OS ANIMAIS DE TODO MUNDO: LEITURA PARA TODAS AS IDADES,
de Jacques Roubaud; ilustrado por Fefe Talavera
por Dirce Waltrick do Amarante
O livro Os animais de todo mundo,
do renomado poeta francês Jacques Roubaud (1932), é
uma daquelas obras que reacende a discussão em torno de
uma definição de literatura infanto-juvenil.
Os versos que compõem o livro de Roubaud trazem
à cena vários animais domésticos e selvagens,
tão caros às crianças, numa linguagem humorada,
limpa e objetiva, como, por exemplo, neste poema que fala sobre
a girafa: “A girafa adelga o pescoço/ até
quando se adora queijo/ se deve ser magra no queixo/ esguia e
fina como um caniço// Essa moda provoca tantos/ problemas
à nossa girafa/ ela passa, o avestruz desabafa/ e nem vou
mencionar os Bantos!// Ela sonha com tagliatelle/ com presunto
cru (San Daniele)/ mas ‘madame girafa’ diz: não//
e sua dieta é sem cerveja!/ coitada! sobre o pescoção/
lá no alto, ela lacrimeja”.
Mas, além de poesia, encontramos em Os animais de todo
mundo também duas cartas: a primeira, do autor para
um ouriço (onde ele explica o seu fazer poético)
e, a segunda, do representante de um clube de “catorze cães”
ao poeta. Já que nenhum soneto foi dedicado à raça
canina, esta lhe cobra explicações: “Escrevo-lhe
para dizer que estamos raivosos! Nós, os catorze cães
do meu clube. É por causa do seu livro: o senhor pretende
evocar os animais de todo o mundo, e esquece o povo canino, os
cães, ora!”
Levando-se em consideração os exemplos citados (que,
acredito, resumem de certa forma o espírito do livro de
Roubaud), quem não afirmaria tratar-se de literatura infanto-juvenil,
mas, concomitantemente, que leitor, de qualquer idade, não
se sentiria atraído a continuar lendo a obra?
Caracterizados por uma inocência infantil
quase inexistente nos dias de hoje, um bando de garotos trava
uma batalha com seus inimigos, os camisas-vermelhas, em defesa
do terreno baldio que os pertencia, onde passavam as tardes brincando
de péla (um predecessor do tênis) e realizando as
reuniões de suas sociedades secretas.
Num ensaio intitulado “Três
maneiras de escrever para crianças”, o escritor irlandês
Clive Staples Lewis, autor de As crônicas de Nárnia,
ressalta a sua posição em relação
à chamada Literatura Infantil, que, para o escritor, é
antes de tudo uma forma artística (escreve-se “uma
história para crianças porque é a melhor
forma artística de expressar algo que você quer dizer”):
“Não preciso lembrar o público a quem me dirijo
de que a classificação rígida dos livros
segundo faixas etárias, tão cara a nossos editores,
tem uma relação muito vaga com os hábitos
dos leitores reais. Aqueles que são censurados quando velhos
por lerem livros de criança também eram censurados
quando crianças por lerem livros escritos para mais velhos.
Nenhum leitor que se preze avança obedientemente de acordo
com um cronograma.”
De fato, parece que, já no século XVII, quando se
passou finalmente a escrever histórias que “vieram
a ser englobadas como literatura também apropriada à
infância”, o problema da faixa etária a quem
o texto deveria ser dirigido era também de difícil
solução. Em 1696, o conto “A Bela Adormecida”
(cujo enredo, nessa época, diferia da versão definitiva
do texto) foi publicado na revista Le Mercure Galant,
com algumas linhas de apresentação do autor: “Ainda
que os contos de fadas e ogros pareçam ser bons apenas
para as crianças, estou convencido que esse que vos envio
vos dará prazer. Ele está escrito de maneira agradável
e o estilo é perfeitamente adequado ao tema”. O autor
do conto, Charles Perrault – autor de Contos da Mamãe
Gansa, cujo título original era Histórias
ou narrativas do tempo passado com moralidades (1967) –,
manteve-se, todavia, no anonimato, não assinando a obra,
procedimento natural na época, quando se tratava de livros
dedicados às crianças.
Em 1704, um ano após a morte de Perrault, os leitores de
todas as idades, que apreciaram seus textos, foram surpreendidos
com a tradução adaptada de As mil e uma noites,
obra do orientalista francês Antoine Gallant. Sobre As
mil e uma noites, Malba Tahan adverte que “o verdadeiro
livro (...) na sua forma completa, não é obra cuja
leitura possa ser aconselhada para crianças e adolescentes.
É um livro profundamente contra-indicado sobre vários
aspectos, pois muitos de seus contos foram imaginados com a finalidade
exclusiva de divertir adultos”. No entanto, Gallant, na
sua tradução, que se tornou “obra clássica
da Literatura francesa” e que foi retraduzida para vários
idiomas, aproveitou somente “uma quarta parte dos contos
originais (...), teve o cuidado de abolir as cenas que pudessem
ferir os princípios morais cristãos. Suprimiu do
enredo dos contos os versos, poemas e citações poéticas.
Procurou fazer uma tradução que fosse isenta de
expressões chulas e pouco edificantes”. De fato,
a tradução do orientalista francês obteve
sucesso entre adultos e crianças, as quais adotaram o livro,
como se este tivesse sido escrito “especialmente para elas”.
O século XIX, diferentemente do século XVIII, é
conhecido como “A Idade de Ouro” da literatura infantil,
uma vez que, nesse período, segundo Ana Maria Machado,
“o gênero se destacou com clareza da literatura para
adultos. E foi também quando surgiram várias obras
que, embora intencionalmente dirigidas para os pequenos, conquistaram
os leitores de todas as idades por suas qualidades literárias
intrínsecas”. Ou seja, “não eram apenas
‘livrinhos para crianças’, dispostos a dar
alguma lição e, eventualmente, divertir”.
Ana Maria Machado ilustra essa questão citando uma afirmação
do já mencionado Clive Staples Lewis, que dizia não
valer “a pena ler aos dez anos um livro que não tenha
o que dizer para quem o reler aos cinqüenta, em condições
de fazer novas descobertas na releitura”.
Recentemente o crítico norte-americano Harold Bloom publicou
uma antologia de textos “para crianças extremamente
inteligentes de todas as idades”. No prefácio de
sua coletânea, Bloom afirma que “qualquer pessoa,
de qualquer idade, ao ler esta seleção, perceberá
logo que não concordo com a categoria ‘literatura
para criança’, ou ‘literatura infantil’,
que teve alguma utilidade e algum mérito no século
passado, mas que agora é, muitas vezes, a máscara
de um emburrecimento que está destruindo nossa cultura
literária. A maior parte do que se oferece nas livrarias
como literatura para criança seria um cardápio inadequado
para qualquer leitor de qualquer idade ou época”.
Na antologia de Bloom não há nada “que seja
difícil ou obscuro, nada que não ilumine e divirta”,
assim como ocorre no livro de Jacques Roubaud, que comentamos.
Por isso o crítico acrescenta que, “se alguém
encontrar aqui uma obra que não entenda imediatamente,
sugiro perseverança. É quando nos ampliamos, pelo
exercício de uma capacidade não utilizada antes,
que alcançamos um melhor conhecimento de nosso próprio
potencial. Abstenho-me de sugerir qualquer história ou
poema em especial para uma ou outra idade, porque prefiro considerar
o livro um campo aberto onde o leitor passeará e descobrirá,
por si mesmo, o que lhe pareça mais apropriado”.
Ana Maria Machado compartilha da opinião de Harold Bloom
com relação à leitura (seja o leitor de qualquer
idade), quando afirma que “outra coisa muito prazerosa que
encontramos num bom livro é o prazer de decifração.
De exploração daquilo que é tão novo
que parece difícil e, por isso mesmo, oferece obstáculos
e atrai com intensidade. É uma delícia irresistível:
ir se deixando fascinar, se permitindo ser conquistado por aquelas
palavras e idéias, tentando ao mesmo tempo conquistar e
vencer as dificuldades da leitura”.
Na realidade, o que se tem de concreto é que “ler
bem” (qualquer bom livro, independente dele vir acompanhado
do adjetivo “infantil” ou “infanto-juvenil”)
“torna as crianças mais interessantes, tanto para
si mesmas quanto para os outros, um processo no qual desenvolverão
uma noção de serem pessoas separadas e distintas.
Estar sozinho com um livro autêntico é ser capaz
de conhecer a si próprio”, como afirma Harold Bloom.
Na opinião de Bloom, “a criança solitária
com um livro é, para mim, a verdadeira imagem da felicidade
potencial, de algo que pode se tornar realidade mais e mais”.
O livro, esse companheiro, é um “amigo invisível”,
é “a mente que aprende a exercitar com todos as suas
forças. Talvez seja também o misterioso momento
em que nasce um novo poeta ou um novo contador de histórias”.
Razão pela qual parece estar certo Malba Tahan, quando
afirma que “a criança e o adulto, o rico e o pobre,
o sábio e o ignorante, todos, enfim, ouvem com prazer histórias
– uma vez que estas histórias sejam interessantes,
tenham vida e possam cativar a atenção”. Tanto
são os autores e os livros que merecem ser explorados por
qualquer público, mesmo que careçam de adjetivos
como “adulto” ou “infantil" (os quais não
acompanham a edição de Os animais de todo mundo).
Dirce Waltrick
do Amarante é professora de Literatura Infanto-Juvenil
na Universidade Federal de Santa Catarina
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