" Minha decisão foi gerar mais perguntas e trabalhar sobre elas também de forma a construir ainda outras indagações, e desvelá-las em momentos inesperados "

 

Autor das ilustrações do Livro das perguntas, escrito por Pablo Neruda (1904-1973, Nobel de Literatura em 1971), o artista gráfico espanhol Isidro Ferrer (1963) revela-se um poético indagador. Destaque das artes gráficas na Europa (Premio Lazarillo de Ilustración 1995, Premio Nacional de Ilustración 2006, Premio Cálamo 2006), Ferrer une-se ao poeta chileno para, por meio de imagens, também fazer perguntas que ultrapassam o plano lógico e nos leva a todos - crianças, jovens e adultos - a universos infinitos.
Um dos últimos textos de Neruda, o Livro das perguntas foi lançado postumamente, em 1974, e chega agora ao Brasil pela Cosac Naify, com tradução do poeta Ferreira Gullar. Considerado um dos mais bonitos testamentos poéticos da literatura em língua espanhola, o livro revela o menino que irrompe no velho poeta para fazer as indagações mais surpreendentes: "Por que me perguntam as ondas / o mesmo que me pergunto?". "E por que batem na rocha / com tanto entusiasmo?".  
Na entrevista a seguir, Isidro Ferrer nos conta como, a partir de elementos captados de toda a obra do escritor, "lida de cima a baixo", conseguiu o improvável: uma espantosa harmonia entre suas ilustrações e as transcendentais perguntas de Neruda, exatamente por não querer respondê-las.

Entrevista para Livia Deorsola



Isidro Ferrer

Quais foram suas primeiras impressões ao ler o Livro das perguntas, de Pablo Neruda?

Antes de lê-lo pela primeira vez, conhecia apenas as obras mais populares de Pablo Neruda, como Veinte poemas de amor y una canción desesperada [Vinte poemas de amor e uma canção desesperada , de 1924]. Não possuía um conhecimento profundo sobre seu trabalho.

Mas desde a primeira vez em que vi o Livro das perguntas, imediatamente me conectei a ele, por vários motivos. Em primeiro lugar, porque de fato é algo maravilhoso. E porque apresenta forte ligação com algumas coisas das quais eu gosto muito, como as gregerías de Ramón Gómez de la Serna [imagens poéticas em prosa criadas pelo escritor espanhol, que expressam uma reflexão pessoal, filosófica ou humorística], os trampantojos [técnica pictórica que tenta enganar a visão através de jogo de perspectiva] e Las chilindrinas, de Tomás Seral y Casas [poeta espanhol, 1908-1975].

Para ilustrar as indagações de Neruda, você recusou tomar o caminho mais óbvio e fácil, ou seja, o de respondê-las. Em vez disso, as imagens contribuem ainda mais para o questionamento lúdico...

Responder as perguntas teria sido não somente o mais fácil, mas o mais perigoso. Afinal, são perguntas que não têm respostas. Desde o momento em que se ilustra uma indagação, concebe-se uma imagem que ao mesmo tempo trai a própria imagem poética produzida tão somente pelo texto. O incrível do que faz Neruda é que nos coloca perguntas abertas, filosóficas, retóricas; perguntas sem respostas, que se movem no terreno do poético, nunca do científico. Portanto, tentar esclarecer as incógnitas teria sido como trair o texto poético.

Como procedeu para não cair nesta armadilha?

Chegar a esta solução realmente me custou muito tempo. Por exemplo, diante de palavras como "banana" ou "limão", colocar estas frutas nas ilustrações seria excessivamente reiterativo. Então minha decisão foi, antes de tudo, gerar mais perguntas e trabalhar sobre elas também de forma a construir ainda outras indagações e desvelá-las em momentos inesperados, onde não houvesse correspondência direta entre a imagem e o texto. Cada grupo de quatro ou cinco perguntas é acompanhado por uma imagem, mas elas não se relacionam de nenhuma maneira.

Ao mesmo tempo, há uma harmonia incontestável entre as perguntas de Neruda e as imagens criadas por você. Como chegou a este resultado?

No final do livro, há um sumário onde estão as palavras que mais aparecem nas perguntas de Neruda - "lágrimas", "inverno", "boca", "lua", "morte", "amarelo", "terra" são algumas delas. Recupero esses elementos visualmente e então reúno toda a informação sobre o próprio mundo de Neruda. Depois de ler o que ele escreveu de cima a baixo, pude trabalhar a partir de imagens poéticas presentes em sua obra como um todo, ou seja, os elementos criados por mim não estão vinculados estritamente a um único livro do escritor. Trata-se de uma cosmologia global de seu universo. Tampouco saberia dizer se um determinado livro ou poema predomina sobre os outros.  

 

Poderia citar algum elemento visual colhido de outras obras do poeta e que está neste livro? O cachorro, por exemplo, aparece bastante aqui, e nos faz lembrar de Un pero ha muerto (Um cachorro morreu).

Exatamente. Este é um livro que tem distintos níveis de leitura. Neruda nos pega pelas mãos e nos leva a passear por todos aqueles lugares repetidos por ele de forma constante e insistente em seu universo poético. Daí o teatro como uma representação dentro do livro, as portas que se abrem e se fecham e que dão acesso a outros espaços, as chaves, as bibliotecas, a morte, o mar - aliás, tudo que tem que ver com o marítimo, os barcos, a cartografia, as sereias, os peixes -, as cidades, as mulheres e, claro, as casas. Neruda era um colecionador de casas e de coisas. Quando enchia uma casa de objetos, construía outra para enchê-la novamente. E para a construção destes lugares, ele procurava lugares especiais. Visitei as casas de Isla Negra, Valparaíso e Santiago do Chile e no livro há uma boa quantidade de informações que provêm diretamente de tudo aquilo que vi ali.

 

Em uma das ilustrações, estão um livro de García Lorca, a quem Neruda admirava, um vídeo de Submarino Amarelo, dos Beatles (que reaparece em outras alusões), um livro do poeta e artista plástico catalão Joan Brossa, a quem seu trabalho lembra muito. Para você, qual o significado dessas referências?

Ali estão algumas de minhas preferências e também das preferências de Neruda, e assim pude fazer muitas homenagens. São referências que têm a ver não somente com Neruda, mas também com a vinculação de suas imagens poéticas a meu próprio olhar.

Submarino Amarelo [de George Dunning e Al Brodax, baseada no antológico disco dos Beatles] é um filme onde há uma acumulação de extravagâncias surrealistas que me interessa muito e revela uma aproximação com a viagem sugerida no Livro das perguntas : da mesma forma como o submarino percorre seus espaços, nós percorremos os espaços lançados por Neruda, que às vezes podem ser entendidos como absurdos, mas não o são tanto. Em meu trabalho também há um jogo com o poema visual, assim como na poesia-objeto de Joan Brossa.

Ali também aparece o livro Sin palabras [ No tinc paraules, de Arnall Ballester], editado pela Media-Vaca e que me serve como base para gerar um discurso mudo. Retomo este tipo de estrutura gráfica de construir uma história sem palavras, sem negar que as palavras dão pé às imagens, mas estão conectadas de maneira desordenada.

 

Há também objetos que automaticamente identificam pessoalmente o poeta chileno, como o cachimbo e a típica boina. Você também pesquisou muito sobre a vida de Neruda?

Sim, mas no Livro das perguntas tentei refletir unicamente o autor, a imagem que ele transmite através de sua poesia, e não a imagem do Neruda político, social, ativista. Embora isso de alguma forma transpareça, porque o livro se fecha com a imagem de um ajuste de contas: com um garrote nas mãos, Neruda acerta as cabeças de [Richard] Nixon e do ditador [Augusto] Pinochet, este o grande responsável pela aceleração da morte de Neruda.

Muitas vezes as crianças se aventuram a responder as indagações de Neruda, o que em geral resulta em soluções muito graciosas. Quanto às ilustrações, você tem notícia de como são recebidas pelos leitores infantis?

A garotinha com quem trabalhei, de quem são as mãozinhas que no livro aparecem, conhece o conteúdo visual de cima a baixo, porque ainda não lê. E curiosamente as perguntas que ela faz sobre as imagens têm muito a ver com as próprias indagações de Neruda, porque se movem quase no mesmo nível de imaginação. Ela estabeleceu um vínculo com as imagens que transcende a própria narrativa, porque ainda que sejam imagens narrativas, se instauram em outro lugar.