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Foto: Debby Gram
Modelo Rojane para campanha André Lima - Verão 2004/2005

DE PORTAS ABERTAS
Por Simone Esmanhotto*

O sexto volume da Coleção Moda Brasileira traz à tona o universo exuberante e extra feminino - da infância à moda - de André Lima.

À mesa de um restaurante do tipo fino-moderno, em São Paulo, depois do lançamento de uma minicoleção, André Lima dispensa a oferta de parmesão ralado sobre o ravióli com recheio de caranguejo, ingrediente típico da culinária da sua terra natal, o Pará. Pede limão siciliano - e salpica as raspas no lugar do queijo. "Dá muito mais sabor", ensina o estilista, cozinheiro de mão cheia quanto o cardápio sai do feijão-com-arroz e parte para pato no tucupi. A mistura - caranguejo paraense, massa italiana e limão como o imprevisível toque final do prato - diz muito sobre o gosto de André Lima. E, por conseqüência, da sua moda. "Meu trabalho é um acúmulo de inspirações e estímulos", define o próprio no volume dedicado a sua história de criação, parte da Coleção Moda Brasileira - maior documento disponível sobre a moda nacional contemporânea, publicado pela Cosac Naify.


André Lima (Coleção Moda Brasileira vol. 6)
R$ 49
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Impossível classificar o trabalho de André com uma, duas palavras. Ele é um dicionário de referências. Seus verbetes vão de cetim, tafetá, jacquard, passando por Maria Bethânia, Diana Vreeland, Greta Garbo, até chegar a Rocco Barroco, Erté, art déco , bélle époque (tão francês e tão Belém, a Paris n´América). A cada coleção, elas se embaralham e se sobrepõem no mood board - um gigante painel de imagens coladas numa das paredes da sua sala, no ateliê em São Paulo. E só mesmo André é capaz de traduzir tudo. "Moda é combustível, delírio, vício, contradição, desejo, viagem, casamento", diz. Suas mil palavras valem tanto quanto mil imagens. E uma amostra delas se revela na edição do livro: a floresta amazônica, o carnaval dos anos 1970s, as revistas de moda do passado, a procissão do Círio de Nazaré se justapõem às coleções do estilista, impressas em folhas amareladas pelo tempo, como pede um estilista cuja memória visual está intimamente costurada à criação.

Na casa de Belém - entre os móveis antigos, em estilo colonial, a porcelana inglesa, a cozinha de fórmica, os utensílios de plástico, um resumo do kitsch chic da sua marca -, cercado de 10 mulheres de estilos diferentes, André aprendeu o bê-a-bá da moda vendo a mãe Theté e as tias se arrumar. Dali saiu seu maior trunfo como estilista: pensar com uma cabeça bem feminina. Ao contrário de muitos colegas do métier, que tendem a fantasiar sobre os desejos das mulheres, André sabe que a lista se resume a um querer maior de todos: se sentir linda da cabeça aos pés. Coisa de diva. As heroínas das novelas da Globo (pense Sandra Bréa) e cantoras como Maria Bethânia e Clara Nunes, sempre na trilha das faxinas de sábado na sua casa, acabaram por definir a marca dos seus desfiles: mulheres fortes, cheias de pose, penteadas (de preferência com arranjo nos cabelos), maquiadas, cheias de bijoux.

Vem de casa também o fascínio pelos tecidos. André acompanhava o pai, comerciante, à s tecelagens. Descobriu menino como se movimenta, que som faz, que caimento tem a cambraia, a seda, o tafetá, o chamalote, fundamental para acertar a medida dos vestidos que hoje as mulheres amam. Saber manejá-los faz dele um costureiro moderno - um dos raríssimos nomes da moda contemporânea brasileira que fazem uma linha direta com os costureiros do passado, como seu conterrâneo Dener (1936-1978) e Clodovil (de quem jamais esquece a campanha com jeans simulando um cacho de bananas). Construída com tecidos de cortina e almofadas herdados da família mais tafetá e zibeline de seda doados pela tecelagem Franceza, da rua Augusta, a coleção de estréia da marca André Lima, de 1999, mostra o quanto retalhos da autobiografia alinhavam sua moda.

Antes de ceder de vez ao gosto da infância, porém, André estudou, sem concluir, arquitetura. Trabalhou como produtor de figurino de TV. Só no começo dos anos 1990 se mudou para São Paulo. Montou seu estande de camisas-pólo no Mercado Mundo Mix. Assumiu a cadeira de diretor criativo da Cavalera e logo mostrou que não usa salto alto na hora de criar. Zero esnobe, adicionou a chacrete Rita Cadillac ao rol de inspirações. "Gosto de experimentar", resume.

E não tem medo de mudança. Na passarela, a moda vai se transformando. Saem as estampas 'uau'!. Entram blocos de cores fortes. Saem os maxicomprimentos. Entram os míni. Saem os tecidos fluidos e o desenho solto. Entram as geometrias e os volumes - o estudo da arquitetura dá nova forma às roupas. É uma nova exuberância. É o retrato mais perfeito da mistura de temperos do seu rico repertório de moda.

O projeto gráfico do livro é como um antigo álbum que mistura as referências do estilista a suas peças mais importantes em páginas amareladas pelo tempo.

*Simone Esmanhoto é editora de texto e reportagem de moda da revista Elle.


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