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Mapa do primeiro trecho
percorrido pela Missão Dacar-Djibuti na África
(1931/1932) |
MICHEL LEIRIS: MULTIPLICIDADE DE INTERESSES
E REGISTROS
O mais importante marco da antropologia francesa,
a Missão Etnográfica e Lingüística
Dacar-Djibuti, realizada entre 1931 e 1933 e que percorreu
o continente africano do Atlântico ao Mar Vermelho,
também significou uma transformação na
trajetória intelectual de Michel Leiris, autor de A
África fantasma. Já escritor e poeta afinado
com o Surrealismo, Leiris integrou a Missão como secretário-arquivista
e, de suas anotações, resultou um diário
de viagem antropológico. Mas a riqueza da obra não
permite que ela se encerre apenas no relato de viagem: marcada
pelo viés autobiográfico, ela transita entre
o registro das vicissitudes da viagem – feito sempre
de forma literária – e alcança até
mesmo revelações sobre a sociedade francesa
e a subjetividade na construção do conhecimento,
sem que nada escapasse à apurada e impiedosa prosa
de Leiris.
Leia a seguir trechos de A África Fantasma
em que é possível colher esta multiplicidade
de registros, incluindo um sonho do autor e o início
de um conto escrito por ele.
24 DE MAIO DE 1931
"Começa a fazer tempo bom e calor.
Pela manhã, conversa e aperitivo com o comandante.
Ele nos conta que os kruman da embarcação têm
o costume, quando querem combater a febre, de introduzir uma
pimenta no ânus. Por outro lado, a pimenta é
um dos elementos essenciais da alimentação deles.
Também nos disse que, em determinados portos africanos,
para combater o alcoolismo, proibiu-se até a importação
de álcool inflamável.
À tarde, grande sessão de engraxar botas e sapatos
sobre o convés, torrando ao sol. Estamos agora ao largo
da costa do Marrocos. Alguns sinais de regiões quentes:
surgem baratas nas paredes; durante o almoço, algumas
formiguinhas passearam pela toalha de mesa e subiram no pão.
À tarde, avisto águas-vivas de cristas violetas
deslizando ao longo do casco do navio. Passei a noite com
Griaule, no castelo da proa, conversando; ele deitado, eu
sentado, olhando a roda da proa, o céu, a espuma etc.
Lembrança de uma canção: Nous partons
pour le Mexique/ Nous mettons la voile au vent..."
(Em tradução livre: Partimos para o México,
zarpamos a todo vapor).
23 DE JULHO DE 1931
"Sonhei que uma de minhas apreensões se realiza
e que começo a ficar careca de verdade. O que se manifesta
pela formação, sobre a parte direita de minha
cabeça, um pouco à frente do occipício,
de um lugar descoberto que, visto de perto, se revela arenoso
e pedregoso, com um pequeno oco que posso escarafunchar com
o indicador, como escarafuncharia uma escavação
arqueológica, e cuja forma alongada me faz lembrar
um sarcófago... Griaule, por sua vez, febril, sonhou
outra noite que deveria levar leões a um museu.
Afora isso, chuva e 99% de umidade no higrômetro. Larget
– com quem saímos em busca de outras lapas e
outras grutas e que, mais uma vez, descobre grafites –
me fala de geologia e paleontologia. Para mim, o martelo que
leva eternamente à mão e seu jeito desengonçado
evocam sempre o velho mineiro de Goethe, Zacharias Werner,
ou então Wilhelm Oken, a teoria netuniana e os Naturphilosophen
do romantismo alemão".
30 DE ABRIL DE 1932
"O motorista, que passou a noite com amigos, está
completamente bêbado. É preciso impedi-lo de
fazer qualquer coisa, pois quebraria tudo. A volta sem pneus
de reserva é muito inquietante: com um pouco de azar,
o menor contratempo poderia nos deter por dois ou três
dias. Felizmente, tudo corre bem. Tivemos de parar com freqüência,
o bêbado sentia vontades incessantes de mijar e se queixava
com voz pastosa em abissínio…
Agora, a carniça de camelo foi abandonada pelos abutres.
Está completamente limpa. Restaram apenas os ossos.
Choveu ontem. O caminho está bastante enlameado. Quando
as chuvas se instauram isso deve virar um senhor lamaçal!
Griaule envia um novo telegrama a Adis Abeba, informando que
a alfândega de Gallabat ignora tanto os vistos de entrada
como os telegramas em francês que nos foram enviados.
À noite, tornados ameaçadores. Céu, mais
do que nunca, carregado de nuvens hipertrofiadas. Veios de
raios. Farrapo de céu cor de enxofre ou azul metálico.
Muito suor e pouca chuva orvalham em gotículas. Subi
romanticamente no terraço para ver a procissão
de tempestades avançar; desci para jantar".
14 DE SETEMBRO DE 1932
"Não pude manter atualizado este diário
nos últimos três dias. Ocupado demais, vi coisas
demais.
Faltou pouco para eu ser privado do sacrifício a Abba
Moras Worqié, sobrevindo um drama familiar (rapto
de uma moça, seguido de briga, ou ameaça de
briga) domingo, na casa de Emawayish, em Qeddous Yohannès,
seu bairro. Mas apesar do transtorno provocado pelo acontecido,
o sacrifício foi realizado segunda-feira de manhã,
como combinado. Vi Emawayish em transe fazer o giro com a
cabeça e o balanceio pendular com o tronco, que constitui
o gourri. Eu a ouvia, com uma voz mais grave do que
a habitual, declamar o tema de guerra de Abba Moras Worqié,
entremeado de rugidos. Eu a vi beber sangue. Eu até
a vi sentada, a cabeça coberta com o peritônio
e o intestino enrolado ao redor da testa; depois, indo do
meio da sobrancelha até a nuca, em forma de crista
– véu delicado e cimeira orgulhosa resplandecendo
na penumbra, com um brilho um pouco azulado, lembrando a cor
de suas gengivas, pintadas à abissínia, em cima,
com dentes cor de leite. Eu nunca sentira a que ponto era
religioso, mas de uma religião em que é necessário
que me mostrem o deus... ".
26 DE DEZEMBRO DE 1932
[...] “Idéia de um conto, cujos elementos seriam
tomados de empréstimo, no sentido mais amplo, da presente
realidade. Uma personagem do gênero Axel Heyst. Igualmente
gentleman, porém menos endinheirado. Muito mais tímido,
ainda mais reservado. Atenção meticulosa que
dedica ao vestuário. Uma mancha na roupa branca o enlouquece.
Mesmo impecavelmente vestido, parece ter sempre vergonha.
Perfeição de suas toalhas de mesa e de seus
guardanapos. De ordinário, é calado. Muito raramente
(do nada ou se toma alguns uísques) se anima. Portanto,
fala com um tom frio e arrogante, tratando os assuntos sexuais
com uma espécie de cinismo que também pode ser
uma forma de objetividade científica. Exerce uma atividade
qualquer numa colônia qualquer. Não é
sociável, mas é capaz, como Axel Heyst, de ser
obsequioso. Uma só vez, ele se permitiu um pouco; numa
conversa, durante um jantar de homens, disse rindo que as
questões sexuais não lhe interessavam pessoalmente,
dado que é impotente. Essa brincadeira agradou muito.
Axel Heyst agora passa por ser capaz de se mostrar, de acordo
com as circunstâncias, um companheiro jovial. Como nunca
se soube da existência de mulheres, acredita-se que
seja homossexual; o cinismo de algumas de suas palavras pode
ter contribuído para isso. Por outro lado, diz com
muita naturalidade que as mulheres não são necessárias,
pois existe a masturbação. Alguns dizem que
não é “homem”: não faz nada,
não caça, é muito mole com os indígenas,
se atormenta com muita facilidade. Entretanto, em circunstâncias
graves, chegou a mostrar sangue-frio. Até aqueles que
mais o denigrem, lhe concedem alguma dignidade. Mas é
certo que não gostam dele. O único homem a quem
está um pouco ligado é o médico, com
quem conversa muitas vezes sobre ciências naturais e
etnografia. Mas, com o médico, não passa disso.
Nunca é cínico e evita cuidadosamente tudo que
possa estar relacionado à sexualidade e à psicologia.
Um belo dia, uma novidade corre a colônia: há
uma mulher em sua vida. À noite, um moleque viu uma
indígena entrar na casa dele e sair alguns minutos
depois. Mas nada na atitude de Axel Heyst permitiria supor
que algo tenha mudado. Ainda freqüenta o doutor com muita
regularidade, ou vai jantar na casa dele ou o convida para
jantar. Uma noite, o doutor está pronto para dormir
quando Axel Heyst chega, desculpando-se muito. Segura o lenço
como tampão sobre a testa, perto da têmpora,
e o lenço está manchado de sangue. O doutor
pergunta o que acontece. Um pouco constrangido, Axel Heyst
responde que se feriu ao descarregar o revólver. Bastante
confuso, diz, abaixando os olhos e sorrindo, que o conhecem
bem na colônia, que não é caçador
nem soldado, que não tem o hábito das armas,
que é muito desajeitado etc. O doutor faz um curativo
no ferimento – que é superficial –, manda-o
embora.
Algumas semanas depois, o doutor vem a saber que Axel Heyst
– que deveria ir à Europa em férias –
não viajou. Durante todo esse tempo, ele saiu muito
pouco. Como também partirá em viagem, o doutor
quer se despedir de Heyst; passa várias vezes na casa
dele, mas não o encontra. Finalmente, embarca sem o
ver. Conhecendo Heyst, tão educado, não é
capaz de conter certo mau humor” [...]
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