ODILON MORAES FALA
DA SUTIL RELAÇÃO ENTRE
TEXTO E ILUSTRAÇÃO

  O ilustrador paulista Odilon Moraes recebeu em setembro o prêmio de melhor livro infantil da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) por Pedro e Lua (Cosac Naify, 2004), seu segundo trabalho como autor. Com setenta livros publicados e outros prêmios na bagagem, o artista vê seu ofício como o de um contador de histórias – que, por meio de seu desenho, dá "voz" à narrativa. Parceiro da Cosac Naify, Odilon coordena também a vertente internacional da coleção Dedinho de Prosa, que traz textos consagrados da prosa do mundo para o público infantil. Nesta entrevista ele fala na importância da ilustração, de seus livros e de projetos como o Traço e Prosa e a exposição Ilustrautores, nos quais procura revelar ao público o universo desse ofício tão pouco conhecido.

Entrevista para Julia Bussius

Como você entende o trabalho de ilustração?
Para mim, a ilustração nasce de um processo muito delicado de desconstrução de um texto, que depois é reconstruído. Ou seja, no início há uma linguagem verbal, que está na sua frente como um movimento inaugural de um livro. A partir dessa leitura, o ilustrador vai contrapor a palavra a um outro universo, que é o desenho, que também narra, e que é posto na frente das palavras para criar uma terceira coisa: o livro ilustrado. Portanto, o texto do livro ilustrado não é nem a palavra, nem a imagem: são as duas coisas juntas. Em meu universo de trabalho, a ilustração é uma espécie de gênero literário, uma narrativa construída com palavra e com imagem. 
Por meio dessa percepção, minha maneira de trabalhar com um texto se transformou muito. Às vezes as pessoas dizem: "Nossa! Como deve ser complexo fazer ilustração", e eu digo: "Não! É muito fácil. Basta ler e desenhar as imagens que vêm à cabeça". Mas eu não sei o que define o talento de alguém nessa transposição, nesse "entre" uma coisa ou outra. Talvez, para o ilustrador, seja a capacidade de permanecer nesse "entre". Eu não sei por quê, ao ler um poema de Fernando Pessoa me vem à cabeça um quadro do Morandi [Giorgio Morandi, pintor italiano, 1890-1964]; não sei por quê quando vejo um quadro do Iberê Camargo [pintor gaúcho, 1914-94] lembro de um texto do Samuel Beckett [dramaturgo irlandês, 1906-89]. Eles têm alguma afinidade, que aparece em minha leitura de imagem e de texto.
Por isso, talvez o ilustrador seja como um tradutor, porém um tradutor de duas linguagens diferentes. E essa relação começa quando ele compreende o modo de ver do escritor, a partir de onde este escreve, qual seu universo, para então propor um diálogo.

O que é necessário para ser um ilustrador?
Quando alguém me diz que quer ser ilustrador eu logo pergunto: "Você gosta de ler? Não? Então não dá". Um ilustrador é alguém da literatura, mas também com um pé do outro lado. Acho que, às vezes, o pecado de alguns ilustradores é não entender seu trabalho como literatura, ainda que existam outros tipos de ilustrações, sem um sentido narrativo.
O trabalho do ilustrador pode ser encarado a partir de vários pontos de vista: ora é um tradutor, ora um escritor, mas também é alguém muito próximo de um contador de histórias. O livro ilustrado tradicional é uma compilação de histórias orais. E onde fica a voz do narrador neste livro? É a do ilustrador, é ele quem dá essa "cor" à narrativa. Quando você propõe um desenho alegre, já cria uma atmosfera de como aquilo deve ser lido. Esse é o contador de histórias!
O ilustrador é cada vez menos uma pessoa que apenas pega um texto e desenha. Na verdade ele pega esse texto e o transforma em livro, com tudo o que isso envolve. É preciso saber que tanto os elementos de desenho e de texto quanto os elementos gráficos vão interferir na leitura dessa coisa chamada livro, que já extrapola o escritor e o ilustrador, ou seja, ele inclui cada vez mais o designer.

O Pedro e Lua (Cosac Naify, 2004) também surgiu de um diálogo, a partir de uma conversa entre autor e editor. O livro era apenas um rascunho quando mostrei. Mas o editor olhou e disse que já estava pronto. E eu respondi: "Não. Preciso passar a limpo, pintar..." e ele insistiu que estava pronto. Ao conversarmos, ele explicou que, por causa da sua musicalidade e da secura -- no sentido de ser um texto muito simples --, ele achava que o texto estava em sintonia com o próprio desenho de rascunho, e não com um desenho mais acabado. Acredito que esse trabalho conjunto - do editor, do designer, do autor e do ilustrador - é uma relação de elos cada vez mais estreitos.

Qual a importância de Pedro e Lua ter recebido
o prêmio da FNLIJ e da sua indicação ao prêmio Jabuti 2005?

Eu tive uma surpresa boa na FNLIJ e uma decepção no Jabuti. Não foi decepção por não ter ganhado, mas por ter sido indicado à categoria de melhor ilustração no Jabuti. Pois, para mim, em Pedro e Lua as coisas não podem ser separadas: o texto precisa da ilustração, que fica forte ao lado do texto. Por esse motivo, acho complicado você dar um prêmio para ilustração e outro para o texto num livro ilustrado, porque esse livro é a junção das duas coisas. Ou teria de ser indicado como livro ou não deveria ser indicado. E a surpresa na FNLIJ foi justamente por ela ter premiado como livro. É uma instituição muito séria, com a qual só tive contato há pouco tempo, porque antes eu nunca participava de bienais e salões de livros, só comecei a fazer isso há uns dois, três anos, e então percebi que eles tinham um trabalho muito sério. No prêmio da FNLIJ os livros não são julgados por uma comissão, mas distribuídos para gente do Brasil inteiro votar.
A FNLIJ é uma das poucas instituições ligadas ao livro infantil que realmente têm apreço forte pela ilustração. Foi onde vi maior apoio à figura do ilustrador, que é considerado como um autor, é chamado para falar, é convidado às mesas junto aos autores de texto. São pessoas que não irão descartar um livro como Pedro e Lua só porque é em preto-e-branco.
Mas o que me mais surpreendeu foi o livro ter sido comprado pelo governo para adoção nas escolas. Não acreditava que eles escolheriam um livro como Pedro e Lua para as crianças, pois já ouvi muitas coisas sobre "literatura para crianças" que não se aplicam a Pedro e Lua. É um livro em preto-e-branco, e muitas editoras dizem que livro para criança tem de ser muito colorido! Eu acho que, de fato, oitenta por cento das crianças podem gostar de livro colorido, mas existe pelo menos uma criança que vai olhar para um livro em preto-e-branco e apaixonar-se por ele. É  para essa criança que existe o livro. Porque não é possível escrever para todos; na verdade, você escreve para si mesmo. E esse "você" vai encontrar um eco em pessoas com a mesma sintonia.

Como se dá o processo de criação quando você mesmo
é o único autor do livro, nos casos de Pedro e Lua e
A princesinha medrosa (que será publicado pela Cosac Naify)?

Na verdade, eu nunca me entendi como alguém que escreve, então esses livros foram, de certa forma, acidentais. Isso não quer dizer que foram feitos sem querer, mas sim que amadureceram por si. Eu tenho várias pastas com pedaços de história, que geralmente vêm de diários e reflexões. Para conseguir fazer os dois livros eu tinha de ter certeza, o tempo todo, de que não precisava fazê-los. Sempre que me sentava e dizia: "agora eu vou fazer", não conseguia simplesmente nada. Eles foram se formando espontaneamente.
Pedro e Lua e A princesinha medrosa citam várias histórias da minha vida. Embora eu nunca tenha tido uma tartaruga e não me chame Pedro, todos os segmentos de Pedro e Lua têm a ver com passagens da minha vida. São vários episódios que um dia eu junto e daí algo se forma. Nessa hora o autor torna-se ele também um leitor, e este dará o sentido aos vários pedaços. Foi um processo muito singular fazer esses dois livros, alinhavados não em momentos que eu queria, mas onde "algo" alinhavou as coisas por mim.

Conte-nos um pouco sobre seu próximo livro, Ismália,
poema de Alphonsus de Guimaraens [1870-1921] que você ilustrou.
O Ismália não é como um texto desconhecido que chega às minhas mãos, e também não é como os dois livros que eu mesmo escrevi. É algo intermediário. Por um lado é um texto que tem vida própria, mas por outro não é algo que pediram para que eu fizesse, nem que eu tive de procurar, mas um texto que, para mim, estava muito próximo do processo de Pedro e Lua, por ser um poema que eu, desde criança, sempre soube de cór e que sempre me impressionou. É um poema muito arraigado em mim, embora não seja meu. Então começaram a surgir as imagens, num processo muito próximo do de Pedro e Lua.
Eu chamaria Ismália de um livro semi-autoral, porque nasceu como um livro de autor. É um processo que vinha de anos e, em determinado momento, "arrebentou" numa imagem, até mesmo pelo modo como foi feito. Embora o tempo de elaboração para esses livros tenha sido longo, sua feitura foi muito rápida. Pedro e Lua e A princesinha foram feitos em uma única noite cada um. O processo de Ismália também foi muito próximo disso, e também é um rascunho. É um processo completamente diferente dos outros. Neste momento eu gostaria de continuar a fazer esse tipo de livro, mas meu trabalho é mais "pessoano", no sentido de que "não querer é poder".

Qual o intuito do projeto Traço e Prosa, publicação
sobre ilustradores que você, Rona Hanning e Maurício Paraguassu
estão desenvolvendo em parceria com a Cosac Naify?

É um projeto que já tem uns cinco anos. Existe um movimento forte de luta dos ilustradores reivindicarem autoria dentro deste mercado editorial do livro infantil. Pois em 99% das editoras não existe direito autoral para o ilustrador. E aí há toda uma discussão entre a editora, o autor e o ilustrador, onde todo mundo tem e não tem razão. Eu tenho setenta livros publicados e não recebo direitos autorais por quase nenhum deles, só ganhamos para ilustrar e ponto. Então há essa mentalidade de editoras que vêem o ilustrador como mero prestador de serviços, e não como alguém que acrescenta algo ao livro. De uns anos para cá, houve uma valorização do trabalho do ilustrador, pois as editoras estão refazendo projetos gráficos de várias coleções e para isso chamam os designers e ilustradores. Porém o contrato continua o mesmo, sendo que, muitas vezes, é o trabalho do ilustrador que vai valorizar o livro.
Formou-se então uma sociedade dos ilustradores, porém sem o respaldo das editoras. No entanto, as pessoas continuam sem saber o que é nosso trabalho, e os argumentos contra os direitos autorais vêm muito por conta disso: eles acham que não somos autores porque o texto não é nosso. Acham que só estamos brigando por mais dinheiro, mas não é assim. Nossa briga é por acharmos que somos parte responsável dessa revalorização do infantil.
Então concluímos que o mais importante seria mostrar o que é, de fato, o  trabalho do ilustrador. O assunto é muito pouco estudado, até porque o próprio ilustrador não sabe definir o seu trabalho: cada um fica sozinho em sua casa, pensando o que é ilustração, ou melhor, fazendo ilustração. Mas é nesse "fazer" que está a teoria! Cada ilustrador trabalha em um mundo diferente, cada um tem um processo próprio de tomar um texto e transformar em livro. As ricas discussões sobre o fazer do ilustrador, ficam apenas entre nós, nos bastidores.
O Traço e Prosa é, então, uma conversa e uma visita ao ateliê do ilustrador. Por meio desses papos surgem as teorias do fazer, as relações e as origens do desenho de cada um. Serão doze entrevistados, que representam categorias diversas de ilustradores. Pedimos para que cada artista fizesse um recorte de sua própria obra, e para isso escolheram seus oito livros mais importantes. São entrevistas onde entramos pela porta dos fundos, pois desejávamos ver o que existe na panela da cozinha da pessoa. São essas sutilezas, surgidas nessas conversas, que trazem coisas maravilhosas para o entendimento da obra.

E do que trata a exposição Ilustrautores,
em cartaz na Gibiteca do SESI de 24 a 30 de outubro?

Quando começamos o projeto Traço e Prosa, a idéia era divulgar a ilustração por meio de exposições. Mas, para pensar a curadoria da exposição, sempre teríamos de gravar uma entrevista, e, já que teríamos essas duas coisas, tudo isso poderia virar livro. A Cosac Naify, contudo, aconselhou que fizéssemos primeiramente o catálogo.
Para montar a exposição precisaríamos conseguir patrocínio. Assim, eu e Maurício Paraguassu pensamos: "Então vamos fazer o que a gente sabe: um livro!". Por isso, por um tempo, desistimos da exposição, e, dependendo da recepção do livro, faríamos algo depois. Mas chegou a etapa onde o livro também precisa de patrocínio e saímos à busca de parceiros. Por ironia, um dos espaços que se abriu foi uma exposição oferecida pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo – FIESP, ótimo lugar para falar sobre o livro, inclusive porque haverá debates. Porém vamos expor o que já temos, coisas minhas e do Nelson Cruz. Chamamos também a Renata Bruggemann e pedimos ajuda na montagem. O Ilustrautores será um evento efêmero, para tentar ajudar o projeto do livro. Mas, talvez, no futuro, possam surgir outros.