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Sem título, 1996. "Nas obras de Célia Euvaldo, o acaso salta à vista", segundo Tassinari

CÉLIA EUVALDO: SILÊNCIO E EXPRESSÃO
por Sérgio Sister*

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O livro Célia Euvaldo traz imagens representativas do percurso dessa importante artista brasileira, com textos de Alberto Tassinari e Marco Silveira Mello, que se aprofundam no esclarecimento da obra da pintora.

A marca registrada de Célia Euvaldo é sua pincelada em tinta negra, executada em movimentos horizontais, de um lado para outro, repetindo-se até o traço ficar mais claro e falho. O movimento, então, reinicia-se, do escuro para o claro, do claro para o escuro, mudando o lado inicial e espessura da pincelada, diluindo a cor até que ela vire cinza, quase branco. Sua produção mais atual mostra uma pintura quase invisível, que trava um combate entre o silêncio e a expressão, em telas brancas, sem títulos.

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Célia Euvaldo
R$ 79,00
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do livro


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"A arte não é a vida e a dimensão estética não se confunde com a dimensão ética", escreve o crítico Alberto Tassinari no ensaio de abertura do livro. "Se há algum critério para ajuizar a separação de ética e estética, ele deve relacionar-se com a conquista problemática, mas nem por isso inexistente, mais cara à arte moderna: sua autonomia".

O crítico tem um posicionamento muito claro em favor de uma autonomia relativa da arte. No sentido de produções que falem por elas mesmas, com sua materialidade, sem apelo necessário a uma narrativa explícita. O que bate de frente com parte substancial de produções artísticas atuais, que procuram se vincular direta e quase estritamente ao cotidiano da vida com foco em narrativas, explicitação de idéias e, muitas vezes, uso intensivo de imagens fotográficas. Essa posição não implica necessariamente a defesa do formalismo, que virou palavra feia em uma parte da crítica de arte contemporânea. Defendê-la, prossegue ele, não é defender o formalismo, mas defender uma coerência mínima para o pensamento.

O fato de que produções como a de Célia Euvaldo não se refiram diretamente "à vida", não significa absolutamente que sejam isentas de significados e que não projetem "a vida". É bastante interessante como Tassinari e Mello, em seus textos, ao descrever a materialidade ou a formalização da artista, muito sutilmente, sem gritos interpretativos, tateiam significados que o olhar pressente. O olho percebe, por exemplo, o quanto a artista deixou que o acaso entrasse em sua obra. Entrega parte da inventividade à própria obra, que não deixa de ser uma maneira de reconhecer que há no mundo muito mais do que a sua pessoa e a sua subjetividade.

Há o outro, lembra Alberto Tassinari: "O convívio com o diverso, com o outro, a alteridade que aceitaríamos, é tantas vezes entre nós uma ideologia que mascara violências. Não é menos, entretanto, o modo como também nos concebemos melhores. E não há nada como a arte para indicar a vida que não é, mas, como diz o verso, a que poderia ter sido. Quem sabe vir a ser".


NA PRIMEIRA PESSOA

Da vida, a própria Célia Euvaldo conta, a partir de São José dos Campos (SP), aonde a família chegou, em 1958, na onda da nascente indústria automobilística. Segue passo a passo até a sua mais recente produção - as telas brancas, expostas na Bienal do Mercosul e na Pinacoteca Paulista. Brancas, sem títulos, narrativas ou idéias explícitas, nas quais o crítico José Bento Ferreira identificou espaços onde tudo é possível, inclusive uma pintura indefinível e quase invisível, um combate entre o silêncio e a expressão, que tem nos gestos o seu testemunho "suaves e sutis como passos de dança".

Na primeira pessoa, Célia fala do despertar de seu olhar com Toulouse-Lautrec em uma coleção de livros de pintura; das aulas de arte com uma amiga da família; das viagens semanais a São Paulo, aos 16 anos, para aulas de desenho. Diz que tangenciou a arquitetura, mas se formou em comunicação visual e licenciatura em artes plásticas na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro. De 1982 a 1986, ficou em Paris, cidade que fez toda a diferença, porque foi lá que viu as obras de Carl Andre e Dan Flavin, dois minimalistas norte-americanos que deram os primeiros toques para a sua poética.

Célia Euvaldo realizou suas instalações com néon, primeiro na França e, depois, no Brasil. Quatro tubos de luz, de três metros de comprimento cada, suspensos horizontalmente no espaço, formando uma espécie de "X", em Paris. Duas longas horizontais correndo em paralelo, na altura do olho, em São Paulo. Dos croquis dessas instalações - do desenho da luz e de suas irregularidades nasceriam seus trabalhos em papel, atenta Marco Mello, no ensaio "O que está aqui e que antes não podia estar". Em um trabalho de 1988, nanquim sobre papel, ela pincela três traços paralelos, orgânicos, que começam mais espessos, afinam-se, voltam a se engrossar para, em seguida, perder volume.

Daí por diante, uma coisa vai saindo da outra; uma sucessão de desdobramentos, quase sempre com a mesma marca: apenas rastros, pretos ou brancos, arranjados de um modo simples no papel ou na tela, conforme resume Alberto Tassinari em seu texto "O primado da obra".

Durante boa parte desse trajeto, os rastros de Célia Euvaldo tiveram um procedimento básico: com um pincel chato embebido em tinta negra, ela faz um movimento horizontal de um lado para outro do papel, repete-o numa segunda linha, ou também numa terceira, numa quarta e numa quinta. À medida que o líquido vai se esgotando e o traço fica mais claro e falho, Célia volta a "alimentar" o pincel com tinta e continua o movimento, no trânsito do escuro para o claro, do claro para o escuro. Fez centenas de desenhos com centenas de variações, mudando o lado inicial do movimento, a espessura da pincelada, a intensidade do negro muitas vezes, aguando a tinta até que ela vire cinza, quase branco.

Numa jornada frenética de experimentação, no final dos anos 1980, Célia acrescentou ao trabalho três genes fundamentais para a sua produção futura. Numa dessas, em lugar das horizontais, ela traçou um círculo. Da mesma forma, começando com o pincel bem nutrido para chegar seco ao término da rotação. É possível ver nessa "mutação" um dos indícios mais importantes - ainda que não o único de uma grande fase, irrompida quatro anos mais tarde, que ela chama informalmente de "Sinuosos". Em papéis e telas de maior formato, ela passou a deslizar o pincel em movimentos mais longos, sinuosos e sensuais formando quase figuras, que lembram galhos de árvores, alguma corporeidade humana ou mesmo bichos.

"A isso não podemos mais chamar de pinceladas", ponderou à época o crítico Paulo Venancio Filho. "O desenho corresponde a um todo de um gesto só e de um mesmo e único movimento, inteiro e quebrado (...) É preciso acompanhá-lo aonde ele quer ir e não", completou.

Também numa dessas experimentações, em 1991, em movimentos horizontais, com pincéis bem largos embebidos fartamente em látex preto, ela inverteu os termos do seu desenho: o branco da tela ou do papel passou a ser o resto, o que sobrou da ação pictórica, aonde a cor preta não chegou. Esse achado seria a base para as grandes telas negras do final da década 1990 sobre as quais Célia Euvaldo aplicava, com uma vassoura, grossas camadas de óleo, para depois extrair diferenças, brilhos e opacidades mediante deslocamentos das massas com um rodo. Uma potência de luz, segundo o crítico Lorenzo Mammì, obtida não por uma mistura especial de materiais, ou pela disposição das estrias deixadas pela vassoura e das superfícies lisas abertas pelo rodo, mas pelo tempo muito lento de leitura que o trabalho passou a exigir.

Foi ainda em 1991 que ela pintou com látex branco para provocar reações físicas no papel de seda. O branco voltaria em 2005, mas agora com os mesmos procedimentos das telas negras.

*Sérgio Sister é jornalista e artista plástico.

NA COSAC NAIFY
Manual da ciência popular, de Waltercio Caldas
Rodrigo Andrade, de Alberto Tassinari e Taísa Palhares

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