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Derzu Uzala (1975) filme de Akira Kurosawa, analisado por Daney

SERGE DANEY, O CINE-FILHO DO CINEMA MODERNO
* por Marcio Sattin

Quinze anos depois da morte de seu autor e quase vinte e cinco desde sua primeira publicação em francês, A rampa, de Serge Daney, é lançado no Brasil pela Cosac Naify em co-edição com a Mostra Internacional de Cinema São Paulo, numa publicação que conta com dois prefácios escritos especialmente para o público brasileiro (de Serge Toubiana, atual diretor da Cinemateca francesa e que foi colaborador de Daney quando ambos trabalhavam na revista Cahiers du cinéma, e do crítico Jean-Michel Frodon, que dirige atualmente a revista), além de um posfácio assinado pelo tradutor Marcelo Rezende.

Leia prefácio de Serge Toubiana

Veja filmografia analisada pelo autor


R$ 65
Veja detalhes do livro

A partir dos primeiros textos para os Cahiers, em meados dos anos sessenta, passando por seu papel de timoneiro nas águas maoístas dos anos setenta, a levar a revista adiante, e chegando à amplificação imensa de público, nos anos oitenta, proporcionada pela escrita em um jornal diário, os elogios ao nome e ao trabalho de Serge Daney foram se multiplicando nas duas últimas décadas: não é incomum encontrarmos teóricos ou cineastas com orientações as mais diversas unidos no juízo de que Daney é o maior crítico francês de cinema da geração pós-Nouvelle Vague, justamente a geração dos críticos que se tornariam mais tarde cineastas - Rohmer, Godard, Chabrol, Truffaut. A publicação pela primeira vez em português de seus textos deve ser saudada de mãos dadas e olhos abertos com a expectativa de ver, em breve, outros livros de Daney em nossas prateleiras e livrarias.

Nascido em 1944, o ano de Roma, cidade aberta, de Rossellini, Daney gostava de dizer que tinha "a mesma idade do cinema moderno", e sua trajetória pessoal espelha a de muitos de sua geração e mesmo os ziguezagues da arte cinematográfica da segunda metade do século: a paixão cinéfila da infância e adolescência, a importância formadora da revista Cahiers du cinéma, a turbulência de Maio de 1968 e a participação militante dos anos setenta, a desilusão do engajamento e a volta ao cinema, o desafio do diálogo com a TV e com sua crescente importância contemporânea etc. A rampa, seu primeiro livro, é uma antologia organizada pelo próprio Daney e que contém textos escritos no período em que foi primeiramente colaborador e depois chefe de redação da revista Cahiers du cinéma. Mais tarde, em 1981, ele deixaria a revista para assumir a função de crítico de cinema e TV no jornal diário Libération, onde permaneceria por mais dez anos. Em 1991, um ano antes de sua morte, fundaria ainda a revista Traffic, de cinema e cultura, que segue publicada até hoje.

A "rampa", termo polissêmico que dá título ao livro, serve inicialmente como baliza física e teórica para mapear as questões de que os textos irão tratar. A rampa física que interessa a Daney é aquela que designa o espaço intermediário a separar, na sala de cinema, platéia da superfície da tela, o lugar esquecido e inútil situado entre as primeiras filas de poltronas e a tela brilhante - um resquício da época em que as salas de cinema eram destinadas ao teatro. Daney começa por evocar, em sua memória de garoto que freqüentava sessões duplas de cinema, justamente as atrações "teatrais", os números quase circenses, quase de parque de diversões, e sempre mambembes, que ocupavam este espaço nas salas e buscavam prender a atenção e receber trocados do público entre a primeira atração, geralmente um seriado ou noticiário ou filme curto, "B", e a atração principal, a fita de estúdio, com os atores conhecidos do público. Mais tarde, a rampa física como lugar intermediário ocupado pelos mambembes será também o lugar da crítica em sua tarefa de aproximar o velho par "mundo e obra", e a rampa passará a designar o espaço da mediação, feita pelo olhar do crítico, entre a platéia e o filme, entre o "olhar e o artefato cinematográfico" (como diz a nota brasileira ao prefácio de Jean Michel Frodon) - e a ironia de tal parentesco deve ter sido cara a Daney.

Em conjunto com a noção de rampa, há uma periodização do cinema que atravessa o livro e que é proposta por Daney (e depois matizada - veja-se o post-scriptum escrito por ele em 1982) nos seguintes termos: um primeiro momento, correspondente ao cinema narrativo clássico (Hollywood, sim, mas também as manipulações visuais empreendidas pelos regimes ditatoriais até a Segunda Guerra), que acena ao espectador a resposta à pergunta "O que há por trás da imagem?". Pressupõe-se um mundo organizado, coerente, com começo, meio e fim, capaz de fornecer explicações e de simular profundidade (de sentido e de campo), inclusive porque a imagem apresentada é substituta de algo que seguramente esteve lá.

Um segundo momento, identificado ao cinema moderno - inicialmente europeu - do pós-guerra, em que a pergunta passa a ser "O que há na imagem?": um cinema de superfície, anti-ilusionista, sem profundidade, que privilegia o distanciamento e que joga o olhar de volta ao espectador (até porque não há estrelas em cena, mas "pessoas" comuns, eu e você). A imagem, agora, não promete mais a presença de algo atrás dela, a lastreá-la, e pode, ela mesma, desaparecer sem deixar pistas (como se Antonioni esboçasse um sorriso, caso perguntássemos: "onde está aquela mulher que embarcou conosco no iate e que estava no plano agora mesmo?").

Por fim, chegamos ao terceiro período, contemporâneo, em que a pergunta se transforma em "Como se inserir na imagem, se o que há são imagens que se sobrepõem a imagens?". No lugar do objeto que não está mais lá, a imagem substitui uma outra imagem, anterior. O desafio ao olhar adquire outra ordem e requer novos aprendizados, seja para apreciar os filmes de Syberberg, com seus "personagens" desfilando sobre fundos filmados, seja para compreender o outro lado desta mesma moeda na linguagem específica da televisão e na produção cinematográfica americana das últimas três décadas, com o apogeu dos efeitos especiais que podem simular a imagem de qualquer pessoa ou objeto.

Ambas, a periodização e a rampa acima mencionadas, encontram-se em uma mesma discussão de fundo, que é a do lugar. O lugar da imagem, de quem produz a imagem, de quem a frui, do que faz a intermediação entre obra e público, do que está na e fora da imagem. E cada um desses lugares desenvolve, por sua vez, um novo elenco de problemas: que gozo é esse, por exemplo, do espectador? Ele deve ser incitado ou interdito? E que intermediação é essa? E as mudanças de natureza ocorridas com a imagem nestes cem anos de exercício cinematográfico? E a interferência, provocada pelo lugar daquele que filma, naquele que é filmado? A propósito desta última pergunta, e da noção de ponto-de-vista que ela desperta, Daney cita uma constatação de André Bazin, o crítico responsável pela criação dos Cahiers em 1951: "Mostrar, em primeiro plano, um selvagem cortador de cabeças vigiando a chegada dos homens brancos implica necessariamente que o indivíduo não é um selvagem, porque ele não cortou a cabeça do operador de câmera".

A divisão cronológica proposta pelas cinco seções de A rampa, ainda que as datas por vezes se recubram, nos ajuda a delinear a trajetória de Serge Daney e a situar os diferentes momentos da revista Cahiers du cinéma quando da publicação dos textos.

O primeiro período, de 1970 a 1972, é marcado pelas conseqüências imediatas do terremoto de 1968: a desconfiança da sala de cinema como local alienante, da prática cinéfila como apartada da prática política e, principalmente, da noção mesma de representação: que relação se estabelece entre uma imagem e o objeto que ela representa/ identifica/ perpetua? Denunciar os vícios da identificação imediata entre idéia e ideado (para usar uma terminologia propriamente filosófica), discutir que tipo de perpetuação de um objeto é estabelecido por sua imagem, reforçar a denúncia aos mecanismos de ilusão, são algumas das tarefas prescritas e executadas com o auxílio do aparato conceitual mais influente à época: estruturalismo, Lacan, o marxismo na versão althusseriana, Barthes etc.

No segundo período, de 1974 a 1976, após a fase mais maoísta dos Cahiers, em 1973, quando a revista circula com periodicidade irregular (e sem fotos), Daney se empenha, juntamente com Serge Toubiana e outros colaboradores, em refundá-la de modo a garantir sua sobrevivência e a retomada tanto do legado baziniano quanto do diálogo com a geração de cineastas da Nouvelle Vague que ocupou nas décadas anteriores a redação da revista (Rohmer, Truffaut, Godard, entre outros). Desta fase podemos acompanhar a discussão das possibilidades de um cinema militante e o destaque dado à noção mencionada de "ponto-de-vista", isto é, o lugar escolhido e ocupado pelo cineasta para falar de algo, sem deixar de privilegiar a consciência que ele, cineasta, deve ter desse mesmo lugar.

O terceiro momento, que vai de 1975 a 1978, nos revela a reafirmação de um procedimento caro ao cinema moderno, em sua contraposição ao chamado cinema clássico narrativo: em vez de personagens (e de atores "vivendo" estas personagens) que se apresentam imersos em tramas cuja solução ao final nos reconcilia e tranqüiliza, o cinema europeu do pós-guerra nos oferece lugares, ambientes, espaços ("Não filmo pessoas, filmo o espaço entre elas", dizia Godard); estes espaços, quando ocupados por "pessoas", mostram-nas cada uma delas cuidando da sua vida, flagradas em suas atividades cotidianas pela câmera, por exemplo entre as cinco da tarde e as sete da noite - para lembrar o título do conhecido filme de Agnès Varda -, sem a perspectiva ilusionista de reconciliação vinda de um plot.

O quarto momento da antologia cobre os anos de 1975 a 1980 e marca um refluxo da atitude política e politizada das fases anteriores. É a época, nas palavras de Daney, dos usos e abusos da palavra "corpo" empregada como ferramenta heurística de compreensão do mundo, o que significa dizer que a militância anterior adquire agora tintas fenomenológicas: os corpos filmados, juntamente com a percepção que se tem deles, representam enigmas que são decifrados diferentemente por cada cineasta em cada embate particular, e a variedade de respostas e de fracassos compõe um recorte significativo de cineastas-autores num período em que o cinema moderno começa a patinar.

A presença do corpo possibilita também que o último período compreendido no livro, os anos de 1977 a 1981, seja caracterizado por Daney como o retorno do que havia sido recalcado anteriormente, isto é, o ator, o corpo por excelência, o "corpo que fala", que diz seu texto mas que é ele também texto, diálogo, na medida em que sua presença física num filme remete aos outros filmes que ele tenha feito anteriormente.

Como se vê, temos uma miríade de temas e pistas para um número tão breve de anos, suscitada por uma lista de filmes e cineastas cuja simples enumeração serviria como catálogo instigante do cinema mais criativo feito desde então: de Godard a Spielberg, de Antonioni a Syberberg, passando por Hawks, Tati, Wenders, Kurosawa, Pasolini etc. Este condensado de idéias e de filmes demonstra não apenas a qualidade e a diversidade do pensamento de Daney (um pensamento que recusa sua organização em um corpus teórico fechado e totalizante), como, principalmente, a premência em ver suas provocações e conceitos disponíveis pela primeira vez para o público brasileiro e para o debate interessado do cinema contemporâneo.

Numa longa entrevista televisiva concedida a Régis Debray em 1992, poucos meses antes de sua morte, Serge Daney, ao falar de sua infância, observa de passagem que sempre acreditou na idéia de que um garoto de sete, oito anos já traz em si as escolhas que fará pelos anos à frente, quais interesses irão conduzi-lo, que tipo de vida levará etc., e que no seu caso, a literatura, num primeiro momento, e depois o cinema sempre lhe pareceram o seu caminho devido, escolhido, natural. Nesse comentário rápido, que sintetiza uma vida e uma obra em um instante, Daney parece responder à frase de François Truffaut que o escritor cubano Guillermo Cabrera Infante escolheu para abrir sua própria coletânea de textos cinematográficos (Un oficio del siglo XX): "Se você perguntar a um menino o que ele vai ser quando crescer, jamais ouvirá como resposta: 'Quero ser crítico de cinema'".

* Marcio Sattin é roteirista de cinema e professor de Estética na Escola da Cidade

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