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Pedro David, João Castilho e Pedro Motta, que registraram inundação no Jequitinhonha

A LÍRICA DE UMA PAISAGEM EM REVOLUÇÃO

Os fotógrafos mineiros João Castilho, Pedro David e Pedro Motta falam sobre as fotografias reunidas em Paisagem submersa, lançado pela Cosac Naify

Uma surpreendente linguagem poética no registro de um fato concreto, lançada por três jovens fotógrafos, é o primeiro impacto causado pelo livro Paisagem submersa. O trabalho coletivo reúne fotografias dos mineiros João Castilho, Pedro David e Pedro Motta, que foram em busca de um particular retrato das comunidades ribeirinhas que tiveram suas vidas modificadas com a inundação de sete municípios do nordeste de Minas Gerais, na região do Vale do Jequitinhonha, para a formação do lago da Usina Hidrelétrica de Irapé. No centro desta transformação, estão os atingidos, a quem o livro é dedicado.

A original apresentação gráfica do livro, assinada pela diretora de arte da Cosac Naify, Elaine Ramos, é outra surpresa: feita a partir de um revestimento especial chamado Reactives, a capa é impressa por hot-stamping sem tinta. Como resultado, o mapa hídrico do Jequitinhonha é marcado apenas pelo calor do processo. Tintas especiais foscas foram desenvolvidas pela Premiata apenas para este trabalho, e foram utilizadas ainda duas qualidades de tinta preta, uma para os fundos de página, outra para os tons no interior das reproduções fotográficas. O trabalho de impressão ficou a cargo da gráfica Ipsis.

A obra recebeu apoio da Lei de Incentivo à Cultura, do Governo de Minas Gerais e das empresas CEMIG, V&M do Brasil, V&M Artes, USIMINAS, Loja Elétrica.

Entrevista para ALVARO MACHADO

Leia texto sobre o livro

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Paisagem submersa
R$ 70
Veja detalhes
do livro


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Qual o foco principal das imagens alinhavadas no livro, ou seja, a direção em que o conjunto aponta, tanto estetica como conceitualmente?
Certa vez o Chuck Samuels, diretor artístico do Mois de la Photo em Montreal, se referiu a este trabalho como um "documentário imaginário". Imediatamente passamos a nos referir ao trabalho desta forma; achamos que essa definição se aproxima bem do que é o nosso foco nesse projeto.

Existiu alguma intenção de narrativa para o livro ou foram pensados núcleos temáticos na diagramação final?
Sim, o livro foi editado a partir da cronologia da história daquela região e da vida das pessoas, que foi se modificando. No início, a abordagem é sobre o cotidiano, a dúvida sobre como seria a mudança. Depois nos detivemos no desmanche de casas, nas mudanças, nas terras novas, no lago e na vida que se construía nas terras novas.

Para as exposições de fotos desse projeto foram seguidos outros padrões, houve novas curadorias?
Todas as exposições até hoje foram pensadas e editadas por nos três. Cada uma é um exercício de edição diferente, onde elementos como espaço, público e verba são levados em consideração. Todas são diferentes entre si e há sempre uma nova perspectiva, ou seja, imagens e relações diferentes entre elas. Isso está reforçado no fato de que fazemos exposições deste trabalho desde o seu início - começamos a fotografar em julho de 2002, e já em julho de 2003 fizemos a primeira instalação, na cidade de Diamantina [MG].

Por que escolheram a Cosac Naify para a finalização e distribuição do livro?
Gostamos muito de várias publicações da Cosac Naify. E temos em comum com a editora a preocupação com a apresentação do trabalho, tanto na escolha refinada de materiais quanto no design e na impressão.

Vemos livros da editora por toda a parte, queríamos que o nosso livro tivesse uma boa distribuição.

O que pensam do papel do design no produto final do livro?
Damos imensa importância a tudo isso, e todos estes itens têm sido elaborados e discutidos desde o inicio do projeto.

Nessa série de foto, reconhecem algum apadrinhamento ou influência de algum artista brasileiro ou estrangeiro?
Temos diversas influências estéticas; tantas que não mencionaríamos nenhuma específica. Cultivamos uma admiração muito grande pelo trabalho, pela pessoa e pela postura do Eustáquio Neves [fotógrafo mineiro que resgata aspectos de identidade cultural e social de grupos sociais específicos], que acompanha de perto esse trabalho desde o início, e já deu conselhos, indicações e idéias.

Os créditos das fotos estão "misturados" na seqüência de páginas, não há blocos específicos de cada um de vocês três. Foi uma intenção provocar certa indivisibilidade de autoria ou há características diversas nos trabalhos dos três, e que poderiam ser indicadas?
Não há intenção de indivisibilidade, tanto que há uma lista de fotos de cada autor no final do livro. Quem quiser saber a autoria de cada fotografia pode consultar esta lista.
Nossa intenção ao não creditar explicitamente as fotografias é criar uma única história, contada por três autores independentes. Interessa-nos este diálogo.

Há características diversas no trabalho de nós três, da mesma forma que há no tipo de filme, no tipo de câmera, de enquadramento, até mesmo na abordagem do assunto, dos personagens e outros aspectos. Resolvemos desde o início do projeto, em 2002, encarar esta combinação da diversidade como um desafio. E assim tem sido.

Por que mesclaram fotos em p&b com outra em cores, o que não é muito usual para uma exposição com tema único ou para um livro?
Esta decisão deve-se às preferências estéticas contidas no trabalho fotográfico de cada um de nós.

No livro não existe vetor sociológico, ou mesmo um histórico dessa documentação, apesar das circunstâncias abordadas serem material para no mínimo uma boa reportagem social, e tampouco há textos neste livro. Qual a razão dessa opção?
Decidimos acreditar que a imagem fotográfica pode criar uma escritura própria. Que através de características exclusivas desse suporte, um discurso pode ser construído.
Todos nós temos relações com o jornalismo, e com a arte. Aqui partimos de um fato histórico para a construção de uma narrativa pessoal e subjetiva.

Matérias jornalísticas sobre a barragem, como a da Folha de S. Paulo (caderno Brasil) e da revista Ocas, foram ilustradas com fotos de vocês? Como se deu isso?
No casa da Ocas, houve uma parceria entre a revista e o grupo, bem no começo do projeto. No caso da Folha de S. Paulo, houve falha na negociação, pensávamos que seria feita uma matéria sobre o projeto, quando estavam na verdade usando fotografias de nossa autoria para ilustrar uma matéria sobre o reassentamento. Esse não é um trabalho que serve como ilustração de texto nenhum. Ele é o próprio texto, no sentido barthesiano.

O site www.paisagemsubmersa.com.br teve os mesmos patrocinadores do livro? O que há de diferente nesse site e que pode complementar a informação do livro?
Um dos patrocinadores, a Loja Elétrica, patrocinou o site; a Cemig está desde o começo, foi o maior patrocinador, incentivou todas as etapas. A V&M do Brasil e a Usiminas firmaram a parceria na época na etapa de edição do livro.
O site foi editado e publicado no primeiro semestre de 2005. Nele há um mapa, que mostra a localização da barragem no mundo.
Depois de sua publicação, realizamos ainda várias viagens para a região, muita coisa aconteceu, dentre elas o enchimento do lago.

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