Duas maneiras de ser feliz: o papel do texto
e da ilustração em Selma
por Dirce Waltrick do Amarante
Selma (Cosac Naify, 2007, tradução
de Marcus Mazzari), obra da ilustradora e escritora alemã
Jutta Bauer, é um daqueles livros infanto-juvenis que não
assustam pais nem professores, pelo fato de, num primeiro contato,
revelarem-se livros simples, fáceis, ao alcance de qualquer
criança. No caso específico Selma, esse
texto simples ainda tem como tema principal a felicidade, conceito
que é ilustrado pela vida de Selma, uma ovelhinha
que vê a felicidade nas coisas do cotidiano, como comer,
conversar, praticar esporte, etc. Por isso, quando questionada
sobre o que faria se tivesse mais tempo, ou mais dinheiro, Selma
repete as mesmas coisas, acrescentando-lhes, porém, sempre
algo “mais”.
Apesar dessa primeira impressão,
que o torna sem dúvida atraente e recomendável,
Selma não é um livro tão simples
assim. Sua complexidade (e seu alcance estético) surge
no diálogo entre texto e ilustração, o qual
se converte num “canto paralelo”, característica,
parece-me, própria de desenhistas escritores, como, por
exemplo, Edward Lear, um dos pais do nonsense vitoriano, e também,
contemporaneamente, Jutta Bauer.
Em comum, tanto os desenhos de Lear quanto
os de Bauer andam muitas vezes em dissonância com o texto,
extrapolam a escrita e, no caso dos desenhos da escritora e desenhista
alemã, eles são mais elaborados que a narrativa
extremamente simples e repetitiva. Por isso, são as ilustrações
de Selma que inserem no texto recursos retóricos
ausentes das palavras propriamente ditas.
Segundo o enredo do livro, por exemplo,
uma atividade constante na vida de Selma é a prática
de esporte. Lê-se essa informação, mas o desenho
que a acompanha mostra um grupo de ovelhas correndo ofegantes
e um focinho de lobo atrás delas. Conclui-se, então,
que o chamado “esporte” nada mais é do que
um eufemismo de “corrida pela sobrevivência”,
a qual, encarada de forma otimista, pode ser vista como um hobby.
Sobreviver, certamente, é uma luta
contínua, mesmo que se tenha mais tempo ou dinheiro, razão
pela qual, supostamente com mais tempo livre, Selma continuaria
praticando “esporte”, permitindo-se, porém,
o luxo de dar umas cambalhotas diante do lobo. Com mais dinheiro,
a ovelhinha continuaria a ser uma “desportista”, mas,
agora, com a sobrevivência quase garantida, passaria facilmente
por cima de seus problemas, encarnados na imagem metafórica
do lobo.
Outra figura importante na trama é
dona Maria, com quem Selma gosta de “papear”.
A ilustração nos mostra que dona Maria é
um abutre, animal pouco amigável que estaria, em tese,
à espera do ataque do lobo, para poder comer os restos
de Selma. Dona Maria, cujo nome nos é tão
familiar e pacífico, poderia representar a morte, o nosso
destino certo.
É nesse ambiente “hostil”,
entre o lobo e o abutre, que Selma busca a sua felicidade,
que se completa com as crianças a sua volta, uma bela refeição
e uma boa noite de sono.
No tocante ao diálogo entre texto
e ilustração, o filósofo francês Michel
Foucault lembra, no ensaio “Isto não é um
Cachimbo”, que esse diálogo nos confunde, mas é
inevitável ligar uma série à outra. O desenho,
no entanto, nem sempre é tautologia, como afirma Foucault,
muito embora, como o caligrama, pareça ter também
uma tríplice função: “compensar o alfabeto;
repetir sem a ajuda da retórica; prender as coisas na armadilha
de uma dupla grafia”.
Segundo Foucault, entretanto, “pintar
não é afirmar”, é, antes disso, deixar
“as similitudes se multiplicarem a partir delas próprias,
nascerem do seu próprio vapor e se elevarem infinitamente
em um éter cada vez menos espacializado onde elas não
remetem a nada mais que a elas mesmas”.
Não poderia deixar de mencionar,
ainda, que Selma possui uma boa dose de humor, presente,
principalmente, na relação entre texto e ilustração,
o que, mais uma vez, demonstra como ambos estão interligados
e se tocam, porém sem repetição mecânica,
tautológica.
Henri Bergson, no estudo Le Rire,
Essai sur la Signification du Comique (O Riso, Ensaio
sobre o Significado do Cômico), aponta algumas características
e situações do cômico, o qual, para o filósofo,
é um elemento essencialmente humano, mas que se pode aplicar,
sem dúvida, à parábola com animais da narrativa
de Jutta Bauer.
Dentre as várias situações cômicas,
Bergson opina que as mais “importantes” e “comuns”
são aquelas nas quais existem: 1. repetição:
“não se trata [...] de uma palavra ou de uma frase
que um personagem repete, mas de uma situação, quer
dizer, de uma combinação de circunstâncias,
que volta tal e qual várias vezes, cortando assim o curso
variável da vida”; 2. inversão: “imagine
certas personagens numa dada situação: você
obterá uma cena cômica se fizer com que a situação
retorne e os papéis se invertam”; 3. interferência:
“uma situação é sempre cômica
quando ela pertence ao mesmo tempo a duas séries de acontecimentos
totalmente independentes e quando pode ser compreendida de uma
só vez de dois modos diferentes”. Nessas três
situações citadas, o que de fato ocorre, segundo
Bergson, é a presença constante de um mesmo objeto:
dá-se “aquilo que chamamos de uma mecanização
da vida”.
Em Selma, o que se tem é
a repetição dos mesmos fatos, já mencionados
anteriormente, frustrando, desse modo, a expectativa do leitor
de encontrar um curso natural e variável da vida, como
já apontava Bergson: “Era uma vez uma ovelha, que
toda manhã, ao nascer do sol, comia um pouco de grama,
até o meio-dia, ensinava as crianças a falar, praticava
um pouco de esporte à tarde, ...”. Ora, é
isso que relemos – apesar de alguns poucos acréscimos
ao texto, que não mudam o todo da narrativa -- até
o final da estória.
No que se refere à inversão
de situações, vemos, numa primeira ilustração,
o lobo correr atrás das ovelhas assustadas, no entanto,
no final da narrativa, são as ovelhinhas que saltam por
cima de um lobo completamente apavorado e exausto.
Por fim, em Selma, a interferência (outra situação
do cômico a que se refere Bergson) está na relação
direta entre o texto e a ilustração: o texto, por
exemplo, informa ao leitor que Selma pratica esporte,
a ilustração, no entanto, mostra que o que ela faz
é, na realidade, correr do predador.
Outro teórico moderno que dedicou
ao cômico pelo menos um livro, Comicidade e Riso,
publicado postumamente, foi o russo Vladímir Propp.
Propp inicia seu estudo “examinando
tudo aquilo que não pode ser objeto de riso” e, ao
fazê-lo, dialoga com Bergson e aceita em parte a sua idéia
de que o cômico é uma experiência eminentemente
humana, pois, de um modo geral, “não existem florestas,
campos, montanhas, mares ou flores, ervas, gramíneas etc.
que sejam ridículos”. Propp acrescenta, todavia,
que “se arrancarmos um rábano e ele repentinamente
nos lembrar com seu perfil um rosto humano, surge então
a possibilidade de rir”.
Assim como a natureza pode vir a se tornar cômica, na opinião
de Propp, também “o animal pode ser ridículo”.
O estudioso explica que, por serem parecidos com os seres humanos,
rimos deles porque “lembram os homens e seus movimentos”.
Nas ilustrações de Jutta Bauer, os bichos têm
expressões e movimentos humanos. É cômico,
por exemplo, o olhar ingênuo e simplório de Selma,
quando é entrevistada por uma emissora de rádio
ou tv, ou a expressão atônita do lobo diante da “revanche”
das ovelhas.
Segundo Propp, outro aspecto do cômico,
aliás, importantíssimo, presente em Selma,
é a “ironia”, e essa última se relaciona
de certa forma ao paradoxo: “se no paradoxo conceitos que
se excluem mutuamente são reunidos apesar de sua incompatibilidade,
na ironia expressa-se com as palavras um conceito mas se subentende
(sem expressá-lo por palavras) um outro, contrário”,
como chamar o ato desesperado de fugir do lobo de esporte, ou
mesmo denominar um abutre agourento de dona Maria, nome que exprime
certa familiaridade e confiança.
Selma é, de fato, um livro que visa proporcionar
aos leitores iniciantes uma leitura direta e dinâmica, leitura
essa que, graças ao confronto com as ilustrações,
se enriquece de uma imensidade de informações retóricas
e conceituais, capazes de agradar também ao adulto.
Dirce Waltrick
do Amarante é professora de Literatura Infanto-Juvenil
na Universidade Federal de Santa Catarina, onde desenvolve pesquisa
de pós-doutorado como bolsista do CNPq.
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