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Desde seu livro de estréia, Mon royaume (Meu reino, 1994), Kitty Crowther demonstrou sua ousadia ao tratar de temas inusitados e complexos com inteligência e delicadeza. Meu amigo Jim é seu primeiro livro publicado no Brasil e, como suas obras anteriores, aborda assuntos que requerem prudência e cautela, entre eles a homossexualidade, o preconceito racial e o hábito da leitura. A amizade carinhosa entre a gaivota Jim e o melro Jack é uma lição sobre o respeito às diferenças.
Kitty nasceu em Bruxelas (Bélgica) em 1970 e graduou-se em artes plásticas na Suíça, onde mora atualmente com o marido e os dois filhos. Escreve e ilustra livros infantis há mais de dez anos, tendo mais de vinte títulos publicados.
Na entrevista abaixo, ela fala sobre os temas sobre os quais mais gosta de escrever e desenhar e sobre seu processo criativo em Mon royaume, no livro-imagem Va faire un tour (Vá dar uma volta, 1995), em Un jour mon prince viendra (Um dia meu príncipe virá) e em Meu amigo Jim. |
Entrevista
originalmente publicada no site www.livresautresor.net
em setembro de 1996
Tradução de Giovana
Pastore

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Kitty Crowther |
Até hoje, você publicou
quatro livros pela editora francesa Pastel. Nós voltaremos a
cada um deles, mas notamos alguns temas recorrentes: a família,
a casa, as refeições, os momentos de ócio, a vida,
talvez?
Eu amo os momentos de encontro,
os momentos de partilha, os momentos nos quais nos recolhemos. Existem
momentos de graça nos quais, após conflitos familiares
e momentos de tensão e de cólera, nos reencontramos em
torno de uma xícara de chá, de uma refeição,
onde selamos um amor nascente em meio a migalhas de pão, como
em Un jour mon prince viendra. Oferecer o pão é
oferecer simplicidade. Essa é a base da troca, com todas as diferentes
referências religiosas ligadas a esse ato. A última imagem
de Va faire un tour retoma essa idéia. Depois de uma
viagem iniciática, que conduz uma criança do Oeste ao
Leste, a cólera encontrará sua resolução
no momento de retorno à casa familiar, em meio a uma sopa preparada
pela mãe, como em Where the Wild Things Are, de Maurice
Sendak. Em Meu amigo Jim, a amizade se sela ao redor de um
bom café-da-manhã. Os momentos da fala, da troca, são
necessários e não se opõem aos momentos de isolamento
ou abandono.
O
que você diz é tão verdadeiro que sempre o encontramos
nas suas obras: esses momentos de ócio, de vagabundagem, nos
quais, em cima de uma árvore ou aconchegados num sofá,
nos abandonamos sem sermos separados do mundo. É o contrário
da perda e da solidão...
Sim. Eu amo desenhar pessoas que
lêem, que dormem. Amo essa relação com o tempo que
nos permite perceber o mundo que nos cerca e afrontá-lo, oferecendo-nos,
ao mesmo tempo, a possibilidade de recuar. Acho necessário oferecer
essa tranqüilidade às crianças e aos adultos num
mundo em que a ação, a agitação e a produção
parecem ser os senhores das palavras. As minhas origens nórdicas
não são, talvez, estranhas a isso. Minha mãe é
sueca e, na tradição da Europa do Norte, damos muita atenção
uns aos outros. Os cômodos e seus objetos revelam os homens e
as mulheres que os escolheram. A casa é meu universo e os interiores
que desenho são cheios de referências que meus amigos e
minha família podem reconhecer. Eles são também
lugares de tensões: é por isso que, entre quietude e cólera,
a casa é o lugar das partidas, mas também dos retornos.
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A cólera conduz a ação
de Va faire un tour e Mon royaume. No primeiro, trata-se
de uma cólera da qual não se conhece a razão. Em
Mon royaume é a briga familiar que vai quebrar o equilíbrio
de um reino querido e esperado por uma garotinha que não lhe
é estranha. Aliás, o livro é dedicado aos seus
pais...
Sim,
Va faire un tour é um livro que eu publiquei depois
de Mon royaume, mesmo tendo sido realizado antes. Foi um trabalho
que eu apresentei no concurso Figuras do Futuro do Salão do Livro
Infantil de Montreuil (França), em 1992.
Antes de começar um livro, eu não sei o que vou fazer:
o ponto de partida pode ser um desenho; e depois vêm outros que
formarão o todo, a história. Sendo parcialmente surda,
só comecei a falar aos seis anos. No meu universo sem palavras,
sem sons, a imagem era o telegrama entre mim e os outros. Ela me permitia
entrar em comunicação; era minha fuga, minha felicidade,
minha maneira de doar. Agora que faço livros para crianças,
acho que o espaço de criação é um lugar
de generosidade, simplicidade, doçura e encontro. A cólera
da criança de Va faire un tour é justa. Ao mesmo
tempo, essa cólera não se dirige contra os outros, ela
é interior, ela percorre caminhos, atravessa oceanos, encontra
histórias, lendas, mulheres e homens. Seria como uma viagem iniciática
que nos permite crescer, superar-nos. E se é feliz de a ter realizado
e, ainda mais, de a ter feito sozinho. Encontramos em nós essa
força, essa energia. Crescer é exprimir sua cólera.
Eu mesma já experimentei essa cólera. A solidão
e a tristeza são sentimentos que amo desenhar. Em Va faire
un tour, há uma viagem do Oeste para o Leste e a técnica
que utilizo, a gravura, me impunha trabalhar ao inverso.
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E para Mon royaume?
Para Mon royaume, eu não
tinha decidido fazer uma história sobre a disputa entre pais.
A história veio de uma imagem que Claude Lapointe tinha localizado.
Ela foi o ponto de partida para o livro. Além disso, o olhar
dos outros sobre seu trabalho dá significado àquilo que
lhe escapou durante a criação. Há uma alternância
de papéis entre o masculino e o feminino. A galinha simboliza
o lado maternal, o gato a independência, o cachorro a racionalidade
e a partida de xadrez indica que um dia será necessário
tomar uma decisão. Aliás, a última imagem traduz
essa idéia de escolha, já que a garota, contrariamente
à primeira pagina, tomará um lugar nessa partida de xadrez,
que representa sua própria vida.
Escutando você evocar isso,
pensamos sobre a riqueza de seu trabalho como ilustradora, sobre a força
que parece residir neste paradoxo: simplicidade aparente do efeito versus
abundância. Seus textos, aliás, são da mesma
natureza. As frases dizem tudo em pouquíssimas palavras, elas
são precisas, pontuais e, no entanto, não encerram os
significados, pelo contrário: os significados se alargam.
Na maioria das vezes, eu apresento um projeto
que, naquele momento, já não é mais um projeto,
mas sim um livro-objeto praticamente pronto. No caso de Mon royaume,
eu retrabalhei algumas coisas com Christianne Lapp (editora da Pastel):
modifiquei uma frase, uma imagem.
Eu, que não sou uma autora, escrevo em inglês, a língua
pela qual tenho mais afeição. Mon royaume foi
redigido dessa maneira. Parece-me que o inglês é uma língua
eficaz: com poucas palavras você diz tudo sobre a personalidade
de um personagem, até a sonoridade é mais feliz. No momento
de passar o texto para o francês, eu remodelo-o.
Como você desenvolve suas
ilustrações?
Como você pôde notar, eu amo
os enquadramentos que se remetem a casas, mas eu sei também fugir
disso quando a situação permite ou exige. Desde a primeira
imagem, eu sei intuitivamente o que vai acontecer ao meu personagem.
Então, em três traços de nanquim, eu tenho os indícios
do que vai acontecer. Trabalho a gestualidade como se, numa inclinação
de cabeça, num abandono de braços, a dança do corpo
e o personagem fossem se revelar para o leitor sem que eu precise lhes
acrescentar nada.
Eu tento ser eu mesma nesse trabalho: seria muito difícil para
mim, talvez até mesmo impossível, ilustrar um universo
que me é estranho. Preciso de uma proximidade afetiva, de um
vínculo entre os ambientes que crio e o que sou. Ser eu mesma,
ser genuína é, talvez, simplesmente voltar ao original.
Você trabalha muito?
Da mesma maneira que meu trabalho exige
que eu esteja muito concentrada para obter o melhor de mim mesma,
para realizar as mais belas imagens, eu também às vezes
sinto a necessidade de dizer: “Chega. Eu não posso ir
adiante, não posso mais produzir”. É necessário
então voltar ao esboço, ir até o máximo
do prazer, brincar com as cores e depois recomeçar, ir ao essencial
da imagem. Eu me debato, quero ser justa, dar fluidez, esquecer e
retrabalhar, me abandonar para encontrar a solução sem
complicações. É minha lucidez, minha exigência,
minha maneira de ser justa sem ocupar muito espaço, apenas
o meu.