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Articulista do jornal
Folha de S.Paulo e editor da PubliFolha, o escritor gaúcho
Arthur Nestrovski, que também foi professor titular no programa
de pós-graduação em comunicação
e semiótica da PUC/SP, vem se destacando há mais de
uma década como um dos mais criativos autores de textos para
crianças. Ao todo, o escritor já publicou sete livros
destinados ao público infanto-juvenil, dentre eles, Bichos
que existem & bichos que não existem (Cosac Naify,
2002), livro que conquistou o Prêmio Jabuti de “Livro
do Ano/ Ficção” e o de “Melhor Livro Infantil”;
Coisas que eu queria ser (Cosac Naify, 2003); Barulho,
barulhão, barulhinho (Cosac Naify, 2004); e Cores
das cores (Cosac Naify, 2006).
A obra de Nestrovski chama a atenção por sua linguagem
inesperada e passa longe dos clichês que estamos acostumados
a encontrar na literatura infanto-juvenil. Na entrevista que segue,
o escritor, crítico literário e músico fala
sobre os seus textos e sobre as questões que envolvem a feitura
e recepção da literatura infanto-juvenil. |
Entrevista por Dirce Waltrick do
Amarante*

Cecília
Meireles afirmava que a literatura infantil deveria ser aquela que as
crianças lêem “com utilidade e prazer”. Não
haveria, portanto, uma literatura infantil a priori, mas a
posteriori. Segundo a escritora, “a confusão resulta
de propormos o problema no momento em que já se estabeleceu uma
‘literatura infantil’, uma especialização
literária visando particularmente os pequenos”. Você
concorda com Cecília Meireles? O que você entende por literatura
infantil (ou infanto-juvenil)?
O escrito russo Gorki diz que “escrever para crianças é
igual a escrever para adultos – só que mais difícil”.
Dá para resumir as duas citações (de Cecília
Meireles e dele) na idéia de que literatura infantil tem de ser
literatura para todo mundo, até para crianças.
Não é um gênero de limites bem definidos, nem idades.
Você sempre usa uma linguagem
inesperada em seus livros. Em Bichos que existem e bichos que não
existem, por exemplo, você utiliza muitas vezes o formato
da enciclopédia, mas em Barulho, barulhinho, barulhão
você parece optar por uma partitura. Em comum, seus livros costumam
trabalhar com o mundo real e com o imaginário, à moda
de Edward Lear. Como você compõe seus livros?
Não existe regra. Cada livro surge
de uma primeira faísca, um acidente das idéias ou da percepção.
Se essa faísca vai ou não crescer, depende de algo que
já é uma idéia do livro como livro se formando,
junto com aquela primeira intuição. Quer dizer: se não
surge uma noção da forma, do jogo do livro, essas idéias
brilham alguns segundos e somem. Só muito de vez em quando vem
uma faísca boa nesse sentido. Quando vem, é como se o
livro já estivesse resolvido, ele se inventa não só
como tema mas como forma de escrever. A partir daí, começa
o trabalho, que pode levar dias, meses, ou anos.

Seus livros já foram premiados
e traduzidos para outros idiomas. Existe uma receita para um bom livro
infantil transcender o local e a cultura em que foi gerado?
Se houvesse receita, todo mundo estaria seguindo.
E só valeria a pena ler quem não seguisse.
Parece-me que vivemos um período
de crise, de escassez de leitores de literatura. O mercado editorial,
no entanto, tem apostado no público infanto-juvenil, talvez na
tentativa de criar futuros leitores. As crianças brasileiras
ainda lêem? Até que ponto os produtos da indústria
cultural e os altos preços dos livros infantis, em especial,
interferem no processo de leitura?
Cada vez se lê menos, não há
dúvida. Se muitas editoras apostam no segmento infanto-juvenil,
isso se deve provavelmente a dois fatores: o primeiro é que,
nas famílias que têm condição, os pais ainda
acreditam que devem estimular seus filhos a fazer aquilo que eles mesmos,
muitas vezes, não fazem mais. Ninguém acha que é
melhor não ler. Então existe, de fato, um público
leitor numeroso, que justifica a publicação dos livros.
O segundo fator é o conjunto de programas de compra e distribuição
de livros para escolas, com verbas federais e estaduais. Por incrível
que pareça, o Brasil tem um dos maiores programas de distribuição
de livros do mundo. (A concorrência é dura; e os governos
negociam muito bem. Mas vale a pena, afinal, para quem consegue ter
um livro na lista).
Grande parte da produção
cultural destinada às crianças ainda se preocupa em oferecer
um conteúdo moral aos leitores, mesmo sob um enfoque “subversivo”,
como é o caso, por exemplo, do filme Shrek (citado por
Slavoj Zizek como um pseudo “lugar de resistência”)
e História meio ao contrário de Ana Maria Machado,
que apesar de todos os deslocamentos, não deixa de contar a velha
história (onde todos vivem felizes para sempre, na melhor caricatura
dos estudos pós-coloniais, citando de novo Zizek). Os seus livros
não se propõem a fazer um discurso moralista. Como você
escapou dessa “fórmula”?
É verdade que muitos livros para criança
guardam esse tom de “lição de vida”, geralmente
sob um viés conservador. É um cacoete: narrar histórias
como catequismo laico. Mas se a literatura para adultos não é
assim, por que teria de ser diferente com o que se escreve para crianças?
(Já vimos, no começo, que a distinção não
faz muito sentido.) Na literatura, existem caminhos conhecidos e cultivados,
mas não existe receita de forma – livros como Bichos
Que Existem e Bichos Que Não Existem e Coisas Que Eu
Queria Ser, por exemplo, na verdade são livros de poemas
em prosa, embora não se anuncie isso, para não assustar
ninguém –, nem existe fórmula de conteúdo.

Quem escolhe os ilustradores de
seus livros? Como é a sua relação com os ilustradores?
Você interfere no trabalho deles? A ilustração é
uma reescritura do texto. Como você a vê?
Para quem também trabalha como editor,
como é o meu caso, não dá para não seguir
o protocolo: quem escolhe o ilustrador é o editor. Tive sempre
muita sorte com minhas parcerias: Maria Eugênia, Marcelo Cipis,
Caco Galhardo, três artistas que viraram três amigos. É
fundamental trabalhar junto com o ilustrador, seja para sugerir detalhes,
seja para corrigir coisas que não parecem muito adequadas, por
esse ou aquele motivo. Existe uma terceira pessoa crucial nesse processo,
que é o designer, que faz o projeto gráfico do livro.
Quem comanda tudo é o editor; mas os quatro (editor, autor, ilustrador,
designer) têm de estar em sintonia.

6. Tenho a impressão de
que no Brasil os estudos teóricos sobre literatura infanto-juvenil
são destinados aos pedagogos e aos pais. A Teoria da Literatura
Infanto-Juvenil não tem a densidade da reflexão estética
para o público adulto. Qual a sua opinião a esse respeito,
já que além de músico e escritor, você também
é crítico literário?
Justamente por fazer esse papel duplo, de
crítico e de autor, acho melhor não fazer crítica
de literatura infantil, ou pelo menos não regularmente. É
uma das poucas áreas em que prefiro não racionalizar demais
as coisas. (Uma entrevista como essa é rara).
*Dirce Waltrick do Amarante é professora
de Literatura Infanto-Juvenil na UFSC, onde desenvolve pesquisa de pós-doutorado
como bolsista do CNPq.