| |
Há trinta anos, Ettore Bottini iniciou uma bem sucedida carreira como artista gráfico. Agora inaugura sua incursão pela escrita com o livro Mãe da rua, novo lançamento da coleção que inclui Moda, uma história para crianças, Tatuagem piercing e outras mensagens do corpo, Contos do balé e Yoga para crianças. O livro retrata a infância vivida entre o final dos anos cinqüenta e início dos sessenta e traz de volta uma São Paulo diferente, onde as ruas eram palco de descobertas e regras definidas por seus donos, os meninos. Ricamente ilustrada, a obra tem estrutura enciclopédica, pois traz, em ordem alfabética, brincadeiras e brinquedos artesanalmente confeccionados, em fotos e ilustrações acompanhadas por textos explicativos, recheados de humor e ironia.
A beleza deste livro evoca o encanto causado pelo clássico Meninos da rua Paulo (Cosac Naify, 2005), por reavivar lembranças afetivas e recordar as emoções na disputa e na defesa do território mágico, a rua. Para suscitar a curiosidade dos meninos de hoje, mas, sobretudo, para que "ex-meninos lembrem quem eram", conta Ettore na entrevista a seguir. |
Entrevista
para Giovana Pastore e Lívia Deorsola

 |
Ettore Bottini |
Como surgiu a idéia do livro? Afinal, você sempre se dedicou às artes gráficas e não ao texto.
Na verdade, tudo começou como uma idéia de projeto gráfico. Certo dia, eu estava conversando com meu irmão e tentávamos relembrar as regras da búlica, jogo com bolinhas de gude. De repente, me dei conta de que se eu já não lembrava bem das regras, ninguém lembraria. E eu não queria que essas coisas se perdessem. Tentei ainda lembrar de objetos que fazíamos e pensei que eles dariam belas imagens: canudo, carrinho de rolimã, estilingue... A idéia inicial, portanto, era fazer um manual de instrução a partir de fotos que mostrassem a fabricação artesanal desses brinquedos. Comecei a escrever sobre eles e toda a memória daquela época foi voltando. A coisa ficou divertida, porque vieram as lembranças de quem éramos nós, aqueles meninos da turma de rua.
Como elegeu essas brincadeiras para compor o livro e como você reproduziu os brinquedos da época?
Naqueles anos, os brinquedos eram confeccionados por nós mesmos, a partir das sobras da sociedade industrial. São Paulo já era, então, uma cidade industrial. Os botões de acetato acabaram porque parou de se importar este material. Por sorte, eu ainda os guardava na "federação", ou seja, numa caixa de sapato, que todo menino tinha, e pude usá-los para criar as imagens do livro.
 |
| |
Houve alguma dificuldade em fabricar os outros objetos?
Sim, tive que fazer algumas adaptações. O revolver de feijão era feito a partir de duas caixas de fósforo, um grampo de cabelo e uma argola de elástico. Não se pode mais fazê-lo desta forma porque o interior das caixas de fósforo já não é mais de madeira. Para a zarabatana, cortávamos um pedaço de antena tipo pé-de-galinha, item que não consegui achar em ferros-velhos. Então improvisei com tubo de guarda-chuva. Já o carrinho de rolimã foi encomendado a um marceneiro amigo meu, porque queria que ficasse exatamente como era usado, sem polir ou lixar.
No livro, a rua é o espaço onde se desenrola grande parte da vida na infância. Você acha que, nas grandes cidades, deixou de ser esse lugar?
Na época, praticamente todo mundo brincava na rua; não tinha esta coisa de passar o dia na escola. Os clubes esportivos, como o Pinheiros e o Paulistano, estavam apenas começando. Eram voltados às classes mais abastadas, e a maneira de brincar daqueles meninos não nos interessava muito. A vivência social acontecia basicamente neste espaço, onde meninos testavam os limites e as brincadeiras interessantes continham em si certa dose de emoção. Tudo era possível na rua. Por outro lado, como mostra o livro, havia regras bem definidas, que organizavam a ocupação por idade, por gênero e por turmas.
À medida que a cidade foi crescendo, essas brincadeiras permaneceram na periferia ou no interior, onde ainda se empina pipa, ainda se joga futebol em terrenos baldios. Com o tempo, o espaço extremamente urbanizado sofreu, num certo sentido, uma barricada: só se vêem grades e chegamos ao cúmulo de ver até praças fechadas.
Mas não brincávamos o dia todo na rua apenas por vontade própria. "Vai brincar na rua, moleque!" era, de fato, um recado das mães, que, na época, não trabalhavam fora e tinham que se livrar da importunação da criançada.
Além de suas próprias experiências, houve alguma outra influência na hora de compor a escrita?
Assim que comecei a escrever, pensei muito sobre As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, que li ainda moleque. Embora a história se passe num contexto rural dos Estados Unidos, no final do século XIX, a essência é a mesma, ou seja, as lembranças da infância e das brincadeiras da época. Nunca brinquei daquelas coisas, mas me identifiquei com as emoções daquela outra infância.
No caso de Mãe da rua, todas as pessoas da minha faixa etária para quem mostrei o livro adoraram, porque evoca uma memória muito carinhosa. Por outro lado, espero que a molecada de hoje em dia possa lê-lo com a mesma curiosidade que li As aventuras de Tom Sawyer.
 |
| |
Embora você tente evitar um tom saudosista, o livro retrata uma atmosfera que já não se vê em muitos bairros da capital. Como você acha que os jovens de hoje, que não viveram tais experiências, receberão seu livro?
Eu não tenho a menor pretensão de ensinar meus sobrinhos ou meu neto a jogar bolinha de gude, porque eles vão achar isso chato. Para eles, o mais legal é transportar o embaixador alienígena através de sua nave espacial para uma galáxia em conflito, como aparece em joguinhos de computador. Cada época tem a sua tecnologia e os brinquedos refletem isso. As habilidades também são outras. Quer dizer, o prazer também é relativo à época.
Hoje, as ruas continuam a ser um mundo a ser explorado, mas de outra maneira. O skate e o grafite são exemplos em que quanto mais obstáculos, melhor.