Eu
que fiz
de ELLEN E JULIA LUPTON
por ROSA IAVELBERG
Os objetos para usar e brincar no cotidiano são
parte da vida das crianças e podem promover sua identidade
criativa inaugurando novas formas de relação e conhecimento.
Na sociedade contemporânea, as crianças são
expostas a uma infinidade de informações visuais
e estímulos de consumo. Sabe-se que os produtos desenvolvidos
para este público, ao serem consumidos, geram novas demandas,
num círculo que atende mais aos empresários atentos
ao mercado infantil do que às necessidades reais de aprendizagem
e desenvolvimento saudável dos pequenos.
O livro Eu que fiz, de Julia e Ellen Lupton, tenta reverter
a relação passiva das crianças com o consumo,
através do ensino do modo de fazer coisas que elas usam
ou com as quais brincam, objetivando torná-las autônomas
e fiéis a si mesmas nas escolhas de seus objetos pessoais.
A proposta das autoras tem dois pontos fortes: 1) conceituar para
as crianças os produtos de design que costumam consumir
e 2) ensinar a elas como fazê-los.
As atividades propostas são organizadas em quatro categorias:
grafismos, casa, brinquedos e moda. Fazer o próprio adesivo,
caderno artesanal, brinquedo improvisado, ímã, enfeite
de festa, cachecol ou avental são algumas entre as possibilidades
de realização descritas.
O interessante deste livro são as imagens de objetos e
brinquedos sempre feitos pelas próprias crianças,
a cada proposta, oferecendo aos leitores modos criativos e marcados
pela produção não seriada, avessos à
produção para consumo descartável, abertos
às possibilidades inventivas e ao estilo pessoal de cada
aprendiz.
As atividades propostas são saudáveis na medida
em que colaboram para a edificação de um futuro
promissor na relação da criança com o consumo
consciente e, por extensão, com o meio ambiente, por produzir
menos objetos supérfluos, gerando
menos descartes.
Cada objeto feito pela criança será único
e gerará nela uma relação plena de sentido
e satisfação. Esta relação hoje é
anulada pelo excesso de objetos que as crianças consomem,
promovendo desconcentração e ânsia por novidades,
acompanhada de relação superficial com as coisas,
que serão usadas para serem rapidamente abandonadas, trocadas
por outras com mais apelo no mercado.
Deste modo, seguindo a proposta das autoras, ter orgulho de falar
Eu que fiz revela uma mudança em hábitos
e valores capazes de orientar um modo de vida futuro diferenciado
e tornar as crianças mais aptas a enfrentar as incertezas
e resolução de problemas com atos criativos.
ROSA IAVELBERG É ESPECIALISTA
EM ARTE EDUCAÇÃO, DIRETORA DO
CENTRO UNIVERSITÁRIO
MARIA ANTONIA E PROFESSORA DA FACULDADE DE EDUCAÇÃO
DA USP
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