Em seu Apresentação da poesia brasileira, escrito em 1946, Bandeira corajosamente apontou, com muito rigor, grandes promessas da poesia do país. Imaginem o que significava para um jovem poeta ter alguns de seus versos selecionados pelo mestre. Pois é exatamente esta sensação que revelam Ferreira Gullar, Lêdo Ivo, Mário Chamie, Thiago de Mello e Augusto de Campos ao Blog da Cosac Naify na Flip 2009.
“Certamente, foi com surpresa e alegria que vi meu poema ‘Mar azul’ incluído pelo mestre Manuel Bandeira na nova edição da Apresentação da poesia brasileira. Ele estava sempre aberto às novas buscas de expressão e já havia escrito uma crônica, no Jornal do Brasil, falando com simpatia da poesia concreta, que escandalizava muita gente. E me envaideceu muito ler, na Apresentação, a referência que fazia a mim, dizendo que eu era, dentre os novos poetas, “o mais estranho e inteligente”. Inteligente, não sei; estranho eu era, embora sem querer”.
Ferreira Gullar
Uma questão de sufixo
“Numa das últimas visitas de Manuel Bandeira a São Paulo, conversamos calmamente sobre poesia.
O local e cenário, escolhidos por ele, não poderiam ter sido melhores: a praça Dom José Gaspar, numa tarde serena de outono, à sombra do busto de Mário de Andrade.
Para Bandeira, o busto de Mário era mais do que uma presença escultórica; confirmava, também, a veracidade daquele seu poema “A Mário de Andrade ausente”, segundo o qual o autor de Paulicéia desvairada não morrera, apenas tinha se ausentado por algum tempo de nossa cidade. Estes belos versos do poema me vieram à memória:
Anunciaram que você morreu/ Você não morreu: ausentou-se./ A vida é uma só. A sua vida continua/ na vida que você viveu./ Por isso não sinto agora a sua falta.
Nesse clima, Bandeira foi me dizendo que o motivo de nosso encontro era, na verdade, uma questão de sufixo. Não entendi e perguntei:
- De sufixo?
- Sim, de sufixo.
Pedi esclarecimento e o poeta me esclareceu:
– Estou preparando a edição definitiva de meu livro Apresentação da poesia brasileira. Nas duas edições anteriores, eu vinha até a Geração de 45. Na próxima edição, vou encerrar o livro falando da Poesia Práxis, com a transcrição de um trecho de poema seu. Nesse trecho, você fragmenta duas palavras para multiplicá-las em várias outras.
- O mestre estaria dizendo que eu decomponho os afixos dos vocábulos, a exemplo da palavra “maravilha”, em que “mar” é prefixo, “ave” é infixo e “ilha” é sufixo?
- Exato. Só que, no texto seu que citarei, o meu interesse recai sobre o sufixo da palavra “asfalto”. Esta comparece nestes seus versos: o esfalfado arfar do asfalto/ falto de ar… Percebo, aí, a idéia contida de cansaço arfante e da perda de fôlego de quem se exaure pelas ruas da vida urbana. E aqui está o ponto: eu gostaria de saber se “falta” em lugar de “falto” não comunicaria melhor a sua mensagem, já que a “falta de ar”, no caso, seria um infortúnio comum a todas as pessoas aridamente esfalfadas, enquanto “falto de ar” restringe-se tão só à sensação de asfixia que o asfalto sugere.
Diante da fina acuidade de Bandeira, sem dizer sim ou não, reverenciei as suas observações.
Naquela tarde de outono, saboreei, com humor e humildade, outras lições do grande poeta, até nos despedirmos.
Confesso que, na época, não li a nova edição prometida por ele. Semana passada, porém, numa livraria da cidade topei com o livro, reeditado, no ano de 2000, pela Ediouro. Abri o volume e fui direto às suas páginas finais. Quase me faltou o ar! Embora ausente como Mário de Andrade, Bandeira cumpriu a promessa. Numa espécie de coautoria consentida, ele substituiu “falto” por “falta”, não faltando, assim, com a generosidade maior de sua palavra.
De fato, Manuel Bandeira encerra a edição definitiva de sua indispensável Apresentação da poesia brasileira não só com a citação daquele verso do meu poema “Migradores”, mas também com a transcrição de um breve texto crítico que o acompanha criativamente”.
Mário Chamie
[Amanhã, quarta-feira, leia os depoimentos de Lêdo Ivo, Thiago de Mello e Augusto de Campos]
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