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Foto: Tamara Grigorowitschs |
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| Leopoldo Waizbort, professor da USP e
autor de A passagem do três ao um |
FAORO, SCHWARZ E CANDIDO CONECTADOS
POR AUERBACH
Leopoldo Waizbort, autor de A passagem do três ao
um, fala sobre como a obra do filólogo alemão
está nas profundezas de três dos maiores críticos
brasileiros
Entrevista para Livia Deorsola
Uma extensa e complexa abordagem multidisciplinar - preciosa
nas vertentes da crítica literária, da sociologia
e da filologia, aqui unificadas - sobre os ecos do filólogo
alemão Erich Auerbach em estudos literários
da obra de Machado de Assis é o desafio empreendido
por Leopoldo Waizbort no livro A passagem do três
ao um.
Para tanto, o autor parte de dois estudos-chave sobre o romancista
e contista brasileiro - A pirâmide e o trapézio,
de Raymundo Faoro (1974) e Ao vencedor as batatas
e Um mestre na periferia do capitalismo, de Roberto
Schwarz (1977 e 90) - e faz um recorte sobre o realismo machadiano,
em suas dimensões histórica e literária.
Eis o "pretexto", ou "armação",
como afirma o autor, para se chegar a uma rica abordagem da
obra de Antonio Candido, pensador que exerceu influencia fundamental
da segunda metade do século
XX até os dias de hoje, no Brasil.
Na entrevista a seguir, Leopoldo Waizbort, professor do Departamento
de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Sociais da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) apresenta
os principais pontos de seu livro e nos esclarece como percorreu
o caminho até alcançar outros movimentos para
além de uma síntese dialética.
Já no título, um diálogo com
Candido
"Há várias dimensões e direções
que procurei sintetizar no título. A primeira, e mais
evidente, está indicada pelo subtítulo: crítica
literária, sociologia e filologia, em vez de serem
pensadas como três coisas distintas e separáveis,
são concebidas como uma única e mesma coisa.
E por isso o três passa a ser um.
A passagem do três ao um dissolve o três em uma
única coisa, cujo nome seria preciso inventar. Dissolução
não é na verdade um bom termo. Nada se perde,
tudo permanece em suspensão, isto é, permanece
ali, presente e atuante. A pretensão do livro é
expor essa passagem, apontando para alguma outra coisa que
estaria um pouco mais adiante, por assim dizer.
As outras dimensões são sugeridas para os leitores.
Um importante texto de Antonio Candido intitulava-se 'A passagem
do dois ao três', e ali o autor realizava uma crítica
do binarismo estruturalista em favor de uma síntese
dialética. Tomando isso como pressuposto, meu estudo
procura avançar ainda um pouquinho, a fim de passar
da síntese para uma outra forma (que não sei
dizer se é dialética ou não; isso é
deixado para o leitor), que não somente sintetiza a
tese e a antítese, mas que engendra um outro movimento.
"
Movimento multidimensional
"Também esse movimento transcorre em várias
dimensões. Vou dar a pista de duas delas. Bem, ao final
da primeira parte do livro, fala-se que a vida da dialética
depende da unificação de antagonismos. Com isso,
estamos no âmbito da leitura proposta pela 'Passagem
do dois ao três'. Mas, e se não ocorrer unificação?
E se tese e antítese permanecerem em suspensão,
provocando-se mútua e constantemente, sem chegar a
síntese alguma?
É isso o que pretende a primeira parte do livro. Nela
há uma contraposição de duas leituras
muito poderosas da obra de Machado de Assis, por Raymundo
Faoro e Roberto Schwarz. Mas não almejo síntese
alguma, pois isso, no final das contas, significaria aparar
as arestas e pontas das análises desses grandes intérpretes,
e é precisamente nessas arestas e pontas que essas
interpretações são grandiosas. Então
deixamos as duas interpretações brilharem e
olhamos para o que elas nos fornecem e iluminam. Dentre outras
coisas, elas fornecem um ponto de partida excelente para abordar
e compreender a obra de Antonio Candido, e é isso que
pretende a segunda parte do livro."
A introdução ao problema e o ponto aglutinador
"O objetivo da primeira parte do livro é armar
um problema e um enquadramento de discussão que possibilite
chegar com força e com sentido a uma abordagem da obra
de Antonio Candido. Uma possibilidade de leitura seria dizer
que passamos do dois ao três assim: de Faoro e Schwarz
para Candido. Mas isso é somente uma possibilidade,
pois estaríamos no registro tese-antítese-síntese,
que o livro não quer negar e do qual ele não
abdica, mas quer avançar.
Sobre a segunda dimensão que mencionei acima, veja
a epígrafe do livro, uma passagem de Marcel Proust.
O narrador diz que se interessa em descobrir pontos de aproximação,
cruzamento e coincidência entre seres e coisas, mas
esses pontos não se revelam à primeira vista.
São descobertas que ele faz e que o aprisionam. Ele
sai à procura desses pontos comuns e acaba nos dizendo
que eles não estão na superfície, mas
'um pouco mais recuados', 'em certa profundidade'.
Segui essa mesma lição. Ou melhor, fui tomado
pela mesma paixão, ou desafio. Lendo Faoro, Schwarz
e Candido percebi que havia algo em uma certa profundidade
que permitia descobrir relações entre eles e
para além deles, e resolvi explorar isso. O centro
aglutinador que se apresentou a mim foi Erich Auerbach."
Auerbach onipresente
"O filólogo alemão [autor de Mimesis,
editora Perspectiva, 1994] está presente em todos os
autores que estudo, mas não na superfície: está
'em zona um pouco mais recuada'. A partir disso, fica fácil
compreender o livro e o meu argumento: trata-se simplesmente
de indicar essa zona e explorá-la um pouco.
O Extraprograma [terceira parte do livro] tenta dar algumas
pistas. Ele procura mostrar, depois de ter passado o tempo
todo falando do Auerbach presente nos críticos brasileiros,
como os problemas se apresentavam para esse romanista alemão.
Nesse sentido, quis sugerir que a filologia de Auerbach, que
já era a seu tempo uma crítica da filologia,
pode nos oferecer possibilidades de desenvolvimento que respondem
aos grandes desafios da crítica do século XX,
tal como formuladas pelos críticos brasileiros e pelas
diversas tradições que eles souberam incorporar
criticamente e levar adiante."
Realismo histórico e realismo literário
"Evidentemente, o desafio que mais me interessa e que
me parece também mais interessar a todos esses críticos
é o da relação complexa que se estabelece
entre obra de arte literária e mundo concreto no qual
os homens vivem, ou entre forma literária e processo
social, para falar no jargão. E o conceito de realismo
foi o principal cavalo de batalha dessa discussão no
século XX. Isso explica
um pouco a direção da argumentação
em meu livro.
Embora a idéia de realismo se configure como o fio
condutor, note que procurei montar as coisas de modo mais
matizado. Por exemplo, a idéia de realismo é
bastante complexa, e essa complexidade pode ser aferida em
todos os críticos que discuto. Acompanhar as variações
dessa idéia, seja em seu conteúdo, seja na formação
desse conceito, não é algo simples, sobretudo
quando se trata de autores poderosos como os que discuto.
É importante ressaltar que o livro não é
um estudo sobre Machado, mas sobre três de seus intérpretes.
Eles destacaram a importância do escritor e, interpretando-o,
desenvolveram vertentes ricas de seus trabalhos e da crítica
e sociologia brasileira e mundial. Nesse sentido, tornaram-se
um foco privilegiado para tentar demonstrar a passagem do
três ao um."
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