 |
Acervo Museo Histórico Nacional de Chile |
 |
| Retrato do presidente José Manuel
Balmaceda |
NABUCO E SUA AGUDA NARRATIVA SOBRE
OS DESAFIOS DA GOVERNABILIDADE
Por Celso Lafer*
Balmaceda é uma relevante obra da análise
política de Joaquim Nabuco, em boa hora reeditada com
apuro e cuidado pela Cosac Naify. São muitos os ângulos
a partir dos quais a relevância de Balmaceda pode ser
avaliada. No meu entender a obra transcende os embates da
época não só pela qualidade da escrita
de Nabuco,- que o diferencia dos seus contemporâneos,
inclusive os mais eminentes como Eduardo Prado, Rui Barbosa
e Rio Branco,- como também pela substantiva atualidade
dos seus comentários e da sua exegese política.
Menciono, assim, a sugestividade do que ele diz sobre o suicídio
de Balmaceda como ato político e da construção
de um legado, tema que para nós tem significado próprio
em função do suicídio, em 1954, no bojo
de uma grande crise política, do presidente Getúlio
Vargas.
Nesta breve nota quero destacar dois pontos: a antecipatória
e aguda narrativa que fez Nabuco dos desafios da governabilidade
na nossa região e a importância por ele atribuída
à América do Sul, para a condução
da política externa brasileira.
Fragmentação do sistema partidário,
dificuldades na formação de uma maioria parlamentar,
tentações populistas do Executivo, estruturas
oligárquicas do poder, militarismo, o hiato entre
pensamento e ação são facetas da presidência
Balmaceda que Nabuco examina ao tecer a narrativa de uma
grande crise política. São temas recorrentes
e atuais do desafio de levar adiante, num contexto democrático,
políticas públicas, como apontou Fernando
Henrique Cardoso no prefácio à edição
chilena de 2000 de Balmaceda. É por isso
que cabe reler o que disse Nabuco sobre os problemas da
governabilidade democrática e relembrar o critério
por ele sugerido para avaliar chefes de Estado sul-americanos.
"Para julgá-los é preciso comparar o
estado em que receberam o país e o estado em que
o deixaram, o inventário nacional quando entram e
quando saem" (pág. 212).
Nabuco também aponta que, com o 15 de novembro de
1889, o Brasil começou a efetivamente fazer parte
de um sistema político mais vasto pois deixou de
ser, com a derrocada da Monarquia, o institucionalmente
diferente na região - um Império unitário
em meio a múltiplas Repúblicas. Por isso "o
observador brasileiro, para ter idéia exata da direção
que levamos, é obrigado a estudar a marcha do Continente,
a auscultar o murmúrio, a pulsação
continental" (pág. 218). Neste auscultar da
América Latina destaca um "estado permanente
de desgoverno" e a falta de "consciência
do Direito, da Liberdade e da Lei" (pág. 219).
É um registro sobre "nuestra América"
que não perdeu atualidade e é relevante na
identificação do interesse nacional, no contexto
diplomático da nossa fundamental inserção
regional.
* Celso Lafer
é jurista, Doutor em Ciência Política,
membro da Academia Brasileira
de Letras e Doutor honoris causa pelas Universidades
de Buenos Aires
e de Cordoba. Foi ministro do Desenvolvimento, Indústria
e Comércio (1992) e das Relações Exteriores
(2001-2002)
COLEÇÃO PROSA DO OBSERVATÓRIO NA COSAC
NAIFY
A
invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares
O
cavalo perdido e outras histórias, Felisberto
Hernández
Só
para fumantes, Julio Ramón Ribeyro
|
 |