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O MANUEL BANDEIRA RELIGIOSO
RIMA, SIM, COM O LIBERTINO
por Paulo Werneck*
(Publicado no dia 22 de agosto de 2007 na Folha de S. Paulo)
Para um editor, é uma alegria editar um livro que mobiliza
críticos de boa cepa e provoca novas discussões
em torno de obras que parecem já ter sido assimiladas.
Por isso, dá gosto ler um texto vigoroso como o que
o professor Alcides Villaça publicou na Ilustrada em
21/7, sobre a antologia Poemas religiosos e alguns libertinos,
de Manuel Bandeira, recém-lançada pela Cosac
Naify. Na qualidade de editor do livro, eu gostaria de comentar
a leitura de Villaça, que lançou Passos
de Drummond pela mesma editora.
O título do artigo -"Bandeira sacro não
rima com libertino"- já separa dois traços
que organizador e editores procuraram mostrar como indissociáveis.
O Bandeira religioso rima, sim, com o libertino. Foi essa
constatação que nos levou a acrescentar à
antologia, originalmente publicada em 1984, seção
com poemas libertinos.
A sugestão foi dada por Gilberto Freyre, num texto
feito para a primeira edição: "Quem mais
místico, dentre os intelectuais brasileiros da época
de Manuel Bandeira, do que Jaime Ovalle? Ao mesmo tempo, quem
mais sensual? Talvez uma afinidade de Bandeira com esse seu
estranho, singular, extraordinário amigo".
Freyre relata uma "conversa lúbrica" que
Ovalle teve com uma "brasileirinha de origem alemã",
"fazendo a inocente masturbar-se". "Libidinoso
que era", prossegue, "vi beijar crucifixo com a
maior unção".
Seria de estranhar uma lembrança assim numa coletânea
de poemas religiosos -não fosse Bandeira o autor, e
"o místico" Ovalle uma grande referência
para os dois pernambucanos. Os poemas libertinos, portanto,
já estavam nas entrelinhas daquela primeira edição.
Em contradição com o argumento da resenha, Villaça
reafirma essa mistura que Freyre identificou, ao dizer que
"a tentativa de separar o que a poesia junta dá
em equívocos". Ora, o que este livro faz é
juntar e não separar. Não só pela conjunção
aditiva "e" no título, está sublinhada
na edição a presença forte dos "acordes
dissonantes", que Villaça analisa com beleza,
e que muitas vezes ressoam no mesmo poema. A graça
é essa: perguntar-se, como faz Villaça, onde
encaixar o "Cântico dos Cânticos", releitura
bandeiriana do grande arquétipo de poema religioso
e sensual.
A Cosac Naify publicou os 50 poemas escolhidos pelo
autor, com um CD que traz a voz "dura, malacostrácea,
antipática" de Bandeira e nos convida a repensar
o modo de ouvir sua poesia; relançou Crônicas
da Província do Brasil (segunda edição
em setenta anos); está reunindo textos inéditos
em livro e prepara uma série de edições
em torno do poeta. Seria espantoso que essa mesma editora
cometesse um equívoco tão simplório,
reduzindo uma obra complexa aos limites de uma antologia.
Trata-se de um recorte, e não da interpretação
cabal de uma obra cujo significado ainda não está
esgotado.
Do ponto de vista comercial, teria sido melhor separar de
fato e lançar duas antologias distintas: uma de poemas
religiosos e outra de poemas libertinos. Seria mais fácil
explicar em que prateleira guardar o livro de Bandeira. Tomamos
o partido oposto, reafirmando o que a poesia já juntava:
a mistura é sempre mais rica, é mais complexa,
não simplifica.
A beatificação de um poeta é ruim para
críticos, editores e leitores; não podemos deixar
de, respeitosamente, flertar com os santos de nossa devoção
com uma piscadela levemente libertina.
*Paulo Werneck é editor de literatura na Cosac Naify
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