaã Ferraz
A conversa girou em torno de como cada qual recebe as influências do mestre. Eucanaã Ferraz lembrou do alumbramento como característica da poética bandeiriana, ressaltando o trabalho de construção que também está por trás de cada verso, “algo que ficou mais identificado com a poesia de João Cabral de Melo Neto”. “Acredito que no trabalho poético haja 100% de inspiração e 100% de transpiração. Não separo as duas coisas”, disse o autor, que revelou sua preferência pela prática de burilar as palavras ao invés de escrever “por estalo”.
“Quando tenho uma ideia, não guardo para mais tarde. Tenho que escrever na hora”, contou Angélica, “como se passava com Bandeira, que escreveu ‘não faço poesia quando quero, e sim quando ela quer’. Comigo é assim também”.
Para Heitor Ferraz, a boa lição deixada por Bandeira foi despertá-lo para a musicalidade da língua ‘brasileira’. “Com ele aprendi a delícia que é esta língua e a ver poesia nas coisas simples e cotidianas. Com Chico Alvim, aprendi a desvendar a ideologia que há por trás disso, a perceber as ideias muitas vezes cristalizadas que estão embutidas em uma conversa corriqueira”.
O compositor e escritor Vitor Ramil, autor de Satolep (Cosac Naify, 2008) e convidado da última edição da Flip, é conterrâneo da poeta Angélica Freitas – ambos são de Pelotas. Apesar disso, demoraram a se conhecer. Mas quando isso aconteceu, o resultado não poderia ser mais frutífero: música. Abaixo, Ramil conta um pouco dessa história.
Como você conheceu a Angélica e suas poesias?
Conheci sua obra em uma visita à Cosac Naify, quando estive em São Paulo, em 2008. Assim que voltei ao hotel, comecei a ler Rilke shake e já gostei. Foi amor à primeira vista, o que não deve ser novidade para ela, pois a poesia da Angélica tem esse poder. Conheci a poeta bem mais tarde, depois de musicar alguns de seus versos.
O primeiro poema que musiquei foi “Vida aérea”. Depois vieram “r.c.” e “Família vende tudo”, que compus em uma van, na estrada. Depois aquela do violinista, de nome comprido. E, por fim, “Fusca”. Em algumas parcerias adaptamos certas passagens do poema, mas foi coisa pouca.
Quando ela veio a Pelotas nos encontramos, mais precisamente na praia do Laranjal, onde a mãe dela mora e onde costumo veranear. Nos sentamos no jardim lá de casa e, tomando um mate, apresentei as canções a ela.
O que mais lhe chamou a atenção na poética da autora?
Esse refinamento do simples, ou essa simplicidade do refinado, que são sua marca. Além disso, os poemas têm a densidade da poesia e a instantaneidade de letra de música, algo que busco combinar quando escrevo canções. Como não me identificar com eles?
Perguntamos ao poeta e editor da editora 7Letras Carlito Azevedo por que ele gosta tanto da poesia de Angélica Freitas. Abaixo, a resposta.
“A Angélica consegue criar. Já nos primeiros versos de qualquer poema seu, uma atmosfera feliz e profanadora que nos convida a relativizar o gigantismo de certos sentimentos solenes, sagrados, até mórbidos que por muito tempo quiseram, e ainda hoje querem, se fazer passar pela poesia mais autêntica, pela mais sensível forma de se viver um estado poético.
Com ela não tem autor sagrado (mesmo os que mais admira, como Gertrude Stein), não tem sentimento hierarquicamente superior (ela mesmo já se definiu uma vez como a “patinha sem páthos”), o que tem é a força do poema, nascendo do contato furioso da existência, como uma sonda enviada para investigar todos os sentimentos que ainda não vivemos, como uma transparência através da qual se quer ver as pessoas de agora, na ruas de agora, falando a língua de agora, sentindo os sentimentos de agora.
Nesse sentido, acho que ela se inscreve numa esplêndida tradição da poesia universal, mas que infelizmente está em baixa no Brasil, apesar de Oswald de Andrade. Que é a tradição da anti-poesia de um Nicanor Parra, o maior poeta chileno do século, de uma Susana Thénon, o segredo mais bem guardado da poesia argentina, e de uma Adília Lopes, a portuguesa mais brasileira desde Carmem Miranda.
Para os poetas dessa tradição, o poema é a arma mais potente para desmontar as armadilhas que o tempo dispõe à nossa frente o tempo todo. Penso que a armadilha da identidade (sexual, política, nacional etc), que nos quer sempre “idênticos” a nós mesmos, sem possibilidade de metamorfose, é aquela que, até agora, mais mereceu os disparos certeiros da poesia de Angélica”.
Sentar e tomar um chá com Angélica Freitas. Este era o convite feito por ela a quem entrasse em seu blog, onde postava poemas, textos, impressões. Foi no espaço virtual que a poeta ganhou muitos leitores antes mesmo de publicar o primeiro livro, Rilke shake, em 2007, pela coleção Ás de Colete da Cosac Naify. A força inovadora de sua poesia não demorou a provocar comparações com nomes como a portuguesa Adília Lopes: por meio de uma língua ferina, ambas exercitam o espírito profanatório com que releem as tradições poéticas que as formaram. Seu estilo também traz algo de Cacaso e Leminski, pelo humor às vezes escrachado que carrega em si uma dimensão trágica, de tristeza, deslocamento e inviabilidade.
Com poemas inéditos, a nova edição de Rilke shake chega neste mês às livrarias e realiza um feito raro entre jovens poetas: uma reedição em tempo recorde, apenas dois anos após o lançamento. Mais um indício de que Angélica Freitas já tem lugar garantido na poesia brasileira contemporânea é o fato do livro figurar entre os finalistas do Prêmio Portugal Telecom de 2008.
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Um dos poemas inéditos, “cruzeiro”, você lê aqui neste blog; “eu durmo comigo”, também inédito, está no caderno de anotações, textos selecionados e serviços que a Cosac Naify preparou para a festa literária. Para ter um, basta procurar nas mesas de conversa de nossos autores.

Angélica Freitas. Foto: Adriane Santi
03/07 – Sexta, 10h – Mesa 6
Evocação de um poeta, com Angélica Freitas, Heitor Ferraz e Eucanaã Ferraz. Mediação de Carlito Azevedo
O maior indício da perenidade de um autor é sua influência sobre as gerações seguintes. Nesse quesito, poucos podem rivalizar com Manuel Bandeira, referência inescapável desde as primeiras manifestações do modernismo no Brasil. Nesta mesa, três nomes de destaque da nova poesia brasileira discutem a atualidade do poeta.
“Uma das coisas mais legais sobre escrever poesia, pra mim, é poder exercitar a observação. Estamos no piloto automático quase sempre. Nem registramos o que acontece ao nosso redor. Escrever um poema nos traz para o momento”.
[Angélica Freitas, no blog tome uma xícara de chá, finalizado em junho de 2009]
tenho pavor de festinhas
aparo as arestas das farsa
visto minha roupa nova
mas hoje não saio de casa
[Angélica Freitas, Rilke shake | Cosac Naify, 2ª edição, 2009]
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A minha maladresse
era uma forma de délicatesse
por uma e por outra
perdi a minha vida
maladresse e délicatesse
são nomes de bordados
que uma rapariga faz
na juventude
com aplicação
[Adília Lopes, Antologia | Cosac Naify, 2002]
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