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Herman Melville (1870), criador do
personagem Bartleby
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BARTLEBY E COMPANHIA
E O LABIRINTO DO NÃO
Moby Dick, a baleia branca, todos conhecem. Além dela,
o personagem mais famoso concebido pelo escritor Herman Melville
foi o escrivão Bartleby. Mais famoso e mais intrigante.
Em resposta a um anúncio de jornal, ele surge candidatando-se
ao emprego de copista num cartório de Nova York. É
um jovem de "aspecto sossegado", "levemente
arrumado, lamentavelmente respeitável, extremamente
desamparado". Não se sabe nada de seu passado,
ou de sua vida presente. Muito trabalhador de início,
"como se estivesse faminto por algo que copiar",
Bartleby entretanto sucumbe, pouco a pouco, a uma atitude
contemplativa, que aumenta a aura de mistério em torno
de si, e mostra-se capaz de ficar dias e dias em sua mesa
sem fazer absolutamente nada, sem ir a lugar algum, sem mesmo
se alimentar, apenas olhando pela janela defronte, em direção
à empena cega do prédio vizinho. Quando o dono
do cartório insta-o a copiar algum documento, a tomar
alguma providência, sua única resposta é:
"Preferiria não o fazer". Tal paralisia o
envolverá em situações as mais bizarras,
a um só tempo cômicas e angustiantes, até
seu triste fim.
Em Bartleby e companhia, Enrique Vila-Matas, um
dos maiores nomes da atual literatura espanhola, isola a essência
deste personagem - uma "pulsão negativa ou a atração
pelo nada" -, e a partir dela constitui o que chama de
Síndrome de Bartleby. Ele então rastreia sua
"companhia", isto é, uma galeria de criadores
que "[...] mesmo tendo consciência literária
muito exigente (ou talvez precisamente por isso), nunca chegam
a escrever; ou então escrevam um ou dois livros e depois
renunciem à escrita; ou, ainda, após retomarem
sem problemas uma obra em andamento, fiquem, um dia, literalmente
paralisados para sempre".
Como o próprio narrador é vítima da
síndrome, ele a dribla não compondo um romance
tradicional, mas sim notas a um texto inexistente. Por isso
a narrativa é fragmentada, sendo cada fragmento numerado
e dedicado a um dos integrantes da hilariante galeria de bartlebys,
a um estudo de caso, pode-se dizer, numa estrutura ao mesmo
tempo ágil, clara e experimental.
O Mal, o labirinto do Não (outros nomes para o mesmo
fenômeno), manifesta-se de diferentes formas nos escritores.
Há o que escreve seus poemas e, terminando-os, enrola
o manuscrito, acende o isqueiro e fuma a própria obra.
Outro é um paranóico, que julga ter suas grandes
idéias para romances sempre roubadas pelo escritor
José Saramago, e assim acaba nunca escrevendo nada.
Um terceiro, ao enviuvar, renega os próprios livros,
alegando que: "Minha melhor obra é o arrependimento
por minha obra". Outros ainda, por julgarem impossível
uma arte superior, renunciam a qualquer atividade criativa.
Quase como os que consideram o mundo inapreensível
através das palavras, dizendo: "Quem afirma a
literatura em si não afirma nada. Quem a procura, procura
apenas aquilo que lhe escapa". Por fim, há aqueles
para quem, sendo a arte um instrumento de ligação
entre os homens, e uma vez escolhido o isolamento individual,
recusada essa ligação, "nem a linguagem
nem a arte conservam sua expressão".
Mas não é preciso ser escritor para se identificar
com os "sóis negros" da literatura, os escritores
do Não. Bartleby e companhia é um livro
de muitas histórias de vida, contadas de forma breve
e simples, com o tom irônico e inteligente que caracteriza
Vila-Matas. Rindo da angústia criativa, ele desfila
uma simpática erudição que reúne
episódios relativos a nomes consagrados e outros envolvendo
escritores completamente desconhecidos, quando não
inventados. Não faz diferença conhecê-los
ou não, pois, afinal, todos estão ligados a
uma lei comum: "Aqui acabam as palavras, aqui finda o
mundo que conheço...".
SAIBA
MAIS SOBRE VILA-MATAS
O AUTOR NA COSAC NAIFY:
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