"Acredito numa universalidade pertinente à percepção da mudança das estações e do percurso do tempo"

 

Balançar-se sempre foi, para Keiko Maeo, brincadeira infantil preferida, guardada em sua memória afetiva. Tanto que deu origem a Balanço, livro publicado no Japão em 2001 que recria de maneira sensorial o movimento pendular, numa alusão à passagem do tempo.
A experiência proposta pelo livro - o primeiro da escritora e artista plástica japonesa a ser publicado no Brasil, em edição bilíngüe português-japonês -, foi possível a partir do projeto gráfico altamente elaborado, cuja perspectiva das ilustrações leva o leitor a mover-se junto com o personagem.
Keiko revela, na entrevista a seguir, detalhes do processo de criação do texto poético e das técnicas de ilustração, e comenta a relação que estabelece com a efemeridade do tempo e toda sua expressão em azul. "Penso na criação dos livros envolvendo um ritmo repetitivo", diz a autora.

Entrevista para Lívia Deorsola e Giovana Pastore

Tradução de Dirce Miyamura


Keiko Maeo

Como surgiu a história de Balanço? De onde veio a inspiração?
A origem é um poema que escrevi nos tempos de faculdade. Vem de minhas memórias de infância, quando brincava no balanço do parque até o entardecer. A noite ia chegando e eu ficava balançando e pensando "só mais um pouquinho"... Antes de escrever, sentei-me no balanço diversas vezes. Mesmo adulta, sempre gostei do balanço.

Chamam a atenção os elaborados recursos gráficos do livro. O casamento entre forma e conteúdo leva o leitor a uma experiência sensorial, em que é quase possível vivenciar o embalo, como ocorre com o personagem. Em sua opinião, o que provoca essa sensação?
Concebi o livro para ser folheado na vertical, o movimento das mãos sugerindo o balanço, sem a necessidade de palavras para explicá-lo. Em qualquer livro - e não só nos livros ilustrados -, existe um espaço intervalar de alguns segundos ao passar para a página seguinte. Este espaço é um respiro. Penso na criação dos livros envolvendo também este ritmo repetitivo.

Além das belas imagens evocadas pelo livro, no qual o leitor experimenta a chegada da noite e observa cada detalhe deste processo, a passagem do tempo também é um elemento importante. Parece que houve a intenção de relativizar tal passagem, tornando-a algo contemplativo, e não apenas uma contagem. Até mesmo o balanço pode remeter à idéia de um pêndulo. Poderia comentar sobre isso?
A minha imagem era de um "livro ilustrado em azul". Tentei me expressar então com base no azul, para retratar o percurso do tempo e as diversas profundidades da paisagem. Do entardecer para o anoitecer, a paisagem adquire tonalidades diferentes a cada segundo. Cada passagem é como o folhear de cada página na vertical. Há um minuto atrás, há trinta segundos, a temperatura do azul vai se transformando. E a abertura na vertical lembra o movimento do pêndulo, algo repetitivo. Vou ficar extremamente feliz se o leitor puder se sentir como uma espécie de pêndulo da noite.

 

Como foi o processo de elaboração do texto poético?
Não há propriamente um enredo para isso. São situações, que vão surgindo e se ampliando. O parque vai se esvaziando, uma solidão iminente, um vento azul, sombras. São cenas assim que se sucedem.

Quais materiais e técnicas você empregou nas ilustrações?
Normalmente gosto de usar lápis de cor. Mas, nesta obra, não queria destacar muito o calor residual das mãos, os traços carinhosos do lápis pastel. Assim, usei um brinquedo chamado "Print gokko", de silk screen, para compor as massas de cor e fui introduzindo sobre elas as linhas e outras cores. Há páginas que desenhei sobre papel azul, dando um toque adulto, mas sem apelar para a computação gráfica. Algo generoso e híbrido, que remetesse a uma saudade dos materiais antigos.

Como tem sido a receptividade do livro nos países nos quais é lançado?
Encadernado com tecido, com abertura na vertical, acredito que dentre os meus livros ilustrados, este seja o que mais atinja o público adulto. Parece-me que mais do que um livro infantil, ele é considerado um livro de arte. Mas imagino que trabalhos assim tenham mais mercado na França, por exemplo. Países estrangeiros têm mais ambientação cultural do que o Japão para absorver criações assim. Tenho a impressão que o Brasil é um país que privilegia a exuberância das cores primárias. Tenho curiosidade em saber como meu livro, que é basicamente monotonal, focado num azul estóico, poderá ser recebido.

Em 2001, Balanço foi traduzido para o francês e, agora, torna-se o primeiro título de sua autoria vertido para o português. O que há de universal no livro que o permite sensibilizar crianças de culturas tão distintas?
Creio que a melancolia, tão peculiar daqueles momentos de passagem do entardecer para o anoitecer, exista em qualquer país e em qualquer cultura. Acredito numa universalidade pertinente à percepção da mudança das estações e do percurso do tempo.
Quanto ao Brasil, especificamente, sei que existem muitos descendentes de japoneses. Por isso, sinto certa afinidade com vocês. É uma grande honra para mim que Balanço seja lido num país tão distante do meu.

 

E o que há de particular nesta obra que possa trazer aos leitores brasileiros um pouco da cultura japonesa?
Não sei se é peculiar à cultura "japonesa", mas dentro do universo do azul, reside o elemento índigo, que em japonês é chamado de Ai. É a tradução cromática para o vazio das tonalidades ou das palavras. Algo como a estética ou a profundidade do silêncio. Ficaria feliz se estes conceitos forem transmitidos.

Balanço pode ser considerado um livro-objeto, tamanha a sintonia entre texto e forma. Esta é uma característica presente em outros trabalhos seus? Você também desenvolve roupas e acessórios para crianças, um trabalho bem conceitual...
Quando comecei a fazer livros, pensei mesmo em criar "livros ilustrados como mercadoria de bazar". Foi este pensamento que norteou meus projetos editoriais. Próprio para presentes, ou até como objeto de decoração. Comecei a criar estampas que contivessem o universo dos livros infantis e que pudessem ser transformadas em roupas para crianças. Recriar o universo dos livros infantis em diferentes suportes é também um trabalho que me satisfaz.

Quais ilustradores admira? Poderia citar algumas de suas influências iconográficas?
Dick Bruna, ilustrador e criador holandês e Yumeji Takehisa, pintor e poeta japonês, são artistas que despertam meu interesse, o que não significa que tenham me influenciado. Quando criança gostava de Chihiro Iwasaki, pintor japonês de desenhos infantis, e a ilustradora japonesa Moe Nagata, artistas que eram minhas referências. E também devo citar Kate Greenaway , criadora inglesa de livros infantis.