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Belvedere, 2007, ilustração de Luiz Zerbini para a capa do livro

CHACAL PLURAL
por Sérgio Cohn

Chacal é uma daquelas raras pessoas que, se não existissem, a cultura brasileira contemporânea seria outra. Seja como poeta ou agitador, por ele passaram algumas das principais manifestações culturais do Brasil dos últimos 35 anos: a poesia marginal, o teatro de besteirol e o rock brasileiro da década de 1980, por exemplo. E muitos outros hão de passar.

Quando estreou, em 1971, aos vinte anos de idade, com um pequeno livro de apenas cem exemplares mimeografados, Muito prazer, Ricardo, Chacal alterou todo o cenário da poesia brasileira, retomando o deboche e o lirismo ágil de Oswald de Andrade, atualizados com a cultura pop da época. Seus poemas, alegres e altamente inventivos, sintetizavam o espírito daquele início de década, quando a revolução estética da Tropicália começava a ser levada para uma nova geração, ainda mais livre e irreverente. Eram poemas curtos, bem-humorados, que impressionavam pela incrível capacidade de Chacal de jogar com as palavras: “RÁPIDO E RASTEIRO: vai ter uma festa/ que eu vou dançar/ até o sapato pedir para parar// aí eu paro/ tiro o sapato/ e danço o resto da vida”.

Com Muito prazer, Chacal se tornou um pioneiro da chamada geração mimeógrafo, que tirou a poesia das estantes das livrarias para cair no mundo. Distribuindo o livro de mãos em mãos em lugares como a praia de Ipanema (mais precisamente as Dunas da Gal, o ponto de reunião da contracultura carioca) e os teatros do Leblon, Chacal foi descoberto por nomes como Waly Salomão, Torquato Neto e Hélio Oiticica, que o reconheceram como um renovador da linguagem poética, ao resgatar a vertente mais radical de nosso modernismo.

E Chacal continuou inovando. Depois de mais dois livros, O preço da passagem (1972) e América (1975), e uma viagem para Londres, se uniu ao grupo Nuvem Cigana, formado pelos poetas Bernardo Vilhena, Charles Peixoto, Guilherme Mandaro e Ronaldo Santos, para realizar de maneira sistemática, pela primeira vez no Brasil, a poesia moderna falada. Através das Artimanhas, os eventos do grupo que reuniam poesia, teatro e música, a Nuvem Cigana retirou a poesia da solidão do papel para torná-la uma manifestação pública. Para usar a feliz expressão de Chacal, com as Artimanhas o Brasil descobriu “a palavra propriamente dita”.

Ouça o poema
"Sete provas e nenhum crise"

Leia quatro poemas
de Belvedere

Ouça entrevista com o autor na rádio Trip FM

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R$ 55
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Chacal visou, em toda a sua trajetória, a revitalização da voz poética como comunicação pública. Depois da dissolução do grupo, em 1980, exerceu a palavra poética em teatro, como co-autor de “Aquela coisa toda”, a peça do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone; em música, compondo para grupos como Blitz e Barão Vermelho; na televisão; em crônicas de jornal e na produção de eventos, como o CEP 20.000, o mais influente evento de poesia do Brasil, que ele organiza desde 1990. Mas sempre foi a poesia em si que realmente o interessou.

Agora, com a publicação de Belvedere, edição de sua obra completa produzida entre 1971 e 2007, que acaba de sair pela coleção Ás de Colete, uma parceria entre as editoras Cosac Naify e 7 Letras, podemos finalmente ter um olhar amplo sobre a poesia de Chacal, e perceber como ela permanece viva e atual. Não apenas a de seus primeiros livros, mas também as produções mais recentes, que trazem um claro amadurecimento do autor. É só ler poemas como “Sete provas e nenhum crime” ou “Como era bom”, para ver que Chacal soube também se recriar, não ficando preso à própria imagem.

Para completar o volume, um presente para o leitor: a publicação de uma edição fac-símile do belíssimo livro Quampérios, editado originalmente em 1977 e considerado por muitos como a melhor obra de Chacal. O livro, inteiramente ilustrado por Dionísio, companheiro de Nuvem Cigana, encanta pela sua beleza e pelo sabor do texto, que acompanha em prosa e poesia as aventuras de Quampérios Nepomuceno, um anti-herói no melhor estilo de Oswald de Andrade. Imperdível.

[ Autor convidado da FLIP 2007 ]
[ Vencedor do Prêmio APCA 2007 – Melhor livro de poesia ]

SAIBA MAIS SOBRE CHACAL

COLEÇÃO ÀS DE COLETE:
Lero-lero [1967-1985], Cacaso
Antologia, Adília Lopes
Sete pragas depois, Antonio Cisneros
A rosa das línguas, Michel Deguy
Poemas [1968-2000], Francisco Alvim
Poesia reunida [1969-1996], Orides Fontela (Prêmio APCA 2006)

 

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