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CATÁLOGO DA MOSTRA DA ANTROPOFAGIA A BRASÍLIA GANHA AS LIVRARIAS

por Alvaro Machado

Brasil, da Antropofagia a Brasília - 1920-1950 inaugura no País a era dos catálogos de exposição feitos para permanecer muito além do evento museológico.

Idealizado originalmente para acompanhar a mostra homônima, organizada no Instituto de Arte Moderna de Valência (Espanha) em 2000/2001 e redimensionada para abrir no próximo dia 30 de novembro na Fundação Armando Álvares Penteado, o catálogo também está sendo distribuído às livrarias de todo o País, por seu caráter de obra de consulta e referência. O volume traz textos inéditos de professores-curadores em sete disciplinas artísticas e reprodução da principal documentação artística do período abordado.

O professor de literatura Jorge Schwartz, curador-geral da mostra e editor do catálogo, idealizou um evento e um livro de caráter multidisciplinar, fiéis ao espírito das vanguardas artísticas dos anos 20 no Brasil e na Europa. Diversamente da montagem da exposição, que possui ordem cronológica, o catálogo está dividido em sete áreas artísticas distintas e reúne pesquisas realizadas ao longo de dois anos por consagrados professores e especialistas em cada setor.

Leia a seguir entrevista exclusiva para o site Cosac Naify com Jorge Schwartz, professor titular em Literatura Hispano-Americana da Universidade de São Paulo desde 1971 e curador-geral e Brasil, da Antropofagia a Brasília.

Como foi produzido esse catálogo?
Jorge Schwartz - O Intituto Valenciano de Arte Moderna é um dos poucos museus no mundo que mantêm uma equipe própria de produção de catálogos. Eles não terceirizam essa produção. Eles também não costumam chamar os curadores das exposições para colaborar nesse trabalho, para poder agilizá-lo. Porém, ao verem o caráter monumental da mostra Da Antropofagia a Brasília nos chamaram muito depressa, por causa da montagem muito complexa da mostra, feita em ordem cronológica mas com um diálogo entre as várias disciplinas envolvidas. E porque o catálogo somente seria possível com uma estrutura bem diversa, com uma divisão de acordo com os assuntos e curadorias envolvidos: teatro, cinema, arquitetura etc. Portanto, mostra e catálogo foram duas empresas bem diversas.

No entanto, temos agora duas produções de um mesmo material: as edições espanhola e brasileira do catálogo. O senhor trabalhou em ambos desde São Paulo?
Jorge Schwartz
- Estive em Valência durante um mês, no ano passado, cuidando de página por página para a edição em espanhol. Mesmo assim, esta saiu com vários erros de informação e reproduções de imagem insatisfatórias. Já para a reedição brasileira foram mais seis meses de trabalho este ano, em checagem de dados, correções, substituições de imagens, melhoras de reprodução gráfica etc. Em julho fui enviado para acompanhar a finalização, na Espanha. Por isso fizemos questão de que na nova ficha catalográfica constasse a informação:"edição revista e aumentada". Posso dizer que esta edição brasileira sai praticamente sem erros. À distância parece o mesmo catálogo, porém se olharmos de perto é possível fazer uma tese de mestrado sobre as variantes entre as edições.

É algo um tanto raro poder revisar um catálogo de mostra...
Jorge Schwartz
- Não se costuma investir nisso e foi uma chance extraordinária. Pudemos inclusive fazer um trabalho de revisão dos textos em português que antes haviam sido traduzidos para o espanhol. Já quanto ao design global do catálogo, o trabalho espanhol foi excelente e eles não teriam nos entregado os arquivos eletrônicos para fazermos a impressão aqui. Portanto, mantivemos esse desenho e a edição brasileira foi impressa na Espanha, com uma qualidade gráfica excelente: ampliações muito bem feitas, imagens com muita luminosidade e cores corretas etc. Comparando telas famosas reproduzidas em outros catálogos brasileiros, como o "Abaporu", de Tarsila e outras, verifico um ganho de intensidade, embora todos saibamos que não existe maneira de reproduzir um quadro graficamente com cem por cento de fidelidade. Na Espanha utilizam máquinas e scanners de última geração, ótimo papel, o que valoriza muito a obra. Infelizmente pegamos um período eleitoral brasileiro em que o câmbio extrapolou, mas quando fizemos os orçamentos de impressão, o preço de capa de cada exemplar sairia mais baixo com a impressão feita na Espanha.

Quais são as grandes modificações do catálogo em relação à primeira edição espanhola?
Jorge Schwartz
- Por exemplo: uma das peças-chave da exposição é a obra de Cícero Dias, Eu vi o mundo... ele começava no Recife, de 12,5 m de comprimento, óleo sobre papel. Essa obra ficou péssima na impressão da primeira edição. Era um tríptico em página dupla, o que não dava a dimensão real da obra. Ampliada, colocando-se uma lâmina dobrável, a compreensão melhorou e foi possível, ainda, adicionar no verso das lâminas de Eu vi o mundo... uma obra que dialoga com o tríptico. Outro elemento novo reproduzido é uma capa de livro de João Cabral de Melo Neto feita por Joan Miró em 1950, que não conseguimos levar para a Espanha e que será exposta em São Paulo. Para mencionar um terceiro item modificado, há as quatro maquetes arquitetônicas de obras de mestres brasileiros, feitas em Veneza e acrescentadas à curadoria de Arquitetura. A curadoria de cinema também fez várias modificações na organização das imagens. Gostaria de lembrar também o excelente trabalho de cronologia do período, de autoria de Gênese Andrade.

Portanto o catálogo foi enriquecido... Por curiosidade, existe alguma correção significativa de sua curadoria de artes visuais, algo que o senhor tinha deixado passar na primeira versão?
Jorge Schwartz
- Eu sou um especialista em Oswald de Andrade, mas na página de rosto do livro há uma reprodução do trabalho de Tarsila de Amaral que serviou de capa ao Manifesto Pau Brasil de Oswald. Eu me dei conta agora de que raramente essa obra sai em posição correta, com a bandeira brasileira na vertical, e agora corrigimos. São pequenas correções como essa, que atravessam todo o catálogo.

Sobre sua curadoria-geral, o senhor adotou no título 1920-1050. Por que restringiu a produção a esses 40 anos e não avançou, por exemplo, até a década de 60, que gerou tantos trabalhos diretamente inspirados no movimento antropofágico dos anos 20, em artes visuais, música, cinema etc.?
Jorge Schwartz
- Darei duas respostas. O primeiro convite surgiu do antigo diretor do IVAM, Juan Manuel Bonet (ele foi transferido para o Museu Rainha Sofia, em Madri). Quando nos encontramos em dezembro de 96, em Valência, minha proposta era apenas anos 20, que é o período que domino melhor. Mas sempre com a idéia de fazer algo multidisciplinar, como foi a Semana de Arte Moderna. Foi feito um primeiro projeto, já envolvendo todos os curadores das diversas áreas. Logo após fiquei sabendo que o tema geral da Bienal de São Paulo de 1998 seria justamente a Antropofagia. Portanto, não poderia mais ser uma mostra de anos 20, embora eu não soubesse com certeza o que seria a Bienal de 98. Decidimos portanto ampliar o arco de tempo, e achamos que havia um padrão de ruptura na cultura brasileira que avançava até os anos 50. E todos achamos, também, que entrar nos anos 60 iria gerar uma segunda exposição, pois aí começa o Tropicalismo, a Bossa Nova, o Cinema Novo, o Neoconcretismo um vasto material... Tínhamos dez salas para a montagem da exposição e achamos coerente esse arco 20-50. Tanto assim que, apesar do título da exposição e do catálogo, as pessoas não vêem Brasília, mas a fundação da cidade, o desenho do eixo monumental etc. Assim fizemos a primeira metade do século XX, incluindo o pré-modernismo.

Aparecem então questões fundamentais na cultura brasileira, os pontos de partida para as principais modificações ocorridas no decorrer de um século, por exemplo a internacionalização da questão da modernização da arte, as tensões entre o nacional e cosmopolita, por exemplo. Daí termos uma curadoria importante em "Presenças Estrangeiras", que mostra esse diálogo.

A mostra integra o início do concretismo brasileiro, com o grupo de pintores do Ruptura, e também a literatura concreta da década de 1950. O que o senhor acha da declaração recente do crítico Lorenzo Mammì sobre Antropofagia e Concretismo? Ele considera que o primeiro movimento foi abortado muito prematuramente, que não havia ainda formas de transmissão satisfatórias e que portanto o Modernismo não deixou herdeiros significativos após os anos 40, enquanto o Concretismo teve influência duradoura, repercutindo com bastante força ainda hoje nas artes visuais e na literatura. Portanto o Concretismo, para Mammì, teria sido mais importante que a Semana de 22...
Jorge Schwartz
- Não concordo e considero essas duas coisas completamente diferentes. Eu diria que o Construtivismo é um estilema, ou seja, um traço de estilo muito reconhecível. Seja em Volpi, seja na geração dos próprios construtivistas, em Geraldo de Barros e outros. Já a Antropofagia nasceu de um reflexão conjunta - num primeiro momento, de Tarsila, Oswald e Raul Bopp, e depois desenvolvida pelo próprio Oswald - e sempre teve caráter bem mais simbólico. Ela não apresenta apenas um traço de estilo. Não vamos a uma exposição e dizemos "isto é antropófago". O que podemos dizer é que Tarsila, mulher de Oswald no início dos anos 20 e compartilhando idéias com ele, fez uma tela que se chama Antropofagia, e uma outra que se chama Abaporu, antecedida um pouco por A negra. Mas ela não criou aí um traço de estilo. A Antropofagia é, principalmente, uma discussão de ideologias, que formulou as questões mais fecundas e interessantes sobre dependência cultural e a noção do Brasil como país periférico. Tanto que ainda hoje em dia, nos Estados Unidos, há um grande interesse de publicações e muitas teses sobre esse tema, há números de revistas literárias exclusivamente dedicadas etc. Estilos como impressionismo, futurismo ou construtivismo têm pouco ou nada que ver com Antropofagia, que é um movimento quase filosófico, com seus manifestos.

A Antropofagia seria um movimento muito mais conceitual e até político que formal... e tem grande interesse ainda hoje.
Jorge Schwartz
- Claro. Essa atualidade não é exatamente plástica, mas é tão forte que em 98 levanta-se toda uma Bienal sobre esse tema, com curadoria de Paulo Henkenhoff e Adriano Pedrosa. Outra questão paralela é a vigência do Modernismo no Brasil. Há uma espécie de culto, ou de celebração contínua, da Semana de 22. Veja o grande número de publicações e estudos sobre Mário e Oswald, o "estouro" atual em torno de Tarsila do Amaral...

O senhor vê algo em comum, alguma solução de continuidade, formal ou conceitual, entre o Abaporu de Tarsila e o Palácio do Alvorada?
Jorge Schwartz
- Uma afinidade é a idéia do "moderno" que persiste. Há uma espécie de geometrização das formas no período Pau Brasil de Tarsila (anterior ao período Operários), principalmente. Ela recorreu às fontes francesas, a Fernand Léger, a Brancusi... Veja que por trás de Niemeyer há Le Corbusier. E Le Corbusier tem, portanto, muito que ver com o projeto de modernização arquitetônica brasileira. Esse diálogo com a Europa e a estilização geométrica... essas são as possibilidades de comparação entre as obras de Tarsila e de Niemeyer.

A idéia de montar uma exposição e um catálogo multidisciplinares, diferente do que já se fez este ano no Brasil sobre os 80 Anos da Semana de Arte Moderna...
Jorge Schwartz
- Essa concepção tem origem no Modernismo brasileiro e eu fiz questão de que assim fosse. Qualquer estudo ou evento que recupere a Semana deve ser fiel ao seu espírito. Por isso há música, literatura, artes plásticas e também exposição de arquitetura, pois no catálogo original da Semana há projetos arquitetônicos. Estou fazendo um projeto paralelo que se chama Caixa Modernista, sobre a arquitetura de 22 e projetos modernistas. Essa multidisciplinariedade tem ligação com a idéias das vanguardas em geral. Veja os balés de Diaghilev, onde entram Picasso, Satie etc. Nas vanguardas as artes têm um intenso diálogo e isso já havia começado no Simbolismo, com as "correspondências". Nos anos 20 isso aparece com grande intensidade.

Não existem manifestos fortes como o Pau Brasil em áreas específicas de música, de cinema, a Antropofagia englobou tudo...
Jorge Schwart
z - De fato, e o que existiu de importante está reproduzido neste catálogo. Acho bom dizer que cada curadoria incluiu a documentação mais representativa da época, e esses documentos, escolhidos por cada curador, estão reproduzidos ao final do catálogo, por exemplo a conferência de Mário de Andrade na Casa Modernista. São documentos às vezes de difícil acesso. Também constam as bibliografias específicas de cada curadoria.Por tudo isso, este catálogo serve como obra de consulta e referência.

Veja ficha técnica e detalhes do livro

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