Uma grande obra ultrapassa o sentido do tempo. Não podemos deixar de lado as linguagens clássicas, elas jamais deixarão de ter seu lugar, pois os cânones da música, do teatro, das artes plásticas, assim como os da dança, nos abrem um universo inteiro.

 

Crítica de dança do jornal Folha de S.Paulo e coordenadora do Grupo de Estudos de Dança do Centro Universitário Maria Antônia da Universidade de São Paulo, a bailarina Inês Bogéa lançou o seu terceiro livro sobre dança na Cosac Naify.
Desta vez, ela contempla o público jovem, com Contos do balé, que comenta de maneira belamente ilustrada cinco das mais consagradas coreografias do repertório internacional do balé clássico.
Inês formou-se em Dança pelo Royal Ballet, em 1987; em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em 2004, e é doutoranda em Artes pela Universidade Estadual de Campinas.
Também é autora do livro infanto-juvenil O livro da dança (Companhia das Letrinhas, 2002) e organizadora de Kazuo Ohno (Cosac Naify, 2003) e Espaço e Corpo - guia de reeducação do movimento, de Ivaldo Bertazzo (SESC, 2004).
Em 1989, ingressou no Grupo Corpo, no qual permaneceu até 2001, ano em que organizou um livro sobre a companhia: Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo (Cosac Naify, 2001).
Foi ainda co-diretora do Projeto Cidadança, ao lado de Ivaldo Bertazzo (2006-2007), e co-autora, com Sergio Roizenblit, dos documentários Movimento Expressivo - Klauss Vianna (Miração Filmes e Crisantempo, 2005); Renée Gumiel, a vida na pele (DOCTVII, 2005) e Maria Duschenes - O espaço do movimento (Prêmio Funarte Klauss Vianna, 2006).
Em entrevista, Inês fala sobre a dança clássica e sobre Contos do balé.

Entrevista para Alvaro Machado

Como foi feita a seleção das coreografias apresentadas no livro?
Foi uma tarefa difícil. Procurei escolher, dentre várias histórias, cinco contos que pudessem mostrar diferentes gêneros da dança clássica e que também fossem marcos na arte de dançar tanto para quem assiste quanto para quem dança.

A bailarina Inês Bogéa

Por que essas coreografias foram incorporadas ao repertório das principais companhias de balé?
Porque são obras que contêm os conflitos da humanidade: amor, ciúme, morte, saudades...

E quais coreografias seriam dignas de formar um segundo volume
de Contos do balé?

As opções são infinitas, mas acredito que “A Sylfide”, “O Quebra Nozes”, “O Corsário”, “A Bailarina Indiana” (“La Bayadere”) e “O Pássaro de Fogo” comporiam uma bela continuação.

Os contos abordados por você no livro são narrativas de tradição popular transmitidas oralmente e transformadas em coreografias ou são histórias que foram criadas especialmente
para serem dançadas?

Mesmo quando se utiliza histórias que já existem, é necessário adaptá-las de acordo com a criação do balé. Os libretos (textos a partir dos quais são compostos óperas e balés), assim como os textos de teatro, têm marcações e indicações específicas.
A Menina mal olhada é uma história e uma coreografia, ambas criadas por Jean Dauberval (1742-1806). Ele foi o primeiro autor que colocou pessoas como personagens no lugar dos deuses. Giselle é uma história inesquecível de amores impossíveis. O poeta Théophille Gautier (1811-1872) se encantou pelo mito das Willis – inspirado num livro do alemão Heinrich Heine (1797-1856). Outra fonte foi o poema “Fantasmas”, de seu conterrâneo Victor Hugo (1802-1885), em que uma jovem amava tanto os bailes que sonhava perturbadoramente com eles. Para criar Coppélia, Charles Nuitter e Saint-Léon se inspiraram no conto “O homem de areia” do escritor romântico alemão E.T.A. Hoffmann (1776-1822). O balé fala do sonho humano de criar vida (como na história de Frankenstein, outro grande mito do Romantismo). Na história, a beleza de uma boneca, que parece estar viva, desperta o ciúme e o amor de um casal. Já O Lago dos Cisnes é uma grande história de amor, fantasia e fidelidade e seu libreto foi escrito por V. P. Begitchev e Gelster. Petrouchka é de autoria de Alexandre Benois (1870-1960) e Stravinsky, que se inspiraram nas feiras de São Petersburgo, onde eram apresentados shows de marionetes, para criar o cenário e o boneco protagonista.

Você já dançou alguma das coreografias visitadas pelo livro?
Elas ainda são apresentadas?
Só não dancei Petrouchka. As outras dancei mais de uma vez, em diferentes papéis, com diferentes idades, durante a minha formação em dança clássica. São obras que fazem parte do repertório das escolas e das grandes companhias do mundo todo.

Por que a dança clássica, de sapatilha de ponta e tutu,
não se tornou anacrônica após o surgimento
das linguagens modernas de dança no século XX?

Uma grande obra ultrapassa o sentido do tempo. Não podemos deixar de lado as linguagens clássicas, elas jamais deixarão de ter seu lugar, pois os cânones da música, do teatro, das artes plásticas e da dança nos abrem um universo inteiro.

Qual a situação das escolas de dança clássica em nosso país?
O panorama é favorável? Existe público?

O ensino da dança clássica no país é forte, porém não temos companhias profissionais suficientes para absorver os bailarinos aqui formados. Por isso, um grande número procura as companhias do exterior para desenvolver sua arte.

 

Roberta Marquez no papel de Coppélia, 2006

Você poderia confirmar se as escolas "francesa" e "russa"
são realmente as bases da dança clássica
e tecer alguns comentários sobre as suas diferenças?

Além da escola francesa e russa, eu acrescentaria a escola inglesa, a cubana, a italiana e a dinamarquesa, cada qual com seu acento particular e colocação corporal. Essas escolas permitem progressivamente a incorporação de códigos estéticos complexos com o desenvolvimento de estilos coreográficos próprios. A partir de códigos internacionais são desenvolvidos códigos nacionais que se valem do jogo das linhas verticais e horizontais, do ponto de equilíbrio, da expressividade e o tipo de acento procurado.
A escola francesa procura o refinamento extremo dos gestos, o acabamento primoroso de cada passo, acentuando o cuidado com as terminações das mãos e dos pés. A escola dinamarquesa tem grande tradição no trabalho com a parte inferior da perna permitindo saltos com muitas baterias no ar, a vivacidade das ligações entre um passo e outro e a qualidade das elevações nos grandes saltos. A escola italiana se destaca pela expressividade das construções cênicas e do fluxo contínuo dos movimentos, além das torções corporais dos movimentos de tronco e braços. Dentro dessas grandes escolas podemos também diferenciar estilos diferentes.
Na posição dos corpos no espaço, podemos distinguir de que escola estamos falando. Por exemplo: os braços da escola russa são mais para trás do que os da escola inglesa, a grande escola de giros é a escola cubana, a grande escola de baterias é a escola dinamarquesa.

Quais são as companhias mais sólidas
que praticam a dança clássica ao redor do mundo?

Hoje são muitas as companhias que dançam não só os grandes balés de repertório internacional como os clássicos atuais: Ballet da Ópera de Paris, Royal Ballet, Kirov, Bolshoi, Escala de Milão, Balé de Hamburgo e, aqui no Brasil, a Companhia de Dança Clássica e o Balé do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

O lago dos cisnes apresentado pelo London Citty Ballet, 1988