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Os sete
pecados capitais personificados em sete gigantes mortais, que
devem ser vencidos pelo menino João, rejeitado e injustiçado,
para que ele enfim descubra um grande e importante segredo. É
por meio desta trama inusitada e singular que o autor norte-americano
Sam Swope aborda temas fundamentais na formação
infantil: amor, autonomia, superação de obstáculos,
justiça e solidariedade.
Para alcançar este feito, Swope bebeu em fontes literárias
diversas, todas as que lhe pudessem render inspiração
para tratar de "grandes questões da vida", como ele nos
conta na entrevista a seguir: tradições literárias,
como a Bíblia e narrativas folclóricas, foram referências
que ganharam roupagem original, sempre com muito humor e variados
experimentos onomatopéicos.
São muitas as costuras feitas por Swope para que as crianças
sejam instigadas em sua vivacidade e, ao mesmo tempo, respeitadas
em sua integridade - como o tratamento dado à luxúria,
"pecado" que ganhou uma cuidadosa e bem-humorada metáfora.
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Entrevista para Livia Deorsola

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Sam Swope |
Como surgiu a idéia de escrever uma história em que figuram os sete pecados capitais? O que veio primeiro: a vontade de retratar esta temática para o público infantil ou a história de um menino que supera desafios?
Uma noite eu estava tomando conta de
um menino de cinco anos e ele me pediu para contar uma história.
Como o nome do meu amiguinho era João [Jack], decidi que minha
história seria estrelada por um jovem matador de gigantes com
o mesmo nome - como o famoso "João e o pé de feijão".
E em minha história João encontrava um gigante gordo e
enorme chamado O terrível Glutão que queria engoli-lo,
mas o esperto menino consegue enganar o Glutão para que, em vez
disso, ele coma a si mesmo. Então, a história veio antes.
Mais tarde, conforme eu a escrevia, percebi que a glutonia era um dos sete pecados capitais, e decidi que meu livro teria sete gigantes, cada um como figuração de um dos pecados. A composição da história que conecta esses gigantes - a história sobre João e sua mãe - veio por último.
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| Detalhe de ilustração de Carll Cneut |
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Além da referência aos pecados capitais, percebemos também elementos dos contos tradicionais, como feijões mágicos, rainhas más e até mesmo alusões a passagens bíblicas. Por que se preocupou em resgatar tais referências?
Há algo de pombo na maioria
dos escritores. Nós roubamos tudo que podemos para fazer nosso
ninho ficar bom. Eu sempre me vejo como parte da tradição
secular das histórias infantis. Então me sinto livre,
mesmo que obrigado, para usar estes artifícios tradicionais.
Tomo emprestada a história dos feijões mágicos
de "João e o pé de feijão", mas em meu livro há
muitos outros contos do folclore inglês e norte-americano e eu
escarafunchei todas elas, encontrando idéias. Mas os contos sobre
"João e o pé de feijão" não possuem um cunho
moral ou de alguma forma filosófico, e enquanto escrevia sobre
a idéia dos sete pecados capitais, eu buscava inspiração
em referências que lidavam com as grandes questões da vida
- poesia épica, mitos gregos e, como você mesma notou,
a Bíblia. Mas o tom dado, o toque sutil, e até mesmo a
voz narrativa de João e dos sete gigantes mortais tentam ser
verdadeiros de acordo com os contos originais sobre o personagem.
Ao ler a história de João,
não há como não se solidarizar a ele: órfão,
abandonado, bode expiatório de toda a vila. Mas o curioso é
a forma positiva como o personagem lida com esses problemas e os supera
através de soluções inventivas. Em que você
se inspirou para criar esta representação?
Crianças são impotentes e enfrentam obstáculos.
Histórias infantis oferecem às crianças um caminho
para se sentirem poderosas, triunfar e imaginar que são agentes
de sua própria salvação. Eu espero que minhas histórias
causem este efeito também.
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| Detalhe de ilustração de Carll Cneut |
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Os gigantes representam alegoricamente os sete pecados e um deles - a luxúria -, embora nem melhor nem pior que os outros, ainda é visto como tema tabu a ser tratado com crianças. Por que o riso excessivo lhe pareceu uma boa metáfora para esse pecado capital?
Realmente não foi fácil encontrar um caminho para abordar a luxúria, especialmente por causa do tabu que você mencionou. Mas crianças são seres físicos que se relacionam através de seu corpo. Elas amam tocar e serem tocadas. E elas também amam rir. Então não é de se surpreender que as crianças gostem de receber cócegas, ao menos até certo ponto. Mas elas têm medo disso também, porque acham que cócegas podem ir longe demais e o prazer pode se tornar dor. Dessa forma, as crianças conseguem entender algo sobre o pecado da luxúria sem saber nada sobre sua versão adulta.
Uma característica presente em
todo o livro é o uso freqüente de onomatopéias, que
representam com humor e expressividade as ações e reações
dos personagens. Poderia comentar sua opção por este recurso?
As crianças, assim como os poetas, amam onomatopéias, aliterações, rimas, termos nonsense e todos os tipos de jogos de palavras. Isto porque a linguagem, especialmente para os pequenos, é uma maravilhosa e imediata experiência física. Eles ouvem as palavras com seus corpos tanto quanto com suas mentes. Eles se deleitam em gritar, gargalhar e produzir sons engraçados, como espirros, arrotos e puns. E eu também.
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| Detalhe de ilustração de Carll Cneut |
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No livro, João é acompanhado de uma simpática vaca, que mais tarde revelará um segredo. Há algum motivo especial para ter escolhido este animal como signo de ternura e afeto?
Eu aproveitei a sugestão de
"João e o pé de feijão", a famosa história
em que João troca sua vaca velhinha e mirrada pelos feijões.
A pobre e velha vaca nesta história me fez querer que meu João
tivesse uma vaca também, e quanto mais eu pensava no papel que
ela iria desempenhar, mais eu percebia sua gentileza, sua resignação;
pensava naqueles animais de carga que nos sustém com seu leite,
um poderoso símbolo maternal de ternura e afeição.
As divertidas ilustrações de Carll Cneut dão o tom do capítulo que virá e estão em completa harmonia com a história. Como foi o trabalho com o ilustrador para se chegar a este resultado?
Esta é uma pergunta para Carll responder. Mas eu posso dizer o seguinte: a regra mais importante para optar por um ilustrador para um livro é escolher um artista em quem você acredita, e então deixá-lo sozinho para fazer sua mágica acontecer.
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