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Foto de Herbert
Matter |
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| Alexander Calder, em 1936. |
CALDER NO BRASIL
por Paulo Venancio Filho
Calder sambava. Pois é, poucos, muito poucos sabem
da longa relação do maior escultor moderno americano
com o Brasil. Agora, toda a peripécia brasileira de
Calder está disponível em detalhes no livro
Calder no Brasil.
Possivelmente, o Brasil foi, depois da França, o país
com o qual o artista mais esteve próximo ao longo da
vida. Foi uma relação de mais de três
décadas. Calder não foi um visitante acidental
ou circunstancial: quis vir ao Brasil. Pode-se dizer que a
convivência de Calder se deu dentro do espírito
da informalidade e cordialidade brasileiras. Aqui esteve em
três ocasiões, em 1948, 1959 e 1960; aqui expôs
não uma só, mas várias vezes.
Também aqui tinha
grandes amigos. Quando retornou aos Estados Unidos ficaram
famosas as samba parties que dava na sua casa-ateliê
em Roxbury. Na sua autobigrafia publicada em 1966, Calder,
an autobiography with picures, os nomes vão
aparecendo: Henrique Mindlin, [Lucio] Costa, [Jorge]
Moreira, [Oscar] Niemeyer, Getúlio [Vargas],
[Mário] Pedrosa, Lota Macedo Soares, Henrique
Lage, [Assis] Chateubriand, Rino Levi, Heitor dos Prazeres,
entre outros.
Aqui no Brasil, Calder incorporou a figa às
jóias que criava; conheceu os instrumentos musicais
brasileiros, matracas, chocalhos e tamborins, que mais
tarde refez a sua maneira; viu a arquitetura moderna
brasileira que surgia naquele momento; deixou-se cativar
pelo ritmo do samba: “O samba que eles tocam aqui
me conquistou completamente.” É, portanto,
um significativo capítulo da vida do artista
e da vida artística brasileira que Calder
no Brasil vem revelar.
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Alexander Calder ou Sandy, para os amigos, nasceu em 1898
num então subúrbio da Filadélfia e morreu
em 1976 em Nova York. Veio ao Brasil em 1948, 1959 e 1960.
Estava então um pouco além da metade da sua
vida e era já um artista consagrado na Europa e nos
Estados Unidos. Ao contrário de muitos, suas estadias
nada tiveram das tradicionais visitas oficiais, nem daquela
permanência fortuita do estrangeiro desconhecido. Calder
já era o famoso inventor daquele tipo de escultura
inédita que obrigou Marcel Duchamp a criar um nome
que desde então permanece como a marca de seu trabalho:
móbile. Nome semântica e sonoramente
perfeito para aquelas estruturas de arame, de placas de ferro
pintadas suspensas, desprendida dos atributos tradicionais
da escultura como peso, massa e volume; leves e flutuantes,
oscilando levemente ao sabor do toque ou do vento, que logo
se tornaria um dos clássicos da arte do século
XX.

Tela sem título conhecida como
Composição com fundo amarelo e vermelho,
c. 1946
Não é por acaso que a obra de Calder tenha
chegado aqui no momento que chegou. Não há coincidência
também, existe uma afinidade intrínseca no espírito
otimista da obra de Calder e a vida brasileira da época.
Calder veio pela primeira vez em 1948 para expor no MEC, então
recém-inaugurado, o primeiro prédio moderno
das Américas, e em São Paulo no MASP. Se os
pilotis, a fachada envidraçada, o terraço-jardim,
do projeto do MEC, pretendiam dissolver a massa do edifício,
deixá-lo transparente e livre ao nível do solo,
então nada mais adequado que a companhia das esculturas
suspensas e aéreas de Calder.
A primeira presença da obra do escultor no Brasil
foi em 1939, num Salão de Maio em São Paulo.
Culpa, muito provável, suspeita-se, de Flávio
de Carvalho, um dos promotores da mostra. Presença
não circunstancial como mostra um texto anônimo,
mas esclarecido, publicado por ocasião do Salão,
que avisa logo de quem se trata o escultor norte-americano:
“o genial Alexander Calder, um dos maiores arquitetos
yankees e que se notabilizou por ter sido o criador da chamada
‘escultura móvel”. Portanto, o público
paulista, teve contato com a obra de Calder antes da grande
exposição retrospectiva que se realizou no Museu
de Arte Moderna de Nova York em 1943 - o mais jovem artista
até então a ter uma retrospectiva no MoMA.
Esta exposição teve o sucesso popular de um
filme de Walt Disney. Pois afinal não há em
Calder também algo da alegria ingênua e simples,
casta e sensual, do humor saudável dos filmes de Disney?
Fala-se, com razão, no sentido democrático da
obra de Calder; obra que atrai a todos sem distinção
de idade, sexo ou classe social. Nisso ela encontrou tanto
admiradores como detratores. Foi na retrospectiva do MoMA
que um de seus grandes admiradores, o maior deles entre os
brasileiros, Mário Pedrosa, teve “uma revelação”.
E daí surgiu seu primeiro – o primeiro de muitos
– ensaio sobre o artista: “Calder, escultor de
cataventos”. Logo depois, em 1944, os dois se conheceriam
e estabeleceriam uma amizade que duraria até a morte
de Calder em 1976.
É claro que sendo o que era, abstrata, aparentemente
fácil e imediata, tal obra não poderia agradar
a um Portinari e Di Cavalcanti, que dominavam as artes plásticas
brasileiras de então. Para muitos a simplicidade bem
humorada da obra de Calder era acusada de “empulhação”
, como disse Portinari. Sem saber, Calder veio cair no meio
da nossa provinciana e acirrada discussão entre realismo
e abstração que dividia os artistas brasileiros
da época. Daí se compreende o interesse especial
que Calder despertou nos arquitetos modernos brasileiros –
afastados dessa ociosa polêmica – pela inventividade
plástica e espacial de suas esculturas, de tal modo
que chegou a discutir com Niemeyer a possibilidade de uma
escultura para Brasília, infelizmente nunca realizada.
Os textos reunidos em Calder no Brasil mostram a
amplitude de todos os que foram tocados pela obra do escultor:
de Carlos Drummond de Andrade a Pietro Maria Bardi, de Fernando
Sabino a Sergio Milliet, de Rubem Braga a Henrique Mindlin
e Ferreira Gullar. Mas acima de todos estes está a
presença atenta, de mais de três décadas,
de Mário Pedrosa – o primeiro ensaio sobre o
escultor data de 1944, o último de 1975. Possivelmente
nenhum outro crítico de arte escreveu mais sobre Calder
do que Pedrosa. Por aí, percebe-se então que
a vivência brasileira de Calder não foi pouca
e superficial.
Calder no Brasil é um documento excepcional,
cuidadosamente organizado por Roberta Saraiva, que incluiu
todos os ensaios de Mario Pedrosa dedicados ao artista, os
textos de seus vários amigos e admiradores brasileiros,
amplamente ilustrado com fotografias da época e ainda
com os trechos da autobiografia de Calder dedicados ao Brasil.
É um livro que vai surpreender àqueles que desconheciam
este capítulo da vida e obra desse grande artista moderno
e de um momento decisivo da modernidade brasileira a qual
ele se entregou jovialmente a ponto de afirmar: “Sinto-me
vinte anos mais jovem desde que cheguei aqui.”
LEIA TRECHOS DO LIVRO CALDER NO BRASIL
"Um móbile: uma pequena festa local, um objeto
definido por seu movimento e que não existe fora deste,
uma flor que murcha tão logo se detém, um puro
jogo de movimento como há puros jogos de luz. Por vezes,
Calder se diverte imitando uma nova forma: ele me presenteou
com uma ave-do-paraíso com asas de ferro; basta um
pouco de ar quente que a toque de leve ao escapar pela janela:
a ave se estica tilintando, se pavoneia, balança a
cabeça encristada, joga e oscila, e depois, subitamente,
como se obedecesse a um sinal invisível, gira lentamente
sobre si mesma, de asas bem abertas. Mas, na maior parte do
tempo, Calder não imita nada, e não conheço
arte menos mentirosa que a sua. A escultura sugere o movimento,
a pintura sugere a profundidade ou a luz. Calder não
sugere nada: captura verdadeiros movimentos vivos e lhes dá
forma. Seus móbiles não significam nada, não
remetem a nada além de si mesmos: eles são,
e isso é tudo; são absolutos."
Jean-Paul Sartre em Os móbiles de Calder
"Em ninguém mais que em Calder, e nisso talvez
tenha sido o mais fiel dos construtivistas, a linha divisória
entre a criação artística e o desenho
industrial é menos marcada. Sua arte não tem
inibição alguma em recorrer aos princípios
da engenharia e do desenho industrial. Surripia, sem a menor
cerimônia, não só os materiais mas até
os instrumentos e os processos da mecânica para exprimir-se.
E ele lança mão de rodas, engrenagens, alavancas,
hastes, êmbolos, chapas de metal, vidro, arame, com
perfeita desenvoltura. Ninguém já fez uso dessas
aquisições, no domínio das artes plásticas,
com mais espontaneidade, viço e imaginação
do que ele. E sem o menor vestígio de intencionalismo
doutrinário ou preocupação de escola.
Por isso mesmo, seu ateliê já não é
um ateliê, mas uma oficina conjunta de ferreiro, marceneiro,
fiandeiro, mecânico, serralheiro, soldador, o diabo."
Mario Pedrosa em A máquina, Léger, Calder
e outros
" A arte de Calder, na aparência tão
simples (dir-se-iam brinquedos de criança) é,
na realidade, a mais ambiciosa possível. Partindo da
abstração e suas especulações
estéticas, ele procura chegar a uma modalidade de expressão
artística, emancipada do plano liso da pintura e do
jogo de volumes da escultura, embora tirando a cada uma dessas
artes elementos que lhes são substanciais. Ora, não
parece possível ao espírito conceber uma forma
nova que não caiba dentro das formas imemoriais, classificadas
pelos sentidos antes de o serem pela inteligência. Resulta
daí que o esforço da criação se
frustra, na própria insolubilidade do problema. E o
pintor que há em Calder, como o escultor que há
nele, se demitem em proveito de um terceiro artista que não
pode existir, porque disporia de outro aparelhamento que não
o humano. "
Carlos Drummond de Andrade em Ver e contar exposições
"Sim, essas coisas de Calder parecem pássaros,
quem sabe são capazes de comer alpiste, talvez num
sábado de tarde, se a amada de olhos de luz nos visitar,
quem sabe, cantem ˜ acredito que possam cantar como estranhos
canários. Também falei em brinquedos, e mantenho:
Calder faz brinquedos que produzem alegria. Isso não
quer dizer que não sejam coisas sérias; são
coisas sérias, e, se vocês quiserem chamar de
escultura, chamem; hoje em dia qualquer folha entortada de
lata é escultura, que dirá Calder. Ah, esses
silenciosos instrumentos de música de Alexander Ragtime
Band Calder, que destilam a melodia dos espaços, cheios
de graça e de uma preguiçosa poesia..."
Rubem Braga em Calder
TÍTULOS DA PARCERIA COSAC NAIFY/
PINACOTECA DO ESTADO
Ir
até aqui – gravuras e fotografias de Marco Buti,
Alberto Martins (org.);
Notas
de viagem - Thomaz Farkas, Rubens Fernandes Junior
e outros;
A
vulnerabilidade do ser - Claudia Andujar, Alvaro
Machado e outros.
PRÓXIMO LANÇAMENTO
Paulo Pasta – pinturas, Tadeu Chiarelli (org.)
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