“Acho importante a garotada saber que pode adotar a tatuagem para seguir um modismo, mas que isso tem um significado. afinal, o corpo tatuado sempre foi o corpo exposto, como o da prostituta, o corpo que se arrisca, como o do marinheiro e o do soldado. e é algo eterno, uma marca indelével."

 


Jornalista desde 1981, Leusa Araujo especializou-se em registrar aspectos do comportamento humano, como fez em Tatuagem, piercing e outras mensagens do corpo, seu primeiro livro de não-ficção voltado ao público jovem, publicado pela Cosac Naify em 2006. A estréia na literatura infantil aconteceu com Agitação à beira-mar (Ática), em 1994. Mais tarde, em 2005, lançou A cabeleira de Berenice (SM Edições), finalista do Prêmio Jabuti 2007 na categoria "Melhor livro juvenil". Sua longa experiência como jornalista da área de comportamento a levou a colaborar como pesquisadora e editora de textos nos livros Chic, Chic Homem e Chic[érrimo], todos de autoria da consultora de moda Gloria Kalil; e a redigir Maquiagem: Duda Molinos (Senac).
Segundo lançamento da coleção composta por Moda: uma história para crianças (2004), Contos do balé (2007) e Yoga para crianças (2007), Tatuagem introduz ao leitor um assunto pouco abordado pela literatura e pela historiografia. O projeto gráfico, moderno e ousado, inclui fotos e curiosidades, permitindo uma leitura histórica da evolução do tema; do Homem de gelo, o primeiro homem tatuado de que se tem notícia, até as tribos urbanas do século XX.

Entrevista para Giovana Pastore e Lívia Deorsola

 

Leusa Araujo

Como foi escolhido o tema do livro?
A sugestão foi dada pelo editor Augusto Massi, por ser esse um assunto que não tinha espaço no mercado editorial. Se você fizer uma pesquisa, perceberá que os títulos disponíveis nas livrarias ou são escritos por tatuadores – e contam histórias pessoais – ou são livros apenas de imagens para cópias de motivos de tatuagem. Quando ganhamos o selo “livro informativo altamente recomendável”, concedido pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, eu me assustei. Não imaginava que uma publicação sobre um tema marginal no mercado editorial, e pior, nas sociedades ocidentais, cuja história e personagens muitas vezes estão relacionados às gangues e à marginália, fosse ter esse reconhecimento. E também houve o atrevimento de fazer a cronologia do tema, percorrendo a história da humanidade.

Mas isso vai ao encontro do caráter introdutório da coleção da qual o livro faz parte, não? Cada volume apresenta um tema, como moda, dança, yoga, do seu surgimento aos dias de hoje...
Sim. A opção pelo almanaque aconteceu porque esse formato poderia tratar amplamente do assunto, dando pistas para que o leitor vá atrás do que lhe interessa e se aprofunde. Conhecer os significados da tatuagem ao longo de cinco mil anos permite que o jovem adquira uma visão ampla, para muitas direções. Depois ele pode apurar esse conhecimento.

E como você selecionou o conteúdo do livro?
A beleza foi um critério para a escolha das fotografias e das histórias, mas não foi o único. No capítulo “Crime e castigo”, falo do lado não tão glamoroso da tatuagem, quando ela é uma marca involuntária, uma punição. Nos presídios, por exemplo, uma imagem na pele pode revelar o crime cometido pelo sujeito e, na guerra, identificar de que lado da luta a pessoa está. Nesse sentido, o livro explica ao jovem porque o pai dele tem preconceito pela tatuagem. Quem foi marcado na guerra não acha a menor graça nisso. Há um autor, vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 2002, Imre Kertesz, que fala dos recém-nascidos judeus marcados pelos nazistas durante a Segunda Guerra. Há uma tradição ocidental da tatuagem como castigo. O Brasil não se encaixa nessa tradição; a aceitação aqui é maior, talvez por conta do componente indígena.

A tatuagem deixou de ser sinal de rebeldia?
Apesar de já estar incorporada à sociedade, acho que não deixou de ser um tabu. Ela pode ser um modismo, mas a qualquer momento pode mudar de rumo. É como um movimento de vai-e-vem. Por isso acho importante a garotada saber que pode adotar a tatuagem para seguir um modismo, mas que isso tem um significado. Afinal, o corpo tatuado sempre foi o corpo exposto, como o da prostituta, o corpo que se arrisca, como o do marinheiro e o do soldado. E é algo eterno, uma marca indelével.

Estrela de circo dos anos 1930

Num outro capítulo, “Circo e mentiras”, você conta como homens e mulheres tatuados viraram atração de circo durante o século XIX, principalmente nos Estados Unidos... qual postura as crianças mais gostam?
Sim, esse é justamente o momento em que um americano patenteia a máquina elétrica de tatuar, na esteira da revolução industrial. O que levava anos para ser feito de repente acontece em minutos. Isso divide a história da tatuagem em dois momentos, pois o surgimento da máquina quebra com a ritualística da tatuagem, que pressupunha a dor, o tempo em que se ficava com o ungüento espalhado pelo corpo para suportar o processo de cicatrização. Isso é legal que a garotada saiba. E os próprios tatuadores. Eu tomei a decisão de não consultar nenhum tatuador como fonte para o livro, pois a minha longa experiência como jornalista na área de comportamento me dizia que eles poderiam induzir a uma pesquisa que eu não queria fazer. Então, só no dia do lançamento do livro comecei a ouvir a opinião deles.

E o que disseram?
Isso eu sabia, mas não sabia que era exatamente assim”, ou “eu não conhecia os grafismos dos índios brasileiros”. No Brasil, há uma profusão de motivos tribais e nem sempre as pessoas têm consciência da origem desses desenhos. O tatuadores também não conheciam profundamente a história da tatuagem japonesa, cultuadíssima no mundo todo. Essa é realmente uma história pouco conhecida: de como as gravuras de um livro viraram motivos de tatuagens dos heróis do Suikoden.

Prostitutas e cortesãs japonesas marcavam no braço o nome de seus amantes

E o que são as “outras mensagens do corpo”?
As outras mensagens do corpo são a pintura corporal e a perfuração. Principalmente a pintura corporal, porque é muito difícil saber os limites entre ela e a tatuagem. Os índios deixaram de se tatuar porque era um costume muito condenado pelo branco, mas mantiveram a pintura corporal, o que não quer dizer que anteriormente a pintura não convivesse com a tatuagem. Existem, inclusive, mitos sobre essa dificuldade de dizer “quem é o pai de quem”.

E atualmente, como o corpo emite mensagens?
Eu mencionaria a maquiagem, uma manifestação atual que demonstra como continuamos mexendo infinitamente em nossos corpos. Mas este continua a ser um tabu, e, conseqüentemente, a tatuagem também o é. Isso explicaria a lacuna na historiografia sobre um conhecimento do corpo. A plástica também é uma forma de modificação corporal. Há mulheres que se horrorizam com a tatuagem, um procedimento micro-cirúrgico, mas acham normal a cirurgia plástica, com anestesia geral. Daí podemos pensar em muitas questões, como o porquê de ficarmos aflitos com o corpo do outro.

Isso ocorre entre pais e filhos...
Claro: o corpo do filho é imaculado, tatuagem nem pensar. Mas isso varia conforme o lugar e a época. Para o índio do sul da Amazônia, por exemplo, se você não tem marcas no corpo você não é ninguém. “Será que é corpo isso que você tem?”, eles perguntariam.

E existe o medo de o filho se mesclar a grupos marginais que cultivam a tatuagem.
Sim. E há o risco para a saúde. Por isso o livro traz uma “bula” com algumas restrições, orientações sobre como escolher um estúdio e um tatuador ou piercer, cuidados que se deve ter antes e depois de fazer um piercing ou tatuagem... E a Luciana Facchini, autora do projeto gráfico, fez questão de deixar essa parte do livro bonita, porque é para ser lida.