“Como resultado de recentes medidas governamentais, a zona da cidade conhecida como Hell kitchen está prestes a desaparecer. Por isso, o escritor tem cada vez mais dificuldade para localizar pontos de encontro de pessoas que praticam sexualidades alternativas, por assim dizer. Prestou queixa, denunciando essa decisão das autoridades como uma ingerência ilegal na vida privada dos cidadãos”.
[Trecho de Flores]
Mario Bellatin lança Flores em duas noites de autógrafo, em São Paulo e Rio.
Segunda-feira, 06 de julho, às 19h , São Paulo
Livraria Cultura – Conjunto Nacional
Terça-feira, 07 de julho, às 19h, Rio de Janeiro
Livraria da Travessa – Ipanema
*Texto de Joca Reiners Terron para quarta capa de Flores
Uma estufa dedicada ao cultivo de raras mutações, Flores é também a introdução perfeita à obra de Mario Bellatin. Mas o assunto aqui não é exatamente a perfeição. No mundo de próteses, membros postiços e mutilações de Flores, a beleza será imperfeita ou não será. Ou melhor: em Flores, a beleza é artificial, de plástico e se condensa na forma e nos artifícios da ficção. Se há algo de irretocável no livro é justamente a exatidão artificial das flores plásticas que dão título a cada um dos 36 fragmentos que compõem o texto.
Renovador de um gênero fronteiriço, a novela, o mexicano Bellatin desde os primeiros livros imprime rígida consistência formal às suas histórias, concebendo textos de brevidade e rigor incomuns à caudalosa língua espanhola. Nas flores nascidas no interior desta máquina narrativa, evidencia-se a montagem como procedimento. Tal um Edward Mãos de Tesoura tarado por elipses, Mario Bellatin poda suas flores a golpes de bisturi, arrancando delas a beleza fria surgida do silêncio e da mais absoluta contenção. “Existe uma antiga técnica suméria, para muitos a precursora das naturezas mortas, que permite a construção de estruturas narrativas complexas a partir da soma de determinados objetos que, juntos, compõem um todo”, afirma o autor, com firmeza de estatuto a reger toda uma obra.
O universo de Flores é o da diferença, de uma busca por “religiões e sexualidades alternativas”, em que o anômalo cava seu lugar no interior da norma. Os personagens do livro, solitários e ambíguos, são aparentemente muito diferentes entre si: há o cientista que descobre certo fármaco cuja composição causa deformações físicas; um outro que diagnostica vítimas do produto, e entre elas descobre mutantes que buscam se beneficiar da indenização do laboratório; os gêmeos que são encontrados sem braços nem pernas e adotados por uma poeta; um homem, o Amante Outonal, que tem especial atração por velhos. Mas algo de comum rasteja entre essas figuras, a violência implícita mas potencial, ou a sexualidade como uma entre as várias dimensões da agressividade.
Autor de extensa obra pulverizada em dezenas de pequenas narrativas, escritas para serem lidas como um único e grande livro, Mario Bellatin parece estar conduzindo ao limite dois dos maiores mitos estilísticos da literatura moderna: mais frio do que o iceberg de Hemingway e sua enorme área de significação oculta, Bellatin é o próprio iceberg, que submerge despedaçado, feito um quebra-cabeça; especialista em cortes tal como Tchekhov, ninguém amputa livros e finais de histórias impiedosamente como ele.
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