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©D.R./ coleção
particular |
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| O poeta, escritor e antropólogo
Michel Leiris em foto de 1960 |
A IDADE VIRIL E SUA "ETNOLOGIA
DO EU"
A idade viril é um empreendimento
autobiográfico original. Em vez de alinhar cronologicamente
os acontecimentos mais significativos de sua vida, Michel
Leiris se empenha em introduzir na sua escrita o risco, aproximando
a literatura da tauromaquia, a página em branco da
arena de touros, o homem de letras do matador. São
confissões onde não se nota qualquer vaidade,
ao contrário: há momentos em que o autor expõe
seus defeitos e fraquezas, fazendo de cada palavra um espelho
que revela os aspectos mais sombrios de sua existência.
Quem ler este texto estará lendo uma alma.
Publicado em 1939, trata-se do primeiro livro efetivamente autobiográfico
de Leiris, já que no diário de viagem A
África fantasma (1933) ele ainda se encontrava
preso às convenções do gênero, num
texto fragmentado e anedótico, voltado para o exterior.
Em A idade viril é a vida interior que conta.
Por isso, o autor se debruça minuciosamente sobre detalhes
da infância, de sua relação com as mulheres
e mesmo de sua própria anatomia. A única regra
do jogo é nada esconder, nem mesmo as intimidades e obsessões
de ordem sexual ou sentimental mais humilhante.
Não é sem razão que o livro começa
com uma descrição física detalhada do
autor, contrariando a expectativa de um relato retrospectivo,
habitual no gênero. Sobre a cronologia prevalece uma
ordenação em núcleos temáticos,
focos a partir dos quais se constituiu a personalidade do
escritor. Então com 34 anos, Leiris fez uma espécie
de arqueologia de si mesmo, em busca de suas representações
mentais e afetivas mais importantes - a morte, o envelhecimento,
o suicídio, a alma, o erotismo.
Parte da reflexão de Leiris gravita, ainda, em torno
de algumas figuras míticas da feminilidade, como Lucrécia,
Salomé e Judite, que refletem a imagem que o escritor
fazia das mulheres em matéria de amor e sua sensibilidade
particular às lágrimas, aos ardis femininos
e às ligações entre sexo e morte.
Essa mesma autenticidade está presente nos textos
que Leiris dedicou, ao longo de cinco décadas, à
criação literária, à antropologia
e à crítica de arte. Em todos os gêneros,
seu objetivo principal era observar e decifrar a si mesmo,
num exercício permamente de auto-análise. Sempre
em busca do perigo que corre o toureiro ao entrar na arena,
como se o texto necessitasse da legitimação
do sangue e da violência, para Leiris, a única
maneira de conferir à atividade serena da escrita um
risco verdadeiro era abolir todas as suas defesas, expor-se
publicamente.
Leiris explicita essas idéias no texto "Da literatura
considerada como uma tauromaquia", que passou a ser editado
como prefácio de A idade viril a partir de
1946. Sua concepção da literatura prega a ruptura
com uma estética anêmica e auto-indulgente, desprovida
de substância, com o estilo leve e fútil como
movimentos de bailarina, para engajar-se na realidade dura
e brutal do dia-a-dia, em busca do que chama de "plenitude
vital". Influenciado por Sartre, ele escreve que seu
propósito último em A idade viril foi
"escrever um livro que representasse um ato".
SAIBA
MAIS SOBRE MICHEL LEIRIS
MICHEL LEIRIS NA COSAC NAIFY:
A
África fantasma
Espelho
da tauromaquia
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