O casal de vilões Macbeth e Lady Macbeth, que sujam as mãos de sangue para chegar ao trono da Escócia, foi encarnado pelos maiores atores do cinema e teatro do século XX: Sarah Bernhardt, John Gielgud, Lawrence Olivier, Jean Vilar, Paulo Autran e Tônia Carrero, entre muitos outros reunidos na seleção iconográfica da edição. A montagem de Antunes Filho (Trono de sangue, 1992) aparece na capa e no ensaio fotográfico de Emidio Luisi que ilustra a edição de Macbeth da Cosac Naify, marcando, ao lado da tradução de Bandeira, a forte presença de Shakespeare entre os melhores artistas brasileiros.
Abaixo estão imagens de três célebres montagens.

Sarah Bernhardt. Foto: Félix Nadar (1884)

Laurence Olivier e Vivian Leigh. Foto: Stratford-on-Avon (1955)

Luiz Melo como Macbeth em Trono de sangue, direção de Antunes Filho. Ensaio fotográfico de Emidio Luisi
Numa tarde fria de domingo, “no dia da morte de Michel Leiris”, o telefone acorda o autor-narrador de O convidado surpresa. Ele reconhece a voz da mulher que o abandonara cinco anos antes sem nenhuma explicação. Perplexo, ele ouve não as desculpas que esperava (e sempre esperou), mas o convite para uma festa. Ela o convida para o aniversário de uma amiga que costuma celebrar a data chamando para a festa o número de pessoas correspondentes à sua idade e mais um, o convidado surpresa. Bouillier é o convidado surpresa da vez; a aniversariante é a artista plástica Sophie Calle. A relação, cujo início é narrado neste livro, terminou tempos depois com um e-mail enviado por Bouillier, que dizia na última linha: “prenez soin de vous” (“cuide de você”). A frase deu origem à famosa exposição de Calle, exibida na Bienal de Veneza em 2007, que reuniu depoimentos de 107 mulheres sobre a mensagem de rompimento. Depois de polêmicas e discussões, os dois se reencontram agora em uma mesa da Flip 2009.
Se é possível conhecer uma época através de suas histórias de amor, O convidado surpresa é o retrato deste início de milênio. Seu autor se insere em uma tradição confessional que acaba por deixar à mostra a intimidade e a encenação pública do eu.
Uma comparação em chave oposta pode ser feita com o livro Carta a D. (Cosac Naify, 2008), em que o filósofo e escritor André Gorz (1923-2007) narra sua paixão pela mulher, Dorine, nos quase sessenta anos em que viveram juntos partilhando posturas políticas e intelectuais. Dois momentos históricos, duas histórias de amor.
tenho pavor de festinhas
aparo as arestas das farsa
visto minha roupa nova
mas hoje não saio de casa
[Angélica Freitas, Rilke shake | Cosac Naify, 2ª edição, 2009]
*
A minha maladresse
era uma forma de délicatesse
por uma e por outra
perdi a minha vida
maladresse e délicatesse
são nomes de bordados
que uma rapariga faz
na juventude
com aplicação
[Adília Lopes, Antologia | Cosac Naify, 2002]

Projeto gráfico especialíssimo para Flores, criado por Elaine Ramos e Maria Carolina Sampaio. Foto: Nino Andrés
Aqui vai uma tentativa de ir direto ao ponto (um aviso: quando se trata de Bellatin, o “ponto”, qualquer que seja, se move): Flores é formado por narrativas curtas (todas com nomes de flores) que se relacionam entre si, fragmentos de vida de personagens solitários e ambíguos que não abrem espaço para zonas de conforto. O pai que infecta o filho indesejado com o vírus da Aids; mães que disputam a guarda de gêmeos sem membros, um escritor a quem lhe falta uma perna e é membro de uma seita mulçumana. Possuidores de deformações físicas – como o próprio autor, vítima de talidomida, remédio usado contra enjoos da gravidez e que causou má-formação em bebês nos anos 50 e 60 –, os personagens vão em busca da origem de seus males. Contadas de maneira seca e reticente, as tramas possuem uma violência implícita e potencial, em um mundo instável em que a anormalidade é a regra.
*Texto de Joca Reiners Terron para quarta capa de Flores
Uma estufa dedicada ao cultivo de raras mutações, Flores é também a introdução perfeita à obra de Mario Bellatin. Mas o assunto aqui não é exatamente a perfeição. No mundo de próteses, membros postiços e mutilações de Flores, a beleza será imperfeita ou não será. Ou melhor: em Flores, a beleza é artificial, de plástico e se condensa na forma e nos artifícios da ficção. Se há algo de irretocável no livro é justamente a exatidão artificial das flores plásticas que dão título a cada um dos 36 fragmentos que compõem o texto.
Renovador de um gênero fronteiriço, a novela, o mexicano Bellatin desde os primeiros livros imprime rígida consistência formal às suas histórias, concebendo textos de brevidade e rigor incomuns à caudalosa língua espanhola. Nas flores nascidas no interior desta máquina narrativa, evidencia-se a montagem como procedimento. Tal um Edward Mãos de Tesoura tarado por elipses, Mario Bellatin poda suas flores a golpes de bisturi, arrancando delas a beleza fria surgida do silêncio e da mais absoluta contenção. “Existe uma antiga técnica suméria, para muitos a precursora das naturezas mortas, que permite a construção de estruturas narrativas complexas a partir da soma de determinados objetos que, juntos, compõem um todo”, afirma o autor, com firmeza de estatuto a reger toda uma obra.
O universo de Flores é o da diferença, de uma busca por “religiões e sexualidades alternativas”, em que o anômalo cava seu lugar no interior da norma. Os personagens do livro, solitários e ambíguos, são aparentemente muito diferentes entre si: há o cientista que descobre certo fármaco cuja composição causa deformações físicas; um outro que diagnostica vítimas do produto, e entre elas descobre mutantes que buscam se beneficiar da indenização do laboratório; os gêmeos que são encontrados sem braços nem pernas e adotados por uma poeta; um homem, o Amante Outonal, que tem especial atração por velhos. Mas algo de comum rasteja entre essas figuras, a violência implícita mas potencial, ou a sexualidade como uma entre as várias dimensões da agressividade.
Autor de extensa obra pulverizada em dezenas de pequenas narrativas, escritas para serem lidas como um único e grande livro, Mario Bellatin parece estar conduzindo ao limite dois dos maiores mitos estilísticos da literatura moderna: mais frio do que o iceberg de Hemingway e sua enorme área de significação oculta, Bellatin é o próprio iceberg, que submerge despedaçado, feito um quebra-cabeça; especialista em cortes tal como Tchekhov, ninguém amputa livros e finais de histórias impiedosamente como ele.
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