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Acervo Cinemateca Brasileira |
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Décio de Almeida
Prado, Paulo Afonso Mesquita Sampaio, F. Coaracy e Paulo Emílio |
INÉDITO DE PAULO EMÍLIO SALES
GOMES
Iniciada com Três
mulheres de três PPPês, a reedição
da obra completa de Paulo Emílio Sales Gomes prossegue pela
Cosac Naify com a publicação do inédito
Cemitério, livro que une ficção à
memória política e estava em elaboração
quando foi interrompido pela morte do autor. Passados trinta anos,
o caderno manuscrito foi reencontrado e, após cuidadoso estabelecimento
textual por Carlos Augusto Calil, organizador da coleção,
vem à luz acompanhado de Destinos, peça teatral
de juventude, escrita e encenada durante a prisão de Paulo
Emílio na esteira da repressão ao levante comunista
de 1935.
Cemitério é um livro dentro
de um livro. Nos anos de chumbo do pós-1964, o funcionário
faz-tudo de uma editora medíocre inadvertidamente indica
para publicação um original assinado por um certo
J. de Costas. Uma vez na praça, o livro provoca a reação
ofendida da sociedade paulista tradicional, que vê como objeto
de crítica algumas de suas mais caras personalidades políticas.
Sob pressão, o narrador busca justificar-se com um senso
instintivo dos interesses das classes populares mobilizadas pela
Era Vargas. Tem a palavra um modo próprio de experiência
da vida política brasileira, raras vezes formulado. No entanto,
esse ponto-de-vista também acolhe outras vozes e, a certa
altura, o próprio Paulo Emílio Sales Gomes toma as
rédeas da narrativa e conta sua vivência dos episódios
em torno da chamada Batalha da Praça da Sé (1934),
onde confrontaram-se a esquerda, os integralistas e a polícia,
e em que tombou morto Décio Pinto de Oliveira, amigo que
iniciara o autor na militância política.
Tão diferente na forma e no tom em relação
a Três mulheres de três PPPês,
Cemitério parece indicar que o autor tinha
um plano de obra em que, a cada livro, a matéria do
melhor romance realista é explorada em minúcia.
Se os narradores de Três mulheres, em linha
com a tradição machadiana, podem ser vistos
como atualizações de Brás Cubas e Bentinho,
expondo o rídículo dos interesses da classe
dominante sobretudo paulista, Cemitério traz
ao primeiro plano uma voz situada no andar de baixo –
o narrador é um baiano migrante de Feira de Santana
– inarticulada e hesitante mas desejosa de se exprimir,
como a de tantos populares brasileiros. Paulo Emílio
deixava bem claro de que lado estava: “É procurando
que o povo vai existindo e quando existir mesmo não
haverá precisão de procura”.
Embora guardando estreita relação através
da matéria de que tratam, entre os textos de Cemitério
e Destinos é nítido o trabalho do tempo,
com a vivência oposicionista de duas ditaduras, o amadurecimento
intelectual e o que Paulo Emílio chamava “a revelação
crucial do século – o apocalipse stalinista –
que ferreteou tantas gerações [...] de uma forma
que a mesquinharia conservadora nunca compreenderá”.
O conjunto forma uma unidade problemática verdadeiramente
moderna, tensionada entre o esquematismo do teatro político
que respondia à conjuntura dos anos 1930 e as dúvidas
que dão o tom do manuscrito esboçado quarenta
anos depois, vividas sob novo regime de exceção.
A clareza dos anos de militância juvenil, num contexto
de crise do capitalismo e ascensão do regime soviético,
cede lugar à meditação angustiada de
um socialista democrático, agora às voltas com
a reafirmação da hegemonia capitalista na América
Latina sob a roupagem de ditaduras militares.
A edição traz fotografias de época; o texto
“Paulo Emílio na prisão”, recordações
de Décio de Almeida Prado que são também uma
fina análise do teatro político; “Notas de apoio”
a partir de pesquisa do historiador Dainis Karepovs, que auxiliam
o leitor a se situar entre personagens históricas ou quase
anônimas; e posfácio de Carlos Augusto Calil.
SAIBA
MAIS SOBRE PAULO EMÍLIO
O AUTOR NA COSAC NAIFY:
Três
mulheres de três PPPês
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