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| Ilustração de Eduardo Verderame |
O CABARET INSÓLITO DE VERONICA STIGGER
por Michel Laub
“Domingo, 25 de
janeiro, 15 horas: Domitila está passeando de automóvel
com o namorado. Ela abre o vidro da janela pela metade e estica
a cabeça para fora”. Assim começa o primeiro
conto de Gran cabaret demenzial, novo livro da escritora
gaúcha Veronica Stigger, que logo acrescenta a essa
aparente normalidade uma série de fatos grotescos:
a personagem perde dois dedos ao batê-los num poste,
quebra o antebraço num segundo acidente, perde o braço
ao tentar dar um tapa numa árvore e acaba o dia em
casa, usando uma gilete para fazer “cortes profundos
em torno dos mamilos”.
Por trás da tragédia, porém,
há um inconfundível tom farsesco. Domitila vai
à sorveteria entre um acidente e outro, assim como
as demais criaturas do livro não se desviam de suas
rotas mesmo que tudo ao redor esteja desmoronando. Em “Cubículo”,
um casal mantém sua preocupação com o
espaço para os livros ao se mudar progressivamente
de um apartamento para um banheiro, do banheiro para uma privada
e da privada para o intestino de seu anfitrião; em
“Marta e o Minhocão”, uma família
tenta conviver na nova casa com um ser cuja mania era “se
enfiar de supetão no cu de quem ousasse lhe dirigir
uma palavra”; em “Argumentum Chronologicum”,
os habitantes de um pequeno país no pacífico
adaptam seu dia-a-dia a um novo e infernal método de
medição do tempo.
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“Tanto o meu primeiro
quanto o meu segundo livro foram escritos paralelamente
às pesquisas para minha tese de doutorado, na
qual estudei a relação entre arte, mito
e rito na modernidade”, explica Veronica. “As
atitudes dos personagens correspondem muitas vezes às
lógicas imprevisíveis dos mitos ou parecem
seguir as regras de um ritual que, no entanto, permanece
desconhecido para os leitores e mesmo para mim”.
Assim, se os contos até podem ser lidos sob uma
chave sociológica ou moral – como metáforas
nonsense de uma sociedade burocrática e cruel
– seu resultado transcende amplamente tais categorias.
Em histórias como a da mulher engolida por uma
escada rolante ou a da guerra que uma família
branca trava contra uma família negra numa festa
de casamento, tem-se um registro caótico, múltiplo,
inusitado. Adjetivos que, não à toa, aplicam-se
ao tipo de manifestação artística
que inspirou Veronica: “Reconheço no livro
a atmosfera de algumas manifestações da
chamada vanguarda histórica européia,
especialmente as soirées dadaístas. A
própria ordenação do livro no formato
de um ‘cabaret’ mostra que ele deve muito
a esses espetáculos”.
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Ao aspecto formal, a autora acrescenta uma temática
que gira em torno de obsessões: em “Sheila e
Miguelão”, um dos protagonistas é uma
privada; em “Olívia Palito”, os habitantes
“cabeçudos” de uma cidadezinha se enfiam
dentro de moças “compridonas”. Para Veronica,
o ânus “é um elemento-chave desses contos,
mas não um elemento estável e estabilizador”.
Numa fala que, como seus textos, esconde a ironia por baixo
da aparente solenidade, ela completa: “é um elemento
dialético, na medida em que nele disposições
contrárias são apresentadas numa tensão
que não se resolve. Nos contos, ele é tanto
um ponto de saída, quanto de entrada; ele pode ser
um instrumento de agressividade, mas também um local
de sociabilidade, um canal de prazer como de dor. Vejo nele
o humano reduzido a algumas de suas funções
mais elementares. Em alguma medida, toda a civilização
depende de esquecermos que ‘entre fezes e urina nascemos’
(como diz Santo Agostinho)”
Transposta em termos estéticos, a idéia resulta
numa literatura peculiar no atual panorama brasileiro. Se
a comédia que contrapõe a neutralidade da voz
e o absurdo do discurso tem certa tradição no
país – basta pensar em parte da obra de Luis
Fernando Verissimo –, o impacto dos contos de Veronica
Stigger renova a inventividade possível em temas tão
explorados como sexo, perversão e violência.
Diante deste cabaré insólito, nas palavras do
crítico e professor João Adolfo Hansen, que
assina a orelha do livro, só resta ao leitor rir “suavemente
triturado”.
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A AUTORA
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