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Valdir Cruz, pelas lentes de Juan
Esteves
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UM ITINERÁRIO PESSOAL ENTRE TEMPO E
MOVIMENTO
Entrevista para Alvaro Machado
O segundo livro de Valdir Cruz em parceria com a Cosac Naify
muda inteiramente o foco e o formato em relação
a seu primeiro trabalho publicado na editora, Faces
da floresta: os Yanomami (2004).
O caminho das águas reúne 47 fotos,
com áreas de impressão de até 58,5 cm
por 29,5 cm, e materializa um projeto visionário do
fotógrafo em torno dos mananciais de sua região
natal, no estado de Paraná, com epicentro na cidade
de Guarapuava, onde nasceu.
Leia a seguir entrevista em que o artista fala sobre esse
trabalho e a edição do livro, além de
comentar projetos em andamento.
Por que esse título, que sugere um itinerário?
Quando comecei a fotografar o paisagismo de Guarapuava, minha
cidade natal, no Paraná, as águas estavam sempre
presentes. Depois, para além da cidade, trabalhei em
todo o estado e os cursos d'água continuaram a aparecer.
Esse projeto sempre foi algo muito pessoal, que eu fazia quando
sobrava tempo e alguma grana. Por isso, as primeiras imagens
são de 1994 e depois fui produzindo ao longo de dez
anos, as últimas já são de 2004.
O livro chama-se O caminho das águas porque
eu tinha um sonho de criar um caminho turístico por
essas cachoeiras e cataratas, algo que eu acreditava que o
próprio governo do estado poderia, e deveria, fazer.
Um roteiro inserido no chamado "turismo ecológico",
sustentável?
Isso mesmo, um roteiro sobre a região que se situa
sobre o chamado Aqüífero Guarani [grande reservatório
de águas no subsolo do Cone Sul]. E o nome do livro
ficou assim porque esse é, de fato, um caminho muito
lindo. Se você sair de Curitiba em direção
a Iguaçu poderá contemplar dezenas de quedas
d'água importantes.
Uma paisagem que 99% dos brasileiros desconhecem...
Todos conhecem apenas Foz do Iguaçu e suas famosas
cataratas. Mas eu queria que as pessoas que saíssem
de Curitiba não fossem direto a Iguaçu, pois
no caminho há muita coisa digna de se ver...
Você acha que o livro poderá ajudar
na implantação de alguma política nesse
sentido?
Durante o atual governo do Paraná, duvido. Mas caso
um dia assuma um governo mais positivo, que entenda esse potencial,
não será difícil realizar algum projeto
nesse sentido. O livro pode funcionar, então, como
uma "arma", porque ninguém jamais enxergou
o potencial da região. Eu tenho essa questão
política já antiga com os governos do Paraná,
que se transformou numa coisa até mesmo ridícula...
Veja, esse é meu terceiro projeto em torno de assuntos
do estado e, no entanto, nunca tive qualquer apoio governamental.
Não exponho lá desde 1991. Mas nada impede que
eu faça meu trabalho e o divulgue em outros cantos.
Há uma preocupação internacional,
hoje, com a situação das águas no planeta
e maus prognósticos em relação à
Bacia do Paraná.
Sim, mas não fui fotografar isso, essa não era
a minha proposta. Em todo caso, é muito interessante
documentar também esse aspecto.
Você tem alguma militância política
nessa área?
Estou trabalhando bastante sobre esse tema atualmente. Estou
documentando todas as bacias hidrográficas brasileiras
e em breve percorrerei o rio São Francisco, da nascente
até a desembocadura.
Como contextualizar as imagens desse novo livro na
história da fotografia?
Temos, no livro, um prefácio do artista e curador Emanoel
Araújo, além de um texto maravilhoso de James
Enyeart - ele é o fundador e diretor do Anne and John
Marion Center for Photographic Arts da Universidade de Santa
Fé, no Novo México, mas também dirigiu
a famosa The George Eastman House, dois importantes centros
mundias de fotografia. Em seu texto, James situa as imagens
das águas dentro da tradição do paisagismo
em fotografia - e ele sempre escreveu muito bem sobre o paisagismo.
Quando eu o conheci, ele dava uma palestra sobre a fotografia
dividida por décadas, e fiquei fascinado durante aquela
uma hora e quarenta minutos. É, para mim, um gênio,
pela maneira como escreve e como fala...
A que fatores você atribui a inédita
qualidade de impressão das fotos em preto-e-branco
de O caminho das águas?
Além das 64 horas passadas sobre as rotativas da gráfica
Ipsis, em São Paulo, supervisionando as quatro camadas
de impressão (preto, duas cores especiais em pantone
e verniz), atribuo em grande medida a qualidade das reproduções
e impressões ao carinho de Bob Hennessey, um técnico
em escaneamento e tratamento de imagens, que, além
de cuidar das imagens nos Estados Unidos, veio ao Brasil acompanhar
a impressão. Esse é o quarto livro que fazemos
juntos e ele me acompanha desde o meu primeiro livro, um documento
sobre a Catedral de Curitiba realizado entre os anos de 1991
e 1993, numa edição que eu mesmo produzi. Bob
é engenheiro de off-set. Também fomos
duas vezes à Itália para obter as melhores chapas
de impressão.
A Itália é o grande país da
produção de chapas gravadas para impressão
gráfica...
Sim, eles são como verdadeiros artistas nesse setor.
Além da primeira edição de Faces
da floresta: os Yanomami, eu e Bob fizemos lá
as chapas para o livro da catedral, O caminho das águas
e ainda para um outro livro, este impresso na China, sobre
o Carnaval baiano. Todos foram supervisionados por ele.
Esse livro impresso na China já foi distribuído?
Esse livro foi patrocinado por minha galeria em Nova York,
a Throckmorton Fine Art, e eles ficaram com grande parte dos
exemplares.
O livro é sobre o Carnaval...
Registra o Carnaval de Salvador ao longo de dez anos. É
um documento único, sobre o povo propriamente, com
a maioria das fotos noturnas, porém com muito movimento,
é diferente de tudo o que se vê sobre a festa,
e é em preto-e-branco. Enfim, um Carnaval completamente
diferente. Se eu não falasse que se trata do Carnaval,
vocês não identificariam. Fizemos também
uma grande exposição, que rendeu grandes matérias
na imprensa internacional.
Essas fotos têm parentesco com o trabalho desenvolvido
por Arthur Omar no livro Antropologia
da face gloriosa (Cosac Naify, 1998)?
O parentesco não existe. Admiro o trabalho dele, mas
minhas fotos são completamente diversas.
Você fixou residência em Nova York já
há alguns anos. Como tem sido a repercussão
de seu trabalho no exterior e o que espera promover junto
ao livro O Caminho das águas?
Ao longo de dez anos fiz três exposições
com meu galerista norte-americano. Dessas, duas renderam boas
matérias no New York Times. Minha esperança
é que na primeira semana de abril de 2008 inauguremos
a exposição de O caminho das águas
em Nova York. Vamos mostrar cerca de vinte imagens, muito
menos do que há no livro, todas em grandes formatos
(algumas com 1 m x 1,20 m). As cópias serão
gravadas com pigmentos - essa é a primeira vez que
essa galeria mostra reproduções pigmentadas
e em cópias grandes. Não colocaremos vidro sobre
as obras, porque a riqueza dessas imagens, sua textura, deve
ser apreendida sem o vidro. A exposição está
sendo imaginada como uma instalação. Estou pensando
muito na maneira como vamos exibir essas fotografias, com
a maior mobilidade possível...
A exposição de O caminho das águas
acontece apenas no exterior?
Há previsão de haver, ainda em 2008, exposições
em São Paulo, Rio e Brasília, em parceria com
o Centro Cultural do Banco do Brasil, mas as datas ainda não
estão definidas.
Nas fotos do livro, o tempo de exposição
que você utilizou para captar a fluidez do elemento
poderia nos remeter em alguma medida ao trabalho de Ansel
Adams e sua captação da luz?
O texto de James fala sobre essa conexão, e também
com o trabalho de Gustave LeGrey, com esse grupo todo...,
para depois estabelecer uma diferenciação. Trabalhar
com águas e com o tempo não é, de forma
alguma, uma novidade, mas os processos e a consistência
de meu trabalho, sim. Fotografei sempre ao amanhecer, na boca
de noite ou em dias nublados e de chuva. Porque essas condições
me proporcionavam a profundidade de campo desejada. Trabalhei
com câmera de chapas, com tripé e com negativos
de 4 x 5 polegadas. As exposições são
longas, variando de 40 segundos a 4 minutos, dependendo das
condições que encontrava.
Mas ao longo da série existe uma grande unidade
de tonalidades, luz etc.
Sim, isso faz parte do meu estudo, da minha proposta. Quando
fotografei a Catedral de Curitiba, estudei a obra de Walker
Evans, que havia fotografado as grandes catedrais da Europa
com cuidados de cientista. Seu trabalho tratava dos espaços.
Mas, nessa época, comecei a considerar também
o movimento. E assim, tratei tanto de espaço como de
movimento nas imagens dos religiosos de Curitiba em sua catedral.
Fiz muitas fotos fantasmagóricas, com exposições
de quinze ou vinte minutos. O sujeito chega, senta, faz a
sua prece e enquanto isso você capta todo esse movimento.
É um processo com o qual trabalho há tempos.
O livro sobre a Catedral de Curitiba ainda está
em circulação?
Ele praticamente sumiu. Eu fui o próprio editor. Tinha
capa dura revestida com tecido, 120 páginas e foi impresso
na Itália. Foram cinco mil livros, 2.500 em brochura
e o restante em capa dura. Desses, 600 exemplares ficaram
comigo em Nova York. O restante foi para a Cúria de
Curitiba, e, por alguma razão que desconheço,
desapareceu. Eu nunca mais soube dele. Ultimamente, amigos
meus acusam que os exemplares são vendidos em sebos.
A pesquisa acerca do tempo vem já desse período...
As imagens de O caminho... são autênticas
criações, imagens que não podem ser captadas
pelo olho humano. Na verdade, como já disse, tudo começou
com um outro tema fotográfico, ligado à minha
infância e à minha cidade natal. Aliás,
sempre que estou terminando um projeto já trabalho
sobre o boneco de um próximo livro. E, justamente,
meu próximo livro é sobre Guarapuava e sua gente,
origem de O Caminno das águas. Veja que estou
andando com esse boneco desse próximo livro na bolsa...
Vemos que a capa desse projeto, o retrato de uma
garota no campo, é uma fotografia muito reproduzida
na imprensa do mundo inteiro...
É uma cigana, e a fotografia está no acervo
do MoMA [Museu de Arte Moderna de Nova York]. Trata-se de
uma foto de uma série de três, feitas em 1988
e já muito conhecidas.
Essa imagem tem parentesco com várias fotos
já históricas, obras de W. Eugene Smith, Lewis
Hine, com a mulher retratada por Dorothea Lange durante a
Grande Depressão norte-americana...
Minha fotografia procede dessa escola documentária.
Quero reunir as imagens de Guarapuava que faço desde
a minha primeira câmera. Sempre que estou no Brasil,
dou uma fugidinha para o Paraná. Fotografei não
só a cidade, mas toda a região. O paisagismo,
o povo, a agricultura e a pecuária, os tropeiros...
Você e a Claudia Andujar, outra autora publicada
pela Cosac Naify (A
vulnerabilidade do ser, 2005), têm certa confluência
de interesses. As suas fotos dos camponeses do Paraná
nesse projeto [Guarapuava], entre as quais se encontra essa
famosa Gypsy Woman... Claudia começou sua
carreira fazendo fotografias desse gênero, com populações
litorâneas do estado de São Paulo, imigrantes
japoneses no campo etc. Porém há, sobretudo,
os documentos que vocês realizaram sobre a etnia Yanomami
em Roraima (e você também na Venezuela), apesar do caráter quase inteiramente oposto
das imagens de vocês.
Além do que você aponta, temos um outro parentesco.
Eu retorno, sempre que posso, a meu município natal,
porque hoje moro em Nova York, enquanto Claudia voltou recentemente
à cidade húngara onde passou a infância
para fazer, depois de muitos anos, uma pesquisa pessoal, para
"enterrar" seus fantasmas em torno do Holocausto...
Hoje nossa amizade é muito grande. Posso mesmo dizer
que ela foi uma importante fonte de inspiração
para mim. Fui técnico de laboratório e terceirizei
minha mão-de-obra durante muitos anos para poder desenvolver
meu trabalho de autor, para não precisar fazer trabalhos
comerciais e obter, assim, meu sustento. Então, em
1994, fui indicado para fazer as cópias da exposição
da Claudia no FotoFest de Houston (Texas, EUA).
Na época, já não me interessava muito
terceirizar minha mão-de-obra, mas respondi que faria
duas tiragens; uma para ela e outra para a exposição,
além de uma terceira mim, que gostaria que ela assinasse...
Ela não aceitou, ficou muito nervosa. Porém,
quatro dias depois me telefonou para dizer que concordava.
Assim começou nossa amizade e tenho até hoje
comigo essa coleção de fotografias. Alguém
tentou promover uma intriga sobre o caráter muito diverso
de nosso trabalho a respeito dos índios. Mas sei que
ela declarou ter achado meu livro sobre os Yanomami muito
positivo. É maravilhoso ouvir isso de Claudia.
Que outros projetos de livro tem para desenvolver
a partir de seu arquivo fotográfico?
Tenho, também séries sobre outras tribos, ainda
inéditas: os Ingaricós e Macuxis, em Roraima,
etnias do Vale do Jaguari, no Amazonas, na divisa com o Peru,
além de outras etnias do Acre. Em cada uma dessas regiões
passei no mínimo três meses fotografando.
Você conta com patrocínio para esse
trabalho de campo?
Faces da floresta foi patrocinado pela Fundação
Guggenheim. O caminho das águas recebeu patrocínio
da Fundação Stickel e apoio da galeria Throckmorton
Fine Art, porém apenas para fases de edição
do livro. Os outros foram inteiramente sustentados pela "Fundação
Valdir Cruz".
SAIBA MAIS SOBRE VALDIR CRUZ
VEJA TAMBÉM:
Faces
da floresta - Os Yanomami, deValdir Cruz
A
vulnerabilidade do ser: Claudia Andujar, de Laymert
Garcia dos Santos, Diógenes Moura, Claudia Andujar,
Eduardo Brandão e Alvaro Machado
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