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A ETERNA MARCA DE CHANEL
Por Eleni Kronka*
A Cosac Naify lança no Brasil a mais importante biografia
de Chanel, ícone da moda do século XX.
A sofisticada edição vem com mais de quatrocentas
ilustrações que percorrem toda a trajetória
da grande criadora francesa.
O mundo de Chanel é imenso e inesgotável.
Com talento indiscutível, temperamento forte e incrível
capacidade de ver a moda muito além de seus próprios
muros, ela já suscitou o interesse de vários
pesquisadores - eles todos, admiradores de suas criações
- a refletir e escrever sobre seu trabalho. A escritora francesa
Edmonde Charles-Roux lança-se nesta empreitada, percorrendo
cada fato importante da vida da compatriota Gabrielle Chanel,
nascida num pequeno vilarejo e que revolucionou o pensamento
de moda de sua época, deixando marcas no que hoje se
cria e se usa.
Nascida em Saumur, em 19 de agosto de 1883, Chanel conseguiu
ver além de seu tempo e de seu próprio universo.
Não fosse assim, os muitos reveses de sua vida - desde
a origem muito simples até os insucessos no amor -
teriam aplacado todo seu talento e potencial. O primeiro capítulo,
"Coco, a cortesã", trata de sua infância
vivida como orfã em um colégio de disciplina
severa e adolescência cujo tom não fora diferente.
Só aos vinte anos, ao mudar-se para Moulins para trabalhar
como vendedora numa loja, conheceu certa independência...
e seus primeiros admiradores. Entre eles, Étienne Balsan,
jovem de boa condição de vida e seu primeiro
grande amor.
Inquieta, Gabrielle Chanel tentou o êxito nos palcos
do La Rotonde de Moulins. Como seu repertório era composto
apenas por duas canções - Ko-o-Ri-Ko
e Qui qu'a vu Coco -, o público, formado por
militares dotados na guarnição local, prontamente
lhe conferiu o apelido que a acompanhou sempre, Coco.
Na verdade, tudo na vida da criadora contribuiu para a formação
de sua proposta de criação. Isto se dava até
mesmo nas performances amadoras, feitas entre os amigos -
intelectuais, artistas ou esportistas -, cujo "figurino"
era de responsabilidade dela. Vestida de jovem pajem, por
exemplo, escolhia para si roupas masculinas, o que a inspiraria
no futuro. Poderia, ainda, estar plenamente à vontade
vestida de amazona ou ir ao hipódromo envergando camisa
com gola branca, gravata e chapéu canotier emprestados
de seus amigos.
No segundo capítulo, é Gabrielle Chanel que
entra em cena, com sua personalidade de criadora. Neste cenário,
faz sucesso entre os aristocratas Charles Worth, Jacques Doucet,
Jean Patou e Paul Poiret. Ela, conhecida como chapeleira,
faz experimentações utilizando o tricô
e o jérsei para criar blusas e casacos inspirados em
trajes de pescadores normandos. Roupas de marinheiros também
a inspiram na década de 1910. Para as mulheres que
entravam totalmente vestidas para os banhos de mar, ela idealizou
o - elegante e discreto - maiô.
O capítulo também se refere às fases
russa e inglesa de Chanel, que tiveram como protagonistas
dois amores: o grão-duque Dimitri Pavlovitch e o britânico
duque de Westminster. A cada um destes períodos, atribuem-se
coleções com explícitas referências
a ambas culturas. No curto período de 1923 a 1924,
a Rússia é a sua fonte de inspiração,
com bordados em ponto corrente que adornam túnicas
e casacos. Não faltam casacos de pele, apresentados
na boutique Chanel de Deauville por manequins russas,
habituadas com este tipo de roupa. De 1926 a 1931, porém,
a inspiração é inglesa, com a presença
de jaquetas, suéteres e boinas, porém com a
presença dos colares de pérola com muitas voltas.
O tweed torna-se matéria-prima recorrente nas criações.
O teatro, tão admirado por Chanel, foi também
palco para suas criações, como os figurinos
dos espetáculos Orphée e Les Chevaliers
de la table ronde, ambos de Jean Cocteau; o balé
Apollon musagète, ou ainda a peça Le
Train bleu. Nos anos 1930, Hollywood a convida, através
de Sam Goldwyn, a criar figurinos para o cinema. A idéia
é fazer com que o público feminino, que ia ao
cinema para ver os filmes e suas estrelas, pudesse contemplar
também a última moda.
A terceira e última parte do livro traz um retrato
de Mademoiselle Chanel, numa abordagem do que o autor
chama de "Os belos anos". Na maturidade, Chanel
está também no auge do seu poder criador e de
sua beleza. Ela já tinha inventado e reinventado a
moda esportiva, tinha lançado o vestido preto que conferia
elegância marcante à mulher, e trabalhado o tailleur
a partir de elementos do guarda-roupa masculino, conferindo-lhe
a devida dose de feminilidade. Agora, nos anos 1930, encantava
os olhares com seus vestidos de soirée de
inspiração cigana. Mas este ciclo criativo,
de grande êxito, é abruptamente interrompido
pela guerra.
O período do conflito é marcado pelo exílio
da criadora na Suíça. O retorno a Paris, em
1953, não é fácil: seu nome não
está mais na berlinda e a imprensa não a apóia.
Mas Chanel, com seu gênio indomável, recupera
seu posto, não na primeira coleção, que
recebe duras críticas na França e na Inglaterra.
O marco da reconquista é a segunda coleção,
consagrada nos Estados Unidos. E Mademoiselle, que
já chega aos 71 anos, reina novamente na moda, até
os seus 88 anos.
Vale a pena percorrer com o olhar sobre a rica coleção
de fotos e ilustrações do livro, bem como as
páginas reservadas às "máximas"
de Chanel. Fazem pensar, assentir ou sorrir... Nesta obra
biográfica, cuja narrativa muitas vezes invade os domínios
do romance, Edmonde Charles-Roux traz elementos-chave para
que o leitor, leigo ou familiarizado com as peculiaridades
da moda, possa descobrir por si mesmo as razões que
fazem com que Chanel seja um dos pilares do pensamento e da
criação da moda a partir do século XX.
* Eleni Kronka é professora
da Universidade Anhembi Morumbi
e editora-chefe do jornal World Fashion
SAIBA MAIS SOBRE A BIÓGRAFA EDMONDE CHARLES-ROUX
NA COSAC NAIFY:
Coleção
Moda brasileira, em cinco volumes
Coleção
Universo da moda, em 17 volumes
Dener
- o luxo, de Dener Pamplona Abreu
Moda
do século, de François Baudot
Alexandre
Herchcovitch, de Dawn Ades e Lilian Pacce
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