ILUSTRADOR ESTRÉIA
COM DESENHOS
FEITOS NO COMPUTADOR

 

Jan Limpens nasceu em 1970, em Viena, na Áustria. Hoje em dia, vive com sua família e trabalha como ilustrador em São Paulo. O dia em que Felipe sumiu é seu primeiro livro a ser publicado, projeto realizado em parceria com a jornalista e escritora Milu Leite e a Cosac Naify. Jan publica a tira de quadrinhos semanal Otakoo Saloon Cartoon, com Peter Waldeck. Seu site pessoal é http://limpens.com (em português, inglês e alemão). Na entrevista a seguir, ele fala sobre seu trabalho como ilustrador e comenta o processo de criação dos desenhos para seu livro.

Entrevista para Julia Bussius

Como foi ilustrar O dia em que Felipe sumiu?
Como ocorreu o diálogo entre você e Milu Leite, a autora do texto?

O texto é rico em imagens e me permitiria fazer muito mais ilustrações do que havia espaço no livro. Já ilustrei textos mais abstratos em que eu me peguntava: "Como vou ilustrar isso?" Com essa história aconteceu o oposto. Quando li o livro pela primeira vez, vieram inúmeras possíveis imagens na minha cabeça. O trabalho mais duro foi ter que abrir mão de várias delas. Nunca encontrei a Milu pessoalmente: ela tornou-se uma amiga virtual. "Nos encontramos" pela internet para conversas produtivas e engraçadas.

Quais técnicas de ilustração você costuma utilizar?
De onde veio a inspiração
para realizar os desenhos desse livro?

Inicio com uma grande quantidade de esboços à lápis estudando vários ângulos e composições. A partir destes, desenvolvo, ainda a lápis, um projeto final que é escaneado e usado como base para o desenho propriamente dito. Uso um tablet sensível à pressão que me permite ter um traço orgânico no computador.
Uma restrição na produção do livro era o uso de uma cor só além do preto. O computador facilita muito a experimentação com as cores. Como a produção do livro permitia a sua divisão em duas partes iguais (cadernos), pude usar duas cores diferentes. A primeira parte da história se passa durante o dia, e assim usei a cor vermelha; na segunda parte, à noite, usei o azul. O contraste entre uma cor quente e a outra fria enriqueceu as ilustrações. A maioria das cenas foram feitas sem referência concreta. Mas alguns lugares foram inspirados pela represa de Ibiúna, que visitei durante a criação dos desenhos.

Como é ilustrar livros para um público jovem?
Eu tento não desenhar para um público especifico mas para um livro, uma história. É ela que define como uma ilustração deve ser. Afinal vivemos todos no mesmo mundo, uma árvore parece a mesma desde que eu nasci, então por que mudar o desenho dela conforme a idade do leitor? Uma história de coelhinhos engraçados, como "Pulinho e Fussinho na Arvorelândia" vai ter outro estilo do que, vamos dizer, "Abismo vermelho - o vale dos mortos vivos", ou não, o que também pode ser interessante...

Qual foi o seu percurso profissional até se tornar ilustrador?
Iniciei a minha formação como desenhista maníaco com dois anos de idade e desde então o desenho se tornou minha forma de expressão artística principal. A partir dos vinte anos fui ator e diretor de filmes e peças do grupo 'Casa del Kung Fu', o qual fundei junto com alguns amigos. Fizemos filmes e sketches com personagens como Fantastical Fly, Jimmy Magic Salsa e New York Potatoe Departament, que inspiraram os meus quadrinhos do Otakoo Saloon Cartoon. Há alguns anos senti que havia experiência suficiente para largar o trabalho como gerente de tecnologia de informação e me dedicar integralmente à criação de quadrinhos e ilustrações. No final das contas, a minha formação em História da Arte, que eu não tinha mencionado até agora, não exerceu grande influência no meu caminho profissional.

Há quanto tempo você mora no Brasil
e como é trabalhar com ilustração aqui?

Moro aqui desde 2001. Como iniciei o meu trabalho com ilustração no Brasil, me considero um ilustrador brasileiro. Tenho pouca experiência neste campo na Áustria. Lá o mercado editorial é muito limitado, porque todas as grandes editoras estão na Alemanha. Aqui há várias pequenas editoras onde é possível um diálogo mais direto, pessoal e amistoso.

Há dificuldades para ilustrar um livro em uma língua
que não seja o seu idioma materno?

Um desenho não pertence a uma língua - não há como construir uma frase usando os meios gráficos - ele constitui uma comunicação não verbal e sem idioma. Assim o idioma materno do desenhista não entra como um fator tão importante. É o contexto cultural, tanto do desenhista quanto do espectador, que define como o conteúdo presente na imagem é compreendido. Com certeza, desenho uma floresta ou uma lagoa de um jeito muito diferente de uma pessoa da Amazônia. Consciente disso, tento preencher as lacunas do meu conhecimento com fantasia. Um fator que mais enriquece o meu trabalho do que cria dificuldades.

Qual a importância do trabalho do ilustrador para você?
No mundo adulto você encontra pouquíssimas ilustrações nos livros. É uma coisa extremamente infeliz, porque a ilustração pode ajudar o leitor a compreender o texto. Por exemplo - imagine você lendo um russo do século XIX, como eu estou lendo agora Crime e Castigo, de Dostoiévski. Ele escreveu este livro com a mente de alguém que conhecia as coisas daquela época. Mas há muitos lugares e situações em que eu, que tenho um certo conhecimento dessa área, simplesmente não sei como devo imaginar. Por exemplo, uma pessoa "de roupa suja e inadequada" na Rússia do século XIX pode significar algo completamente diferente nos dias atuais. Como eram as casas de lá e as carroças? Neste caso, a ilustração pode entrar em uma simbiose ainda maior com o texto do que em um livro moderno, no caso brasileiro.