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SOBRE O BALMACEDA DE JOAQUIM NABUCO

"Nabuco legou à posteridade um admirável testemunho de como a América hispânica importava ao Brasil"
* Por João Paulo G. Pimenta

"Em toda a América do Sul, há neste momento, como tem havido sempre, uma porção de revoluções à espera somente de um pretexto para rebentar". As palavras de Joaquim Nabuco, no seu Balmaceda , de 1895, tinham como pretexto a guerra civil que no Chile, quatro anos antes, opusera os poderes executivo e legislativo, e culminara com a derrota e o suicídio do presidente José Manuel Balmaceda. Mas demonstravam o estado de alerta em que deveriam se manter políticos e publicistas conservadores de todo o continente, como o próprio Nabuco. Para gente como ele, as grandes e abruptas transformações na política e na sociedade eram, por princípio, nefastas; para gente como ele, a tradição e as reformas eram as receitas para o desenvolvimento necessário de Estados e nações ainda jovens, rumo a um paradigma de civilização que, naqueles tempos, só podia estar na Europa e nos Estados Unidos.

Na leitura de Balmaceda revela-se todo o gênio conservador de um Nabuco aguerrido e combativo. Seu principal interlocutor-opositor é o autor da apologética e oficial biografia política de Balmaceda - Julio Bañados Espinosa - , da qual extrai não só as informações fundamentais do seu ensaio, mas principalmente o subsídio de seus principais argumentos contra o presidente chileno, devidamente invertidos, criticados e desfeitos. Balmaceda é uma obra sobre uma obra, dotada de um quadro lógico e persuasivo, ao mesmo tempo um libelo aristocrático e oligárquico, anti-revolucionário, reacionário, temeroso e militante. O Chile é uma espécie de advertência para o Brasil, uma vizinhança incômoda mas típica, de cuja ligação resulta, contraditoriamente, a falência de uma das idéias aqui mais caras a Nabuco: a de que Chile e Brasil ofereciam aos demais povos da América, desde o início daquele século, exemplos edificantes de estabilidade e solidez de suas instituições.

Desse modo, ao voltar-se para outros cantos da América e suas alterações, apenas seis anos após a proclamação da república brasileira e em meio a uma crescente turbulência de um processo que parecera razoável por adequadamente tranqüilo, Nabuco legou à posteridade um admirável testemunho de como a América hispânica importava ao Brasil. Trajetórias distintas, males próprios, soluções variadas, nada disso dissimulava a constatação de que todo o continente sul-americano caminhava de mãos dadas; e se ao leitor de Balmaceda não é difícil discordar dos princípios políticos de seu autor, tampouco o é reter a impressão da profunda atualidade que esse diagnóstico carrega.

*João Paulo G. Pimenta é professor do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP)


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