"OS MITOS GREGOS CONTINUAM FORTES EM NOSSO IMAGINÁRIO E HÁ ALGO NELES QUE REFLETE A NATUREZA HUMANA. POR ISSO CONTINUAM SENDO CONTADOS ATÉ OS DIAS DE HOJE"

 

Quando o assunto é mitologia grega, logo nos vem à cabeça as aventuras de Odisseu, herói da Odisséia, em seu incrível retorno a Ítaca depois de lutar na Guerra de Tróia; ou as façanhas de Aquiles, que proclama sua ira contra os deuses durante episódios do mesmo conflito, contados na Ilíada. Estas e outras narrativas mitológicas da Grécia Antiga publicadas em livros quase sempre nos mostram as aventuras vividas por deuses e heróis já em sua fase adulta. Mas como foi a infância de cada um deles? De onde vêm as capacidades tão incomuns aos mortais?

Para desvendar a infância destes personagens ao público infantil, Adriane Duarte, professora de língua e literatura grega na Universidade de São Paulo (USP), empreendeu uma pesquisa de fôlego que deu origem ao livro O nascimento de Zeus e outros mitos gregos, oitavo título da coleção Mitos do Mundo. O primeiro conto traz a história de Zeus, o deus supremo do Olimpo, seguido por Atena, Hérmes, Perseu, Dionísio, Teseu... Ao revelar como cada um deles viveu quando criança, segundo as narrativas milenares, a autora abre as portas da literatura clássica para crianças e jovens.

O humor e a relação entre o mito e a realidade histórica presentes no livro encontram correspondência com as ilustrações de Felipe Cohen, nas quais a iconografia grega vira, literalmente, brinquedo de criança.

Leia, a seguir, entrevista com a autora Adriane Duarte.

Entrevista para Lívia Deorsola e Giovana Pastore



Adriane Duarte

Como nasceu a idéia de revelar a infância dos deuses e heróis gregos ao público infantil?
Meu primeiro "público alvo" foram meus filhos. Nunca havia escrito livros infantis, mas como sempre li e contei a eles histórias sobre este universo, percebi que as informações disponíveis não chegavam tão facilmente às crianças, que encontravam dificuldade para fazer uma ponte, ainda que mínima, entre suas experiências e as vividas por esses personagens. Um dos motivos decorre das narrativas quase sempre apresentarem passagens dos deuses e dos heróis já em sua fase adulta, sempre prontos e acabados, sem o resgate de formação infantil. Também havia poucos dados sobre o cotidiano, sobre a vida familiar, que interessam muito às crianças. Depois de me certificar desta lacuna, surgiu a vontade de trazer à tona essas passagens infantis. Outra idéia importante para mim era trabalhar com o processo de formação do sujeito. Afinal, você só se torna o adulto que é levando em conta toda sua trajetória desde o nascimento, contando com as influências familiares. É sobretudo através da brincadeira que se desenvolvem certas características e aptidões que, na vida adulta, serão consolidadas.

Dentro da multitude de personagens que formam a mitologia grega, o livro apresenta uma seleção, entre deuses e heróis. Como chegou a ela?
Passei a selecionar os mitos em que aparecessem elementos da infância e da vida familiar dos personagens. Comecei pelo levantamento sobre os heróis para depois ampliar para os dados sobre os deuses. Para alguns, já tinha em mente os episódios de infância que, por si só, são relatos interessantes. Os próprios gregos não davam muita importância a esta etapa da vida de seus heróis e deuses. Mas existem elementos suficientes nas histórias que me permitiram trabalhar com isso, embora não sejam facilmente encontrados. Todos os relatos estão apoiados em fontes literárias, dos mitógrafos antigos.

Os personagens estão todos ligados ao deus Zeus, de uma forma ou de outra. Por que a opção por Zeus como a origem de toda a descendência apresentada?
Sim, é a partir dele que decorrem todos os nascimentos, oriundos de suas uniões com deusas e com mortais, uma forma de consolidar sua linhagem e autoridade nos planos divino e humano. A decisão de iniciar por aí está relacionada com o fato de, na mitologia grega, os deuses terem a precedência, obviamente. E Zeus é o deus do Olimpo, o deus supremo. No primeiro conto do livro, Crono, seu pai, descobre por um oráculo que será destronado por um filho. Então ele passa a comer todos os filhos para tentar evitar a previsão. Sua mulher Reia, cansada de ver todos seus bebês devorados pelo marido, engana-o ao dar a ele uma pedra envolvida em um manto no lugar de seu filho recém-nascido. A pedra é comida por Crono, que pensa estar ingerindo outro rebento. Zeus, então, acaba sendo criado por outra família, longe dali. Quando ele cresce e descobre sua origem, vai até o pai e dá uma poção a Crono, que regurgita todos os irmãos engolidos. Unidos, os irmãos combatem Crono e então Zeus toma o seu lugar no Olimpo. Para facilitar o entendimento, criamos uma árvore genealógica, onde se pode ver qual a procedência de cada um dos deuses e dos heróis no ramo familiar que parte de Zeus.

 

As histórias estão repletas de crianças abandonadas pelos pais, criadas longe da família. Na Grécia antiga, isto de fato era comum. Que relação se estabelece entre o mito e a realidade?
A relação entre os mitos e a realidade é muito forte. O mito não é uma criação totalmente descolada da experiência das pessoas. A experiência humana está refletida na mitologia e há uma comunicação constante entre estas duas pontas. Por isso, cada um dos contos oferece um dado histórico que comprova este paralelo. Geralmente, as pessoas ficam chocadas quando sabem da prática grega na Antigüidade de abandonar suas crianças. Durante os séculos XV e XVI, houve uma retomada da Grécia como principal inspiração da nossa civilização, mas todos os valores que não eram pertinentes foram varridos para debaixo do tapete, como ocorreu com o abandono das crianças. Os gregos podiam decidir que não iam criar um filho, e que ele seria, sim, abandonado à morte na montanha. Outro exemplo é o fato de a economia grega baseada na mão-de-obra escrava ter sido usado como argumento para justificar a escravidão no século XVI. Quando a escravidão se torna algo moralmente condenável, essa informação passa para o pé de página dos livros sobre a civilização grega. É interessante perceber como os mitos continuam fortes em nosso imaginário. Eles nos ajudam na interpretação de uma série de outros produtos culturais que o Ocidente vem produzindo desde os romanos, povo que incorporou aspectos gregos na literatura, nas artes plásticas, na arquitetura... E atualmente essa linguagem está disseminada em desenhos animados, no cinema.

De que outras formas o cotidiano grego aparece no livro?
Para destacar a relação do mito com o cotidiano, há outro "extra": uma seleção do que é mais importante nos utensílios, nas armas, na arquitetura, nas vestes, nos jogos e espetáculos da Grécia Antiga, com a explicação de como era o contexto em que tudo isso aparecia e com a página correspondente onde a imagem citada aparece. Neste sentido, as ilustrações do Felipe Cohen, além de divertirem, ajudam a imaginar como eram as coisas naquela época.

E como os leitores infantis de hoje podem encontrar paralelos com as suas experiências reais? Alguns dos personagens são muito "arteiros", não?
Se por um lado há essa correspondência entre a história grega e os mitos, inclusive coisas relativas à experiência do cotidiano, por outro, também há algo que é da natureza humana. Há coisas que fazem parte de um determinado contexto e coexistem com dados inerentes ao humano, em qualquer época histórica. Por isso esses mitos continuam sendo contados ininterruptamente até os dias de hoje. No caso da infância dos personagens, falo do espírito infantil, de brincar, fazer arte. Procurei apontar o que era parecido na experiência contemporânea e na vivência dos gregos - a presença de animais de estimação, o estudo formal pelo qual alguns dos heróis passaram e outras coisas prosaicas, sem querer apagar totalmente as dificuldades enfrentadas por eles. Há diabruras mais sérias, como a cometida por Héracles, um herói tão forte a ponto de, perdendo a paciência, jogar a lira na cabeça de seu professor, matando-o. Fiquei pensando se deveria contar este episódio, mas depois que Zeus enfrentou e destronou o próprio pai, não dá para censurar mais nada. O melhor é contextualizar essas passagens, e não escondê-las.

 

Ainda sobre o abandono das crianças, as histórias mostram que, desde que nascem, os deuses e heróis têm que lutar para sobreviver...
Sim. Um bom exemplo é o conto "Perseu e os peixes". Nele, os filhos de Zeus fruto de outros relacionamentos despertam o ciúme da esposa, que faz de tudo para matar os bebês antes mesmo de nascerem. Assim como Zeus sobreviveu por causa de um artifício da mãe, nos outros casos acontecerá alguma coisa parecida. O confronto não surge imediatamente: há aí uma angústia, porque a criança está sempre ameaçada. Já as soluções para a que ela sobreviva se dão mais através da astúcia do que propriamente de confronto físico. Há passagens dignas de uma tragédia. Já outras passagens não estão relacionadas com o abandono, mas são igualmente impactantes. É o caso de Atena, que nasce, literalmente, da cabeça de Zeus. Então existe um padrão: assim como os irmãos de Zeus foram engolidos por Crono para depois ressurgirem, Zeus engole a mãe de Atena para que ela não nasça.

Apesar de serem histórias trágicas em sua origem, elas estão relatadas com muito humor no livro.
O humor é um traço de meu trabalho; é a partir dele que encaro a vida e acredito que isso se reflete no livro. Dentro de meus estudos sobre literatura grega, meu foco é a comédia. Tenho essa tendência de ver as coisas pela comicidade, por isso trabalho com comédia, e não com tragédia. No meio acadêmico, dividimos as pessoas que são da Ilíada e as que são da Odisséia. A Ilíada, cheia de morte, com Aquiles morrendo no final, e ele já sabe que vai morrer... E a Odisséia é o retorno; Ulisses vai voltar pra família... Eu adoro a Ilíada, mas definitivamente sou uma pessoa da Odisséia. Isso influenciou na maneira de pinçar os episódios para O nascimento de Zeus... Os elementos trágicos estão aí também, mas no momento de relatar, o humor prevalece. Isso é percebido não apenas no texto, mas também nas ilustrações.

Sobre as fontes que consultou, quais ofereceram maior ajuda na pesquisa?
Talvez seja sobre Hermes que tenhamos os elementos mais consistentes sobre sua infância divina. Já no primeiro dia de vida, ele toca lira, instrumento que ele mesmo criou, e rouba as vacas de seu irmão Apolo. Descoberto o roubo, Apolo exige as vacas de volta. Hermes então lança mão do som que sai de sua lira, deixando o irmão maravilhado. O menino propõe a troca: entrega a lira para poder ficar com as vacas. Não é à toa que Hermes é o deus dos ladrões, dos comerciantes, dos negociantes. Sobre Odisseu, também chamado de Ulisses, há mais informações, sobretudo na Odisséia, mas os elementos já não são tão fartos. Já sobre os outros deuses e heróis, foi um trabalho de muita pesquisa até encontrar o que precisava.

 

O livro traz um apêndice com fontes e sugestões de leituras sobre os mitos gregos...
Isso é muito importante. São fontes mais amplas, que dão boas referências a respeito de um assunto que é vastíssimo. A mitologia não é feita de histórias fechadas; ao contrário, comportam diversas versões coexistentes. É comum o leitor ler a mesma história de forma diferente em outro lugar. No próprio livro, fiz questão de afirmar isso, ou seja, que o mito permite esta elaboração diversa. Na verdade, o mais importante é que a mitologia pode ser a porta de entrada para a cultura clássica em geral: o leitor começa pelo mito e adentra na literatura propriamente dita. Se esperamos que o leitor infantil chegue até aí, é interessante oferecer a ele um atalho - o conhecimento da experiência infantil dos heróis e a percepção de sua própria experiência.

No livro, as "histórias que nascem do ovo" referem-se à imagem de Helena nascida de um ovo. Poderia explicar essa analogia?
A idéia de começar do ovo é muito marcante no contexto, porque existe um debate significativo na poética grega sobre se uma história deve ser contada "a partir do ovo" ou se deve ser desenrolada a partir do ponto que for mais interessante. A expressão refere-se ao nascimento de Helena, filha de Zeus e de Leda, uma mortal. Quando Zeus e Leda se unem, ele está metamorfoseado em cisne, por isso sua filha nasce de um ovo. Então, quando os gregos queriam contar algo desde o começo, diziam que começariam "a partir do ovo". Acho que realmente este é o grande diferencial do livro, o de começar pela infância, que é o princípio. De todos os livros que consultei cuja proposta é a de apresentar a mitologia grega, poucos fazem alguma espécie de recorte. O nosso recorte aqui são as experiências iniciais, de formação, que todo mundo tem. Apenas para completar a história: mais tarde, Helena, dona de uma beleza jamais vista, provoca a paixão de Páris, que a rouba do rei Menelau. Inconformado, Menelau e seu irmão Agamenão partem para resgatar Helena e destroem Tróia por completo. A infância de Páris está contada no livro.

Este é seu primeiro livro para crianças. Como foi mudar o canal de uma linguagem acadêmica para uma linguagem infantil?
Foi difícil. A Isabel Coelho, editora da área infantil da Cosac Naify, me ajudou bastante nisso. Por outro lado, este é um trabalho próximo do que estou acostumada a estudar. Além disso, apesar da dificuldade, sou uma grande leitora de livros infantis, não só porque tenho filhos pequenos, mas também porque tenho viva minha própria memória infantil. Meu pai sempre contou "histórias de boca" - minha filha costuma dividir as histórias entre as de livro e as "de boca".