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COMO NASCE E SE COMPÕE
UM AUTÊNTICO "SIRICUTICO"

 

Iniciada em 2003 sob a coordenação da artista plástica Edith Derdyk, a coleção Siricutico é uma parceria entre o selo Palavra Cantada, criado pelos músicos Sandra Peres e Paulo Tatit, e a editora Cosac Naify. Os quatro livros já publicados trazem histórias que também são canções ilustradas. Os volumes vêm acompanhados de CDs com faixas musicais e explicações sobre o processo de composição de cada uma.

Assim como numa banda da MPB, a criação dessas obras é resultado do esforço conjunto de várias pessoas ocupando diferentes funções, o que inclui músicos, ilustradores, autores, diagramadores e editores... A partir dessa sincronia, surgiram os livros-CDs, cada um falando de um assunto diferente: desde o descobrimento do Brasil (Pindorama), as paixões de um rato (Rato) e um jogo de futebol muito especial (Oras bolas) até a história da tristeza de uma boneca por sua dona ter crescido (Antigamente & Tente entender). Na entrevista que se segue, Sandra e Paulo contam mais sobre os livros e reafirmam sua preocupação em oferecer para as crianças um trabalho da maior qualidade.

Sandra Peres é pianista e compositora. Criou, com Paulo Tatit, o selo Palavra Cantada, que existe há 12 anos e já lançou vinte CDs (quatro deles vencedores do Prêmio Sharp de Disco Infantil). Nesses discos a dupla convida músicos do país inteiro para acompanhá-los, assim como nos shows que já fizeram em turnês por vários estados brasileiros.

Paulo Tatit é músico popular e parceiro de Sandra Peres no selo Palavra Cantada, por onde já lançou diversos CDs com canções suas e de seus amigos e parceiros. Ele participou do Grupo Rumo, que foi destaque da vanguarda musical paulista no início dos anos 80, e da banda de Arnaldo Antunes.

Saiba mais sobre o grupo no site do Palavra Cantada: www.palavracantada.com.br

Entrevista para Julia Bussius

Como surgiu a idéia de montar livros a partir de canções que já existiam?
Paulo Tatit: Essa idéia foi uma proposta que a artista Edith Derdyk levou para a Cosac Naify anos atrás e caiu bem, pois a editora queria fazer algo do gênero: a idéia estava no ar. Então, na coleção Siricutico, fizemos algo que tínhamos vontade de introduzir na parte de áudio do nosso website, que era mostrar os arranjos e o pensamento que há por trás de cada canção.
Sandra Peres: Acho que o melhor termo para o que fizemos seria um "raio-x" da música, possibilitando à criança entender a estrutura da composição. Pois a música é feita de várias "cortinas", de vários comportamentos dos instrumentos, e isso é o arranjo. A idéia da coleção foi legal porque a faixa chamada "toque musical", presente em cada CD, era uma maneira de mostrar como pensamos e sentimos a música: "Por que fulano fez essa música, o que tem dentro dela?". E mais que isso, quando você oferece um raio-x de uma música pode ampliar o universo sensorial de quem escuta.
Paulo: Você chama atenção para um certo aspecto e o ouvinte se concentra para tentar identificar aquilo que é comentado. Dessa forma, a música deixa de ser um bloco e torna-se uma organização de instrumentos, músicos e sensações. Aqueles que não são músicos profissionais adoram quando você dá uma dica de audição, pois começam a descobrir uma série de coisas novas. É isso o que queríamos passar para as crianças, introduzir ou fortalecer a percepção musical.

Como foi unir as linguagens musical,
a textual e a imagética num único produto?

Sandra: Acho que isso remete à mencionada faixa "toque musical". Se oferecermos à criança um produto onde há uma ampliação do universo da arte - e do universo sensorial -, ela mergulhará numa possibilidade de percepção do mundo e de expansão da sensibilidade. Até mesmo quando fizer o seu próprio prato de comida, pode ser que não faça mais uma pilha de alimentos e comece a compor melhor a sua comida, sua conversa, seu quarto, sua combinação das coisas. Qualquer criança que seja exposta a essa experiência terá uma sensibilidade mais aguçada.
Além disso, quem pára para ler uma letra? Eu sou maníaca por isso, sempre fui, mas fico pensando... Como vai ficar essa questão do quem é quem, de quem faz o que na música, quando as pessoas baixam música da Internet (pagando, é claro!)? Quem tocou aquela guitarra maravilhosa, quem produziu aquela coisa tão bem gravada? Não sei o que vai acontecer com tudo isso... Você leva toda uma vida para se desenvolver como músico, poeta, ilustrador, escritor, e de repente tudo desaparece! Esses livros também recuperam isso. Ouvir uma música lendo a letra faz toda a diferença.
Paulo: Isso é interessante porque a letra da música escrita é totalmente diferente da letra cantada, inclusive a percepção de tempo e de tamanho é muito distinta.

Como ocorre o diálogo entre os músicos, autores, ilustradores e a editora? Contem um pouco sobre o processo de criação dos livros.
Sandra: Na verdade é sempre uma surpresa maravilhosa, pois o fato de não sabermos o que o ilustrador vai fazer é, para nós, extremamente motivador. Quando você olha, pensa: "Nossa, olha só o que ele fez!". É maravilhoso desfrutar da novidade, de como aquela pessoa entendeu o que você fez.
Paulo: No começo do trabalho, mandamos um texto breve para a editora contando o que diz a canção, e o editor passa isso para o ilustrador, para que ele tenha ao menos uma idéia da nossa percepção da música. Mas esse textinho é bem óbvio, pois a canção fala por si. Por essa razão, no "toque musical", falamos mais da parte técnica e dos arranjos, pois é a canção mesma que deve dar conta do enredo. Na verdade, o diálogo é resumido, somos chamados à editora quando os arquivos já estão no computador para darmos uma olhada e às vezes palpitar em alguma coisa...
Sandra: Mas sempre fica muito mais lindo do que a gente imaginava!
Paulo: Claro, porque numa editora tem um bocado de gente cuidando disso. Nos preocupamos muito com a imagem da Palavra Cantada, pois em outras circunstâncias, como em shows, as pessoas utilizam uma iconografia que supostamente simboliza um universo infantil: bichinhos, balõezinhos, e muitas vezes não tem nada a ver! São coisas muito mais de publicidade... Então tomamos o maior cuidado! Mas na Cosac Naify sabemos que o pessoal é mais rigoroso que nós, então tudo bem!

Qual a proposta isolada de cada volume da coleção?
Podem falar um pouco de cada livro?
Pindorama? Rato? Ora Bolas? Antigamente?

Sandra: Cada livro trata do universo no qual a música está inserida. O Pindorama passa pelo sotaque do português do Brasil e de Portugal, os instrumentos, a ginga brasileira, a rítmica portuguesa, os instrumentos portugueses, o som da floresta tropical quando as caravelas estão chegando aqui... Digo isso até por todos esses elementos estarem na ilustração.
Paulo: Pindorama tem ilustrações muito solares, com uma luz bem tropical que cita uma iconografia antiga, um jeito de ver o Brasil no passado. O Alex Cerveny brincou com essa iconografia que tinha uma certa ingenuidade.
Já o Rato tem um ar de atualidade. As ilustrações da Edith Derdyk integradas às fotos da Elaine Ramos, deram muita realidade para o tema da canção, pois os ratos estão mesmo por aí nas ruas de São Paulo. É uma história que parece acontecer hoje em dia, tem aquele clima urbano, de cidade grande...
Sandra: E a música "Rato" remete a entidades, o arranjo fala de algumas entidades e muda conforme cada uma delas se apresenta. As entidades também são diferentes nas ilustrações e foram pensadas como uma fantasia, pois a Lua, a Brisa, a Parede, a Nuvem e a Rata são, também, fruto da imaginação. Foi preciso imaginar o personagem Lua, pelo qual alguém se apaixona... e isso é legal por remeter à intenção da música.
Paulo: Já o Antigamente & Tente entender traz ilustrações mais arquetípicas, uma coisa mais do sentimento, não é tanto uma representação externa, e sim algo mais interno, introspectivo. A expressão da boneca não é nada convencional, é muito forte, porque as crianças, em geral, têm conflitos tremendos na infância.
Sandra: Ah... mas adulto não, não tem mais nenhum conflito, só as crianças que têm.. [risos]
Paulo: Não, claro... é porque a criança tem esses lampejos de felicidade, porém na hora de dormir, de acordar, na hora que sente falta, o apego com as coisas é algo muito forte, são emoções muito fortes...
Sandra: Porque adulto não?! Não se sente sozinho na hora de dormir, não tem apego às coisas que faltam... [risos]
Paulo: Ou seja: é igualzinho! Quero dizer que a iconografia para criança que se vê com mais freqüência por aí é um mundo totalmente da cabeça de um adulto maluco! Que vê tudo com bichinho engraçado, fazendo festinhas... Mas às vezes a criança olha essas coisas e morre de medo, medo do Papai Noel, de palhaço... E a ilustração do livro tem esse impacto.
Ora bolas é um super "parque", uma viagem! Tem muito a coisa da bola, do campo de futebol, mas também há algo mais fragmentado, meio labiríntico, que incorpora a idéia do zoom, com aqueles caminhos todos que são descritos na letra. Forma um jardim, ou parque, mais contemporâneo, urbano: os desenhos constróem uma imagem na qual você viaja nos detalhes. Você vai, folheia, e anda com aquelas cores, e vai se perdendo naquele labirinto.
Sandra: Por outro lado, a música "Ora bolas" propõe esse zoom que ecoa uma pergunta que nos fazemos constantemente quando crianças: de onde eu venho, para onde eu vou? No arranjo musical, a gente propõe um grupo de crianças respondendo ao outro, brincadeira de pergunta e resposta, com a força da indagação de cada grupo.
Paulo: Em "Antigamente" usamos o violino, um instrumento que, ao soar notas longas, fica super triste, e quisemos, de fato, "arrebentar o coração", para depois dar o contraste da superação em "Tente entender".

Ouça as músicas

 
Pindorama

Rato
Antigamente
& Tente entender
Ora bolas

Compor e fazer livros para um público infantil é muito diferente?
Paulo: A gente parte da idéia de que todo mundo, criança ou adulto, poderá escutar.
Sandra: Não fazemos "música para criança", mas sim música para ser humano! De qualquer localidade do planeta! E pensamos que a música para criança deve ser a melhor.. E sempre procuramos criar um mote lúdico, que prenda, como um gancho...
Paulo: A música precisa ter uma historinha que "pega", interessante, como a do "Rato" ou da boneca... Ou uma situação, como a do "Pindorama", onde a força não está na história, inclusive muito conhecida, mas na maneira de contar essa história...
Sandra: "Pindorama" traz dois meninos, um brasileiro e um português, e nesse contexto cada coisa tem uma "pegada", algo que salta para atingir a atenção da criança.
Paulo: Pois logo em nosso primeiro disco, o Canções de ninar, percebemos o seguinte: se a música tiver todos os elementos possíveis para tentar agradar a criança, torna-se chata. Por exemplo, uma letra simples, uma melodia simples e um arranjo delicadinho, cheio de "plim plim", "ti ti" e sininhos fica um negócio muito chato!
Sandra: Aquela vozinha de criança pequena, falando tudo no diminutivo...
Paulo: Fica tudo muito infantilizado, como se a criança vivesse num mundo encantado... Por isso fazemos a música livremente. Vemos o universo infantil justamente como um lugar para ser mais experimental, para fazer coisas que não precisam, necessariamente, se inserir em algum lugar. Esquecemos, praticamente, que é algo para criança, apenas desejamos fazer algo legal!
Sandra: Não gostamos das coisas fáceis, prontas e imediatas, pois se a pessoa pode ter várias possibilidades de visão, com o máximo de sentidos, ela vai construir sua vida assim, mesmo que de maneira não consciente. Tudo é pensado para expandir o universo de percepção.



Vocês têm contato com as crianças quando compõem?
Sandra: Quando compomos não, mas às vezes chamamos algumas crianças para acompanhar quando fazemos o arranjo. Porém não fazemos música junto com as crianças, nem fazemos uma música e mostramos para ver se a criança gosta e tal...
Paulo: Às vezes você tem um contato com a criança, mas não com a sua presença, você apenas lembra dela no momento em que está compondo. Por exemplo, o convívio com a filha de algum amigo nosso pode ser muito inspirador, a criança é muito musical e, de repente, você forma uma imagem dessa criança na sua cabeça, a gente lembra dela batendo com o garfo, a atenção dela ouvindo música.
Sandra: Sim, às vezes nos remetemos a elas, mas isso muda todo o contexto. Porque algumas pessoas acham que a Palavra Cantada é um pátio com um monte de crianças brincando, ou que a gente dá aula... Mas na verdade o que fazemos e nos remeter ao universo da criança. Fiz a música "Sopa" a partir da observação de dois sobrinhos pequenos e a dificuldade da mãe para fazer eles comerem. Às vezes é até algo da nossa própria infância. Por exemplo, para a história da boneca de "Antigamente" chamei o Zé Tatit e disse: "Quero fazer uma música sobre a época em que deixei de brincar com a minha boneca, que foi a primeira grande separação da minha vida, os dias passavam e eu via que não tinha brincado mais com ela...". Contei ao Zé essas coisas da minha infância mesmo...
Paulo: O Zé Tatit também tem uma filha, que ele criou, então ele conhecia muito bem essa experiência. O interessante é ter saído uma letra do ponto de vista feminino, porém escrita por um homem!

Existe distinção de gênero nesses livros?
O Antigamente foi pensado
mais para meninas?

Paulo: Sim, mas uma professora de Belo Horizonte nos telefonou para dizer que deu essas músicas para as crianças e ficou super emocionada após a aula porque os meninos ficaram super solidários com as meninas! E ela achava que eles iam "tirar um sarro", coisa e tal... Mas eles vivenciaram aquilo também, e isso criou uma unidade, uma solidariedade em sala de aula que deixou a professora maravilhada! Então ela ligou para relatar essa experiência de unidade entre meninos e meninas de 9 ou 10 anos.


Por que inserir uma faixa "karaokê", apenas instrumental?
Ela aproxima a criança das canções?

Paulo: Foi mais por causa de um pedido das pessoas. Sempre pediam, mas ainda não tínhamos isso nos discos do Palavra Cantada. Assim, aproveitamos a oportunidade desses livros-CD para reforçar a parte musical do disco, reunindo a faixa "toque musical", a vinheta do Siricutico e a faixa karaokê, atendendo a pedidos!
Sandra: Esse karaokê é legal porque desenvolve a percepção musical da criança, ela pensa: "Agora tenho que esperar para 'entrar' e tal"... Ela encontra o tempo da música, e isso é muito bom.

De onde saiu o nome Siricutico?
Sandra: É um nome que eu adoro, sempre gostei! E o meu e-mail era siricutico@...
Paulo: Quando a Edith Derdyk começou a coordenar a coleção, disse que precisávamos inventar um nome e então, no meio da discussão, perguntou para Sandra: qual o teu e-mail? e era siricutico@palavracantada... Então ficou Siricutico!
Sandra: É um nome muito musical! Tem uma coisa serelepe, um movimento, uma divisão silábica que já é um ritmo... Siricutico é essa energia que as crianças têm: "Ai, você está com siricutico hoje!". E na vinheta fizemos um trava-língua, porque é uma palavra difícil de falar, e por isso resolvemos fazer desse jeito, para as crianças desenvolverem a coisa de brincar de falar e inventar a sua própria língua... A vinheta não quer dizer nada, é um amontoado de sílabas com uma rítmica.

Vocês têm alguma avaliação dos resultados obtidos
com os quatro livros-CD já lançados da coleção?
Ela potencializou de alguma forma o trabalho de vocês?

Sandra: Temos avaliações maravilhosas, sempre falando bem! Em ocasiões que mostrei esses livros na França, as pessoas ficaram chocadas com a beleza! Não acreditavam que aquilo tinha sido feito no Brasil! É um produto com uma qualidade tão cuidada, que tem um nível internacional, e muitas coisas aqui não têm esse nível... A Cosac Naify investe nisso, assim como a Palavra Cantada preza por esse nível, não vamos economizar para fazer um disco, para nós isso não existe. Sempre damos um jeito de acomodar o necessário para o que queremos fazer. Uma gravadora francesa disse que nunca tinha visto uma coisa tão bonita! E nós nos sentimos muito prestigiados em ter nosso trabalho dentro de uma proposta dessas, isso honra o nosso trabalho.

Quais são os próximos projetos da dupla?

Sandra: Estamos fazendo um disco em espanhol! E também divulgando bastante e fazendo muitos shows do Pé com pé, divulgando também a coleção Siricutico e nos programando para gravar nosso DVD do Pé com pé assim que conseguirmos um patrocinador.