Cerca de duzentos exemplares de O convidado surpresa, de Grégoire Bouillier, foram vendidos logo após o fim da mesa dividida com Sophie Calle. Havia quem procurasse o livro em todas as livrarias da cidade.

Grégoire Bouillier e Sophie Calle autografam sem parar. Fotos: Livia Deorsola

Grégoire Bouillier

Uma enorme fila se formou a espera de um autógrafo do escritor e da artista

A atriz Malu Mader, com o livro "O convidado surpresa", de Grégoire Bouillier, após assistir à mesa que o autor francês dividiu com a artista conceitual Sophie Calle. Foto: Andressa Veronesi
Por muito pouco a mesa mais aguardada desta Flip não acontece antecipadamente: na noite de ontem, quinta-feira (2/7), Grégoire Bouillier acabava de deixar a mesa de um bar no centro de Paraty quando a artista plástica Sophie Calle, para quem dedicou o livro O convidado surpresa, chegou. Não se esbarraram por uma questão de poucos minutos.
O bate-papo entre ambos na Flip (mesa 12), Entre quatro paredes, está marcado para sábado, às 11h45. Se a Internet não cair, haverá transmissão pelo Twitter Cosac Naify.
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Horas antes do quase-encontro, Grégoire Bouillier, em entrevista coletiva para a imprensa, falou brevemente sobre a relação entre arte e a exposição da intimidade (Sophie Calle transformou o e-mail de rompimento de namoro escrito por ele em uma exposição artística na Bienal de Veneza, 2003, a partir da interpretação de 107 mulheres sobre a mensagem).
“O que interessa é que a obra de arte seja feita a partir do que emociona a pessoa. Mas isso não deve serir de pretexto para alimentar uma indústria de celebridades, que nada tem a ver com a intrepretação artística dos sentimentos”, disse o francês.
Em 2003, a revista francesa Les Inrockuptibles publicou um questionário elaborado por Sophie Calle e Grégoire Bouillier sobre suas próprias questões pessoais, artísticas e filosóficas. Leia aqui as perguntas.
Numa tarde fria de domingo, “no dia da morte de Michel Leiris”, o telefone acorda o autor-narrador de O convidado surpresa. Ele reconhece a voz da mulher que o abandonara cinco anos antes sem nenhuma explicação. Perplexo, ele ouve não as desculpas que esperava (e sempre esperou), mas o convite para uma festa. Ela o convida para o aniversário de uma amiga que costuma celebrar a data chamando para a festa o número de pessoas correspondentes à sua idade e mais um, o convidado surpresa. Bouillier é o convidado surpresa da vez; a aniversariante é a artista plástica Sophie Calle. A relação, cujo início é narrado neste livro, terminou tempos depois com um e-mail enviado por Bouillier, que dizia na última linha: “prenez soin de vous” (“cuide de você”). A frase deu origem à famosa exposição de Calle, exibida na Bienal de Veneza em 2007, que reuniu depoimentos de 107 mulheres sobre a mensagem de rompimento. Depois de polêmicas e discussões, os dois se reencontram agora em uma mesa da Flip 2009.
Se é possível conhecer uma época através de suas histórias de amor, O convidado surpresa é o retrato deste início de milênio. Seu autor se insere em uma tradição confessional que acaba por deixar à mostra a intimidade e a encenação pública do eu.
Uma comparação em chave oposta pode ser feita com o livro Carta a D. (Cosac Naify, 2008), em que o filósofo e escritor André Gorz (1923-2007) narra sua paixão pela mulher, Dorine, nos quase sessenta anos em que viveram juntos partilhando posturas políticas e intelectuais. Dois momentos históricos, duas histórias de amor.

Grégoire Bouillier. Arquivo pessoal
Em entrevista a Folhaonline (23/06/2009), Teresa Chaves pergunta: “O senhor acredita que Calle e o senhor exponham suas vidas privadas de maneiras distintas?”
Bouillier – Acredito que a diferença essencial seja que Sophie Calle é uma artista plástica e eu sou um escritor. Isso quer dizer que nosso olhar sobre o mundo não é o mesmo, não buscamos os mesmos efeitos e não dispomos dos mesmos meios. Não manipulamos o íntimo da mesma maneira. Por exemplo, para mim é inconcebível pedir aos outros que exprimam em meu lugar aquilo que eu sinto, como vejo as coisas etc. Isso é algo que vai totalmente de encontro aos objetivos da literatura, da verdade da escrita. Mas é que a verdade de Sophie está no exterior. Tudo o que eu digo é que a verdade dela não é aquela de um “homem de letras”…
04/07 – Sexta, 11h45 – Mesa 12
Entre quatro paredes, com Grégoire Bouillier e Sophie Calle. Mediação de Angel Gurría-Quintana
Em Prenez soin de vous, exposição que representou a França na Bienal de Veneza de 2007 e programada para acontecer em São Paulo em julho, Sophie Calle exibe a reação de 107 mulheres à carta de rompimento recebida de seu ex-namorado, Grégoire Bouillier. Pela primeira vez eles aparecem em público para discutir o episódio e embaralhar ainda mais as fronteiras entre vida privada e vida pública, entre vivência pessoal e ficção.
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