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NOTÍCIAS
Foto: Paula de Parma

Enrique Vila-Matas lança o quarto livro no Brasil, pela Cosac Naify

MOLDADO À LITERATURA
Por Livia Deorsola

"Tudo o que acontece comigo é vilamatasiano". A afirmação, feita sem hesitações pelo escritor catalão Enrique Vila-Matas, traduz a precisão com a qual define sua literatura, celebrada em diversos países como original e instigante. No Brasil, a Cosac Naify lança Paris não tem fim, o quarto livro de Vila-Matas publicado pela editora (A viagem vertical, de 2004; Bartleby e companhia e O mal de Montano, ambos de 2005). Nele, o autor relembra seus anos de juventude vividos na capital francesa na década de 1970, quando se esforçava para ser um escritor - e para viver como um, à moda de Ernest Hemingway, que fez de Paris uma festa. Em Paris não tem fim, nota-se, no entanto, o ridículo da tentativa, tratada com fina ironia.

Leia trechos do livro sobre as personalidades literárias que marcaram a vida do protagonista


Paris não tem fim
R$ 45
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Hemingway, aliás ídolo da juventude de Vila-Matas, é referência constante durante seus anos de formação. Marguerite Duras - de quem o pretendente a escritor alugava uma água-furtada -, Georges Perec, Julio Ramón Ribeyro e outras importantes figuras literárias que o autor de fato conheceu também transformam-se em personagens dos embates literários, ou meramente cotidianos. Como fio de que é tecida sua trama, está a mescla entre vida e literatura, fusão que se tornou marca autoral.

Um dos autores mais premiados da atualidade (Rómullo Galegos, 2001; Premio de la crítica e Heralde, 2002; Médicis, 2003), Vila-Matas revela na entrevista a seguir os meandros que percorreu para escrever o livro em que, pela primeira vez, "nenhuma recordação foi inventada".

Em Paris não tem fim o senhor cita J.L. Borges para abordar o tema da memória. A certa altura, Raúl Escari diz ser uma autobiografia "uma ficção entre muitas possíveis". Em sua opinião, qual o lugar da memória nos dias de hoje?
Diferentemente de todos meus outros livros, em Paris não tem fim houve um esforço para que nada fosse inventado. Quis ser fiel ao que realmente aconteceu naqueles dois anos em que vivi em Paris e em que me dediquei a tentar converter-me num escritor. No livro não há nenhuma recordação que seja inventada. Ainda mais: cada uma das seqüências ou fragmentos do livro respondem a uma situação concreta que eu recordava. De fato, dei por terminado o livro no dia em que já não me sobravam mais lembranças de minha temporada em Paris. Se continuasse escrevendo, teria que passar a inventá-las, o que para mim não teria a menor graça. Estava convencido de que minha história real em Paris era interessante - muitas vezes apaixonante, inclusive - e que qualquer coisa que inventasse sobre meu passado poderia estragar tudo.

Além disso, devo dizer que me encontrei no momento de escrever coisas inéditas sobre mim. Por exemplo, compreendi que, tal como era o livro, seria imperdoável que não explicasse de onde procedia meu dinheiro (o dinheiro que me dava meu pai, que vergonha) e quais eram minhas relações amorosas (muito tímidas, outra vergonha). E também me dei conta de que não podia mentir no momento de dizer que livros eu lia: que tinha poucos livros e que era ainda era um leitor muito naif, e que comprava os livros pelo título e pelo que pensava que prometia tal título…

Tanto em Paris não tem fim como em O mal de Montano e Bartleby e companhia, estamos diante de uma prosa despojada, coloquial, mas sustentada por múltiplas referências literárias. Como alcançar um termo de equilíbrio entre esses extremos sem resvalar em pedantismo?
Desde o meu primeiro livro, busquei esse equilíbrio, busquei ser acessível aos leitores por muito estranho que eu fosse como escritor. Embora ainda existam aqueles que me acham pedante, minha experiência nos últimos anos me diz que nos países onde sou conhecido (França, Espanha, Portugal, Itália etc), alcanço um público muito amplo, que já se acostumou com meu estilo. Apesar de a "alta cultura" estar presente em meus livros, os leitores não se sentem desconfortáveis. Totalmente o contrário. Muitos deles me agradecem por tratá-los como seres cultos e inteligentes.

Uma estrutura recorrente em suas narrativas é a forma como o senhor relaciona os fatos do cotidiano e a escrita literária. Aparentes acasos se revestem de significados e dão margem a reflexões literárias. Mesmo nos momentos em que o leitor não espera esta conexão entre o vivido e o literário, ela surpreendentemente acontece. Para se chegar a este resultado, qual é o ponto de partida? A vida ou a literatura?
Vida e literatura vão estreitamente unidas no que faço. Margarita Heredia [mexicana, autora de Vila-Matas portátil, un escritor ante la crítica, Ed. Candaya, 2007] escreveu que "vivo dentro de minhas narrações". Tudo o que acontece comigo é vilamatasiano. Estou dentro de um ônibus, por exemplo, e ao ouvir as pessoas falarem e dizerem coisas que me parecem estranhas, creio que são personagens de meus contos ou romances. Qualquer coisa que leio, que vejo ou que me passa pela cabeça é convertida imediatamente em literatura vilamatasiana.

Por outro lado, derivo de Cervantes, o pioneiro essencial da literatura espanhola. Existe esforço mais cervantino do que minha paixão por confundir vida e literatura?

Em sua prosa, a figura do narrador é determinante e parece se sobrepor à linguagem: ele é o filtro de todas as referências do mundo externo e, quase sempre motivado pela própria literatura, estabelece a escrita como uma obsessão constante. A dinâmica da construção de seus livros parte sempre da figura do narrador?
É muito provável que você tenha se deparado com a chave de funcionamento de minha escrita, que se distingue de todas as demais pelo tipo de peculiaridade, de singularidade do ponto de vista. Tudo está armado com esse ponto de vista, que oferece uma visão da realidade muito pessoal, quase excêntrica, intransferível. As leituras são uma experiência vital que estão no mesmo nível de qualquer outra experiência. E, sim, efetivamente, a figura do narrador é determinante.

Mantendo as proporções, comigo ocorre o que nos pode passar quando lemos Tchekhov ou Kafka, para citar dois exemplos que me vêm à mente. Se o leitor fecha um livro de Kafka e sai a caminhar por seu bairro, as coisas imediatamente se tornam kafkanianas para ele. O mesmo acontece com tantos outros autores. Os rostos dos transeuntes, o vagabundo acompanhado por cachorros, o murmúrio das folhas das árvores, tudo também pode se tornar tchekhoviano quando alguém acaba de ler também este autor, tal é o poder da grande narrativa.

Direi algo mais a respeito disso: estou convencido de que um bom escritor é aquele que leva a extremos tão inauditos a fidelidade consigo mesmo que sua originalidade - inata em todos nós, ainda que nem todo mundo saiba explorá-la - aporta um novo olhar sobre o mundo, que deixa de ser o que até então havia sido para passar a ser o que era, somando-se a isso a original e tão diferente visão que chega pelas mãos do novo escritor.

E quanto à História em sua prosa? Mesmo em Paris não tem fim, que se passa durante os últimos dias do franquismo, são poucas as alusões a fatos históricos ou mesmo uma reflexão mais detalhada sobre o seu auto-exílio. O senhor evita intencionalmente essa abordagem?
Sim, faço-o intencionalmente. No prólogo de um dos meus livros preferidos, Hijos sin hijos [1993] (no qual escrevo uma heterodoxa História da Espanha durante um período de 41 anos), elogio os personagens de minhas histórias: "cidadãos anônimos, fantasmas ambulantes, pessoas pobres e gênios da natação. A História, com maiúscula, seus protagonistas e os acontecimentos solenes têm uma incidência muito oblíqua sobre suas vidas, cheias de dificuldades e incertezas, porque, além de estarem muito ocupados com seus problemas pessoais, também desenvolveram uma espécie de indiferença que permite que não estejam ligados à realidade, a não ser por um fio invisível, como o de uma aranha". Alguns desses personagens são como um amigo meu que, passeando por Paris, anos atrás, ao passar diante de uma banca de jornais, leu que as tropas turcas invasoras do Chipre haviam entrado em Nicósia, a capital. A guerra se aproximava. "Que chatice", disse meu amigo. Tudo era visto por ele como uma ingerência em sua vida... Definitivamente, meus personagens situam, no mesmo plano de importância, a História e sua história pessoal, a vida privada.

Sua volta a Paris, vinte anos depois, significa de alguma maneira um episódio de superação emocional em relação aos episódios experimentados na década de 1970?
Totalmente. Durante anos eu não me atrevi a voltar a Paris. Agora vou à cidade quatro ou cinco vezes por ano, tenho novos amigos, recobrei a Paris que eu havia perdido. E também minha juventude. Foi como afrontar com êxito uma cena do passado, mal resolvida. Foi uma grandíssima idéia ironizar minha juventude. O livro me foi de uma utilidade imensa, porque consegui resolver todo problema de frustração ou de nostalgia. E mais que isso, eu e Paula de Parma [esposa do escritor] sempre planejamos viver em Paris. Quando estamos lá, nos sentimos em casa. Eu, particularmente, tenho a sensação de jamais ter me mudado dessa cidade.

Dentre todas as referências literárias encontradas em Paris não tem fim, autores espanhóis não recebem destaque especial. Há um motivo para isso? Como o senhor se vê dentro do atual panorama da literatura espanhola?
Não acredito nas literaturas nacionais. Além disso, sou de Barcelona, catalão. E Madri fica muito longe: ali operam os cérebros obtusos aos quais encantam o planalto e a literatura realista. Eu vivo junto ao mar. Identifico-me emocionalmente mais com a literatura latino-americana, que, além do mais, considero superior ao nível médio do que se faz na Espanha.

Apesar da declarada admiração e constante referência que faz a Hemingway, há um trecho em que afirma não ser ele mais seu ídolo absoluto. Em que momento de sua vida o autor norte-americano deixou de ser uma referência suprema?
Continuo gostando muito de seus contos e, quando leio algumas linhas de Paris é uma festa, sinto o mesmo que senti na primeira vez que o li: imediatamente quero ser escritor e viver em Paris e, no inverno, colocar bons troncos de lenha na chaminé, baixar pela rue de l´Odeon sempre atravessada pelo vento... Acredito que todos vivemos sempre no passado, que ele está aí, nos lembrando muitas vezes que não se foi.

Assim como Hemingway, Marguerite Duras ocupa um importante espaço em seus anos de formação literária. O senhor vê algum paralelo entre o que significou Duras para a sua literatura e o papel que Gertrude Stein assumiu na trajetória de Hemingway?
Não havia pensado nisso, mas poderia perfeitamente ser assim. Creio que querem fazer um filme sobre minha relação com Duras, quando eu era jovem, e acredito que seria uma bonita história para o cinema. Embora eu deva dizer que o papel que desempenha Stein [na vida de Hemingway] é ocupado, em minha vida, mais pelo escritor mexicano Sergio Pitol [autor de El arte de la fuga, Anagrama, 1996, entre outros], que foi decisivo em minha formação artística.

Ainda que rapidamente, o senhor se interessou em escrever poesia e já considerou haver se perdido dela "para cair na vulgaridade da narração". Atualmente, qual o poder de motivação da poesia (ou de algum poeta especificamente) em sua produção?
Leio muita poesia. Charles Simic, Philip Larkin, Luis Cernuda, John Ashbery... Rimbaud, sempre. A novela do futuro deve estar conectada com a alta poesia, ou não será nada.

Nos anos de juventude, o senhor registra em Paris não tem fim o efeito que o rock causou à sua geração. Ainda se sente ligado a este gênero musical? A cultura de massa lhe interessa especialmente?
A cultura de massa? Que remédio? Acompanho-a. Não a desprezo.

Ao assistir a um documentário sobre escritores americanos, o senhor relembra a teoria do iceberg formulada por Hemingway, de que sempre há muita experiência não explicitada por trás de um episódio plasmado em escrita. Coisas ocultas que foram relevantes para aquilo que se escreve, mas que não se encontram propriamente nas páginas de um livro. O senhor poderia revelar algo que não está verbalizado no relato de seus anos em Paris mas que, no entanto, foi fundamental para a sua formação literária?
Acabam de ser divulgadas no Youtube [www.youtube.com] imagens de uma montagem feita paralelamente a um filme de Buster Keaton, as únicas da época em que vivi em Paris. Pertencem a Tam-Tam, filme que rodei com Adolfo Arrieta. Nelas, estou muito jovem, cheio de estupor diante da declaração de amor de um travesti do bairro, personagem que aparece também em Paris não tem fim. Dou aqui a referência: http://www.youtube.com/watch?v=IpjJLt88yM0.

Desde seu livro de estréia no Brasil com A viagem vertical, e posteriormente com Bartleby e companhia e O mal de Montano, a recepção tanto da crítica como dos leitores foi sempre positiva e, assim como em outros países, a originalidade de sua escrita foi celebrada aqui também. Tem alguma expectativa em relação ao lançamento de Paris não tem fim?
No Brasil, a Cosac Naify tem seguido uma ordem cronológica na publicação de meus últimos livros e isso facilita a compreensão sobre minha obra. Escrevi Paris não tem fim quando acreditei haver chegado a hora de meus leitores saberem por fim "algo de mim" que fosse verdade: uma pincelada do ser humano que estava por trás de livros como Bartleby e companhia e O mal de Montano.

Minhas expectativas? Que tenha a magnífica recepção que teve em todos os países onde foi publicado. Conheço muita gente que viajou a Paris com meu livro. E mais; estando na cidade, mais de uma vez fui cumprimentado por alguém que, sentado em um café do bairro onde vivi, estava lendo meu livro e espiando os lugares sobre os quais eu falo. É um livro mágico.


Leia texto de Cassiano Elek Machado sobre o livro

SAIBA MAIS SOBRE VILA-MATAS

O AUTOR NA COSAC NAIFY:

A viagem vertical
[Leia texto sobre o livro]


O mal de Montano
[Leia texto sobre o livro]


Bartleby e companhia
[Leia texto sobre o livro]



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