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Foto: Valdir Cruz

Quedas do Iguaçu I, Foz do Iguaçu (PR), 2002

MEMÓRIA DAS ÁGUAS BRASILEIRAS
Por Juan Esteves*

Um registro poético e exuberante das quedas d'água do rio Paraná

Valdir Cruz é um desses casos raros de pessoas que carregam em seu interior uma força de missionário em busca da preservação da ordem natural, dentro de nossa cultura. O caminho das águas, alentado livro publicado pela Cosac Naify, com patrocínio da Fundação Stickel, é o resultado do preciso registro fotográfico sobre as águas no estado do Paraná, terra natal do autor, num esforço incomum do fotógrafo sobre um tema com o qual trabalha há mais de uma década. Cruz percorreu o estado de ponta a ponta e fotografou cerca de 120 quedas d'água, utilizando quase oitocentas chapas de filme fotográfico de formato 4 x 5 polegadas (10 x 12 cm).

Leia entrevista com Valdir Cruz

Veja galeria de imagens selecionadas pelo próprio fotógrafo


R$ 99
Veja detalhes do livro

Não bastasse trabalhar com um pesado equipamento fotográfico, uma câmera Wista, de grande formato, as imagens foram registradas apenas durante o amanhecer e o entardecer. "Um trabalho de paciência mesmo!" reconhece o autor, que chegou aos locais num Jeep 1963, e quando não podia usá-lo, fazia longas caminhadas, escalava montanhas, ou mesmo montava no lombo de um cavalo.

Um resumo desse empreendimento que simplifica a compreensão da empreitada é dado pelo ensaio de James Enyeart, que foi fundador e diretor do Anne and John Marion Center for Photographic Arts da Universidade de Santa Fé, no Novo México, e também dirigiu a famosa The George Eastman House, dois importantes centros da fotografia mundiais. Ele diz que "a notável visão artística de Cruz torna o público consciente das coisas que conectam a natureza à sua espécie pródiga, a humanidade". Já para o artista plástico baiano Emanoel Araújo, que escreve um poético prefácio, Cruz é "um criador encantado com a natureza da sua terra".

Valdir Cruz faz parte de uma importante linhagem de fotógrafos que, assim como suas temáticas, estão desaparecendo. Não é exagero notar, em sua vasta obra, paralelos com a de Carleton Watkins, Marc Ferrez, Ansel Adams, reconhecidos representantes do gênero. O uso do formato grande os aproxima ainda mais. Basta olhar o trabalho do nova-iorquino Watkins no Yosemite Valley, na Califórnia do século XIX, que encontraria sincronismo com seu contemporâneo brasileiro Marc Ferrez e suas imagens das cascatas de Petrópolis e da Floresta da Tijuca. Cem anos depois, o californiano Ansel Adams voltaria a Yosemite, para a consagração definitiva da fotografia de paisagem.

Curiosamente, Ferrez também fotografou quedas d'água, próximas de Curitiba, datadas de 1884, neste mesmo caminho trilhado por Valdir Cruz, mais de cem anos depois. Foram aproximadamente 120 quedas, registradas em duas chapas para cada ângulo fotografado, da nascente até as famosas quedas do Iguaçu, uma das mais conhecidas do mundo. O rio Iguaçu, afluente do rio Paraná, é o maior do estado do Paraná, com mais de mil quilômetros. Ele deságua no município que recebeu o nome de Foz do Iguaçu.

Há duas características neste monumental trabalho: a da paisagem que provoca êxtase instantâneo, através de poéticas imagens, e aquela que alerta para o conservacionismo tão necessário. Por exemplo, uma das quedas retratadas por Cruz, o Salto Vaca Branca, fotografada em 1994, já não existe mais. E pelo andar do progresso insensato, muitas outras correm o mesmo risco.

Contudo, além da realidade ameaçada que o trabalho desvela, suas imagens tratam de algo mais que um sinal de alerta. A sensibilidade do gravador, pintor e escultor Emanoel Araújo traduz este amplo sentimento: "a quase invenção de uma paisagem metafísica, às vezes abstrata, que nos impulsiona a entrar na misteriosa e fluida representação dessas águas, no seu eterno movimento, como lágrimas caudalosas da natureza."

A consciência ecológica que se somou ao desejo estético do fotógrafo tomou forma no final dos anos 1990, quando a idéia do projeto foi criada. Mas a afinidade vem desde a infância de Valdir Cruz, vivida em Guarapuava, sua cidade natal. Um de seus primeiros projetos fotográficos foi registrar o povo do município e, dentro desse "paisagismo", as águas estavam mais que presentes e foram incorporadas ao longo dos anos. Outra peça fundamental veio após o trabalho com os Yanomami, quando o fotógrafo confessa ter aumentado a sua consciência sobre a devastação sofrida pelos índios e pela natureza brasileira.

Como poucos autores, o fotógrafo também determina a exatidão de seu conteúdo fotográfico de maneira bastante autoral. O uso de vários filtros, para diminuir a velocidade do obturador da câmera, criou efeitos de movimento no correr das águas, dando uma plasticidade incomum ao gênero. A este trabalho técnico primoroso se somou o acabamento de suas cópias, executado pelo próprio autor em seu laboratório de Nova York, cidade onde vive há 25 anos.

*Juan Esteves é fotógrafo e crítico de fotografia, colaborador das revistas Fotografe melhor e Fotosite, e colunista do site www.fotosite.com.br. É autor dos livros 55 Portraits, São Paulo en mouvement ( Presença-Presence).


SOBRE A EDIÇÃO

Um libelo ecológico contundente e poético sobre as quedas d'água, O caminho das águas traz imagens belíssimas que tiveram tratamento gráfico especial para sua publicação. Um detalhe raro em edições brasileiras foi trazer dos Estados Unidos um técnico em escaneamento e tratamento de imagens, que, além de da pré-produção nos Estados Unidos, veio ao Brasil e acompanhou a impressão na gráfica. Robert Hennessey é uma das maiores autoridades no assunto. Livros primorosos, como os dos mestres Alfred Stieglitz e Richard Avedon, tiveram o cuidado de Hennessey, que também trabalha para museus como o MoMA, de Nova York e a National Gallery of Art, de Washington, entre outros.


SAIBA MAIS SOBRE VALDIR CRUZ


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