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Cinco vezes premiado,
o livro de estréia como autor de Fernando Vilela, Lampião
& Lancelote, acaba de levar mais uma chancela: o Jabuti
2007, nas categorias "Melhor livro infantil" e "Melhor
livro de ilustração infantil ou juvenil". Também
conquistou o segundo lugar como "Melhor capa", com projeto
de Luciana Facchini.
Antes, já havia obtido "Menção Honrosa"
na Feira do Livro Infantil de Bolonha 2007 e conquistado diversos
prêmios pela Fundação Nacional do Livro Infantil
e Juvenil (FNLIJ), entidade que também premiou como
Ilustrador Revelação sua primeira obra para crianças,
Ivan Filho-de-Boi (Cosac Naify, 2004), escrito por Marina
Tenório.
Artista plástico, Vilela conta na entrevista a seguir como
tem sido o impacto do sucesso que cerca o livro e fala sobre a
originalidade do projeto, tanto no texto quanto nas ilustrações.
Visite o site do autor no www.fernandovilela.com.br |
Entrevista para Julia Bussius e
Livia Deorsola

Como recebeu a notícia sobre
o Jabuti para Lampião & Lancelote? Esperava por
isso?
Na verdade, eu esperava receber o prêmio, muito pelo fato de ele
já ter sido premiado por outras instituições importantes,
como a FNLIJ e a Bologna Book Fair. Meu único receio
era de que, mesmo premiado, o experimentalismo do projeto pudesse, de
alguma forma, interferir negativamente na recepção que
ele teria no mercado, o que não está acontecendo.
Embora o livro já tenha recebido importantes premiações,
a conquista do Jabuti muda algo em sua expectativa sobre o livro?
Por esse ser um prêmio de grande projeção nacional,
acredito que dê outra visibilidade a leitores, críticos
e ao mercado, uma vez que contempla vários âmbitos literários:
ainda que o livro tenha vencido na categoria infantil, todos os olhares
interessados em literatura voltam-se ao Jabuti. Além disso, por
causa do experimentalismo gráfico, também chama a atenção
de artistas plásticos e designers, ampliando ainda mais o público.
Você acha que há diferenças nas razões pelas
quais Lampião & Lancelote recebeu o Jabuti e pelas
quais recebeu menção honrosa em Bolonha?
Não sei dizer. Acho que, de toda forma, ele atinge as pessoas
pela inventividade no texto, nas ilustrações, que se integram
ao projeto gráfico numa amarração poética
da mistura de dois universos (da cavalaria e do cangaço), o que
acaba gerando uma terceira coisa. É importante dizer que este
livro também é o resultado de um inspirado time de trabalho.
As calorosas interlocuções durante as reuniões
com os editores, designers e produtores gráficos da Cosac Naify
contribuíram muito para que as idéias se tornassem reais.
De
onde e como surgiu a idéia do encontro entre Lampião e
Lancelote?
Acho que surgiu da minha paixão por Lampião, este bandido-herói
do nosso sertão brasileiro, e do encanto que sempre tive pelo
cavaleiro Lancelote. Foi uma fantasia que surgiu entre uma respirada
e outra, de idéias que estão no ar. Pareceu instigante
possibilitar o encontro desses dois guerreiros que, de certa forma,
trazem com eles suas culturas diversas.
Como operar a mistura destes
dois registros: a novela de cavalaria e a literatura de cordel?Qual
foi o caminho percorrido para criar o contato entre dois mundos tão
distintos?

Xilogravura de cordel popular
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Em primeiro lugar, foi o meu
envolvimento com literatura de cordel e o universo da xilogravura
popular no qual ela está inserida. Como trabalho com a gravura
em madeira há muitos anos, este universo é muito familiar.
A arte do improviso dos repentistas foi também uma fonte
de inspiração. |
Por outro lado, os contos e lendas
da Távola-Redonda povoavam minha imaginação desde
a infância, por meio de livros e filmes sobre Rei Arthur e Lancelote.
Creio que estes dois mundos têm um imaginário comum. Os
personagens deste livro são dois guerreiros de feitos heróicos,
ambos têm uma grande sofisticação: Lancelote pelo
seu porte de nobre cavaleiro, armaduras prateadas gravadas em metal,
espadas forjadas, mantos com estampas desenhadas. E Lampião cria
um outro tipo de sofisticação: nos seus adornamentos,
nas roupas e armas. Sabemos que ele usava perfumes franceses, anéis
de ouro, punhais com pedras preciosas. Era amante da música,
tocava e compunha. Foi o "estilista" principal do seu bando.
Aproximei-me pouco a pouco do universo destes dois personagens e iniciei
uma pesquisa plástica, por assim dizer, do universo da cavalaria
medieval e do cangaço brasileiro.
Quais foram as principais
referências iconográficas pesquisadas para criar as ilustrações?
Como ocorreu o processo de pesquisa para o livro?
Entrar em contato com as verdadeiras
indumentárias dos cangaceiros, na coleção
de Frederico Pernambucano de Mello (exposta na Mostra do Redescobrimento,
Brasil 500 anos), foi uma grande experiência. Os cordéis
sobre Lampião que comecei a colecionar (enviados pelo amigo
João Caldas) e a pesquisa de xilogravuras populares que
realizo há algum tempo, foram importantes referências
para o universo do personagem Lampião.
Nas últimas viagens a trabalho para o exterior, aproveitei
para visitar as grandes coleções de armaduras e
armas da Idade Média e fotografá-las (como no Museu
Metropolitan, de Nova York). Os gabinetes de estampas da Biblioteca
Nacional de Paris e as gravuras e coleções de iluminuras
(livros manuscritos e ilustrados) medievais da British Library
contribuíram muito para a pesquisa iconográfica
de Lancelote.
Recolhi este material e fui desenhando a partir dele. Busquei
criar uma linguagem própria para as ilustrações,
mantendo um diálogo com as imagens da pesquisa. |
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foto: Valentino Fialdino

Chapéu de couro de chefe cangaceiro,
da coleção Frederico Pernambucano 
Armadura de cavaleiro no Museu Metropolitan de Nova York
(foto de Fernando Vilela) |
Você já ilustrou
uma série de livros,
porém esta é sua estréia como autor.
Quais foram as referências literárias utilizadas
para elaborar os textos em verso e prosa?
Sem
dúvida foram a literatura de cordel e as novelas de cavalaria.
Inicialmente pensei em trabalhar só com verso, pois quando li
a Divina comédia, de Dante, tive a idéia de utilizar
aquela métrica para narrar os momentos de Lancelote e suas falas.
Depois concluí que o texto ficaria mais vivo se eu utilizasse
a métrica tradicional do cordel nos diálogos dos personagens
(até pelo fato de o duelo acontecer no Nordeste brasileiro),
deixando para usar a prosa na travessia de Lancelote.
Estudei a origem do cordel brasileiro para entender como ele chegou
ao País. Descobri que ele vem da Europa, mais especificamente
de Portugal e Espanha.

Fernando Vilela
Explique um pouco sobre as técnicas
utilizadas:
os carimbos esculpidos na borracha e a xilogravura.
Como essas técnicas dialogam com o universo de cada personagem?
Os carimbos são gravuras feitas em borracha
escolar comum. Todos os personagens são construídos com
esta técnica. Mas os módulos (estampa de carimbo) possuem
elementos do universo de cada personagens: as estampas de Lampião
possuem os motivos dos bonáis, dos desenhos decorativos das roupas,
dos chapéus e armas. Já as estampas de Lancelote, têm
desenhos de tecidos medievais, gravações decorativas de
armaduras (a do elmo da capa do livro, por exemplo), desenho de diferentes
elmos e pontas de lança, bandeiras etc.
A xilogravura foi usada mais como fundo do Nordeste e em alguns momentos
em Lampião, pois sua linguagem é simples, preta, árida,
e tem a dureza da caatinga nordestina.

Estudo de Fernando Vilela para o livro
Por que
você optou pelo uso das cores cobre e prata?
O uso de cores reflexivas, como o dourado e prateado, é recorrente
nos manuscritos medievais (as chamadas iluminuras). Além de elementos
decorativos, muitas vezes os fundos dourados das imagens representam
o espaço divinizado. No livro, usei a cor prata para representar
Lancelote, pois sua reluzente armadura só poderia ter esta cor.
As batalhas medievais deveriam refletir a cor metálica todo o
tempo, se pensarmos nas armas todas forjadas.
O cobre foi a cor escolhida para Lampião, por causa de seus adornos
e indumentárias: moedas, anéis, punhais. Na “alta
costura” do cangaço o metal era imprescindível.
O ouro era o que eles roubavam. Além disso, a luz do Nordeste
lembra um cobre refletido no horizonte seco.

Estudo de Fernando Vilela para Lampião
& Lancelote