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A autora e ilustradora
Angela-Lago nasceu em Belo Horizonte (MG), em 1945. Desde 1980,
já publicou cerca de trinta livros no Brasil e no exterior,
além de ter ilustrado mais de quinze títulos de outros
autores. Sua preferência são os livros infantis. Formada
em Serviço Social, morou na Venezuela e na Escócia,
onde estudou desenho gráfico. Quando voltou ao Brasil, em
meados dos anos de 1970, resolveu fazer o que mais gostava: contar
histórias. Recebeu diversos prêmios Jabuti e da Fundação
Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e outros internacionais,
na França, na Espanha e na Bienal de Bratislava. Por três
vezes, foi a candidata brasileira ao Prêmio Hans Christian
Andersen de Ilustração do International Board
on Books for Young People (IBBY). O livro Cena de rua
(1994), incluído em uma coletânea da Abrams Press,
de Nova York, foi selecionado entre os quinze melhores livros de
imagens do mundo. João Felizardo – o rei dos negócios
é o seu primeiro trabalho publicado pela Cosac Naify.
Conheça o site da autora: www.angela-lago.com.br |
Entrevista
para Vanessa Gonçalves

A senhora
gostava de ler e desenhar desde pequena?
Sempre gostei de ler e desenhar.
Quando despertou na senhora a
vontade de trabalhar com livros?
Ainda menina. Jovem, publiquei poemas visuais
no Suplemento Literário do jornal Minas Gerais, à
época dirigido pelo Murilo Rubião.
Por que a senhora prefere contar
histórias para as crianças?
Fui enfeitiçada. Quando não
tem ninguém por perto, largo minha pele de sessenta anos e cresço,
cresço, cresço até quase virar criança.
Quais são suas técnicas
de ilustração?
Lápis de cor, aquarela, óleo,
acrílica, litogravura, freehand, photoshop,
flash… Cada hora uma coisa. Com isso tenho as vantagens
do aprendiz: o entusiasmo da novidade e alguma condescendência
comigo mesma.

Em sua opinião, qual é
a importância da ilustração em um livro infantil?
Qual deve ser o papel da ilustração em relação
ao texto?
Há limites entre texto e imagem?.
Enquanto a história ainda não
foi lida, a ilustração é a sedutora do triângulo
amoroso. É ela quem provoca o primeiro olhar e leva a criança
à casa do livro. Mas, depois, não há mais um papel
definido, e sim diferentes possibilidades. E não há limites.
A ilustração pode narrar, o texto pode ilustrar....
Como surgiu a idéia para
o livro João Felizardo - o rei dos negócios?
Não me lembro mais. Esse conto me
fascina há tantos anos! Adoro a idéia de viajar leve feito
o João Felizardo no final.
O João Felizardo é
uma forma de posicionar-se
contra o consumismo infantil?
Para mim é uma reflexão sobre
perdas, sobre desprendimentos. Sobre tirar as capas, descascar a cebola.
É um conto antigo, anterior à questão do consumismo,
tal como a vemos hoje. Vai além. É atual, da mesma forma
que o foi para os velhos e as crianças que se reuniam ao redor
do fogo na Europa antes da industrialização, ou, mais
longe ainda, nos países árabes. Mas pode ser lido como
uma crítica ao consumo também.
Quais são as principais
diferenças
entre ilustrar um livro escrito pela senhora
e um livro escrito por outro autor?
Quando escrevo, a imagem se intromete na
história. Ao longo do processo de criação, posso
modificar o texto e a ilustração quantas vezes quiser
para que o livro — a soma dos dois — funcione. O texto de
outro autor chega pronto. Estou sujeita a ele. Devo servi-lo humildemente.

Como é ilustrar e escrever
para editoras estrangeiras?
Não há muita diferença.
Dá igual satisfação trabalhar com a Fondo de Cultura,
a Companhia das Letrinhas, a Seuil, a Cosac Naify. Também gosto
de trabalhar com editoras mineiras e ir à gráfica acompanhar
a primeira edição. Aí sim é diferente.
Por que o livro João
Felizardo - o rei dos negócios
foi lançado primeiro no México?
A senhora escreveu originalmente em espanhol?
Daniel Goldin, que era editor da Fondo de
Cultura, me pediu um livro inédito. O primeiro texto foi escrito
provavelmente em portunhol.
Quem são seus ilustradores
favoritos?
São muitos e de épocas e estilos
distintos: Albrecht Dürer, Gustave Doré, Grandville, Honoré
Daumier, Arthur Rackham, Edward Lear, Maurice Sendak…
Entre os
ilustradores contemporâneos brasileiros de livros para crianças,
Eva Furnari e Odilon
Moraes.
Quando a senhora escreve ou ilustra
um livro,
pensa nas crianças que irão lê-lo?
Penso sim. Mas pensar no leitor não
é exclusividade dos autores de livros infantis. Machado de Assis
provavelmente imaginava a leitora com quem conversava.
Como foi fazer este primeiro título
em parceria com a editora Cosac Naify?
Foi ótimo. A tradução
ganha do original, graças a toda a equipe.