 |
Foto: Alejandro Guyot/
Planeta |
 |
| O escritor e ensaísta chileno Jorge
Edwards, Prêmio Cervantes de 1999 |
O BALMACEDA DE JOAQUIM NABUCO
SOB O OLHAR DE JORGE EDWARDS
Ao escrever Balmaceda, Joaquim Nabuco (1849-1910)
lançava um cuidadoso olhar sobre a história
chilena do final do século XIX. Agora, ao assinar o
prólogo escrito exclusivamente para a nova edição
brasileira, lançada pela Cosac Naify, Jorge Edwards,
um dos mais respeitados pensadores chilenos da atualidade,
devolve o olhar ao analisar a importância da obra de
Nabuco sobre a guerra civil daquele país e seu principal
protagonista. Este intercâmbio entre as mais diversas
"miradas" latino-americanas - ainda escasso e insuficiente
- é o que caracteriza a coleção
Prosa do Observatório, da qual Balmaceda
é o mais recente título.
Com o mesmo posicionamento crítico que levou este homem
de esquerda a ser considerado persona non grata na
ilha de Fidel Castro (Edwards esteve em Cuba como diplomata
na década de 1970 e da experiência surgiu o livro
Persona non grata, de 1973), Edwards deixa clara
sua divergência quanto às considerações
e conclusões de Nabuco, conhecido conservador, sem
deixar de reconhecer sua grande contribuição
ao pensamento latino-americano.
Ganhador do Prêmio Cervantes (1999) e do recém
anunciado 2º Prêmio de Narrativa Ibero-Americana
(2008), pelo romance La Casa de Dostoievsky, o ensaísta
e escritor Jorge Edwards comenta brevemente os acontecimentos
que marcaram definitivamente o Chile e as lições
tomadas por Nabuco da experiência chilena.
Entrevista para Livia
Deorsola
Joaquim Nabuco via na guerra civil chilena de 1891
e no governo de Balmaceda uma das chaves históricas
do país. Qual o principal legado deixado por estes
acontecimentos na História do Chile?
É verdade que a guerra civil é uma das chaves
- e um dos grandes dramas - da história chilena. Joaquim
Nabuco viu isto com claridade. O grande século XIX
terminou estável e o Chile começou uma etapa
de grande turbulência.
Ao querer entender Balmaceda, Nabuco buscava lições
que pudessem servir ao Brasil. Qual acredita ser o interesse
disso para o leitor brasileiro atual?
A luta entre o poder central, sobretudo quando é legítimo,
eleito, contra os interesses das facções, interessa
ao Brasil, ao Chile e a toda América Latina.
Os episódios ocorridos no Chile do final do
século XIX davam a medida da difícil passagem
à modernidade. No quadro contemporâneo, quais
são os resultados mais relevantes produzidos por esta
busca pela modernização?
O maior impulso modernizador de Balmaceda se concentrou na
educação. Ele quis formar primeiro os professores
e criou o Instituto Pedagógico. Depois, abandonamos
esse impulso e a verdade é que retrocedemos.
Nabuco afirma: "interessava-se a análise
da esfinge que era para mim Balmaceda (...) o segredo de sua
Presidência". Para o senhor, o mistério
é o mesmo?
Ainda sobram muitas dúvidas que não foram esclarecidas.
Balmaceda era um inspirado e, em alguns aspectos, um autoritário.
Quando jovem, foi seminarista; já velho, tornou-se
ateu. Pertencia a uma oligarquia e lutou contra ela até
sacrificar sua vida. Um personagem enigmático, sem
a menor dúvida.
O senhor afirma que a crítica de Nabuco a
Balmaceda foi "parcial, apaixonada e injusta". Qual
acredita ter sido a maior dificuldade dele em analisar a questão
com mais objetividade?
Em minha opinião, Nabuco era muito conservador e apegado
ao passado para que pudesse entender Balmaceda.
Até a morte de Balmaceda - eleito pelo povo,
mas a quem Nabuco imputa a culpa de haver rompido a estabilidade
democrática do país -, o Chile era visto como
exceção na América Latina. Décadas
mais tarde, esta tradição democrática
é interrompida com a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).
Quais as principais características da redemocratização
ocorrida em cada uma das épocas?
Muito já se falou do que há de parecido entre
as figuras de José Manuel Balmaceda e de Salvador Allende.
Ambos acabaram mal: o regime forte de Balmaceda deu passagem
a um parlamentarismo mais ou menos anárquico; o fraco
regime de Allende desembocou em uma ditadura. Alguém
pode se perguntar se eles calcularam mal seus poderes reais
e se não foram rápido demais, despertando fantasmas
perigosos.
VEJA
O QUE PENSADORES DO BRASIL E DA AMÉRICA LATINA DISSERAM
SOBRE BALMACEDA: Davi Arrigucci Jr.,
Celso Lafer e Pablo Neruda
COLEÇÃO PROSA DO OBSERVATÓRIO NA COSAC
NAIFY
A
invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares
O
cavalo perdido e outras histórias, Felisberto
Hernández
Só
para fumantes, Julio Ramón Ribeyro
|
 |