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Foto: Fausto Fleury |
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| José Almino de Alencar, organizador
de Balmaceda (Cosac Naify, 2008) |
"NABUCO É PRECURSOR DE
NOSSA ANÁLISE SOCIAL MODERNA", DIZ ALMINO
Entrevista para Livia Deorsola
José Almino Alencar e Silva Neto traz em sua bagagem
familiar a rica herança daqueles que ajudaram a pensar
o Brasil. A história do país era vivida debaixo
de seu teto: Almino é filho de Miguel Arraes (1916-2005)
- advogado, firme opositor da ditadura militar brasileira
(1964-1985), protagonista, enfim, do cenário político
nacional por décadas.
Tornou-se sociólogo, escritor, poeta e interessado
pelos "instantes em que o destino se inverte, em que
a ação dos indivíduos conta, em que se
vislumbra 'o que poderia ter sido e não foi'".
Um desses instantes - a história chilena do século
XIX, marcada pelo governo de José Manuel Balmaceda,
que dá fim à própria vida após
a guerra civil de 1891 - foi interpretado por outro pensador
da gênese nacional, Joaquim Nabuco (1849-1910).
Na nova edição de Balmaceda, de Joaquim
Nabuco (Cosac Naify, 2008), organizada por José Almino,
o posfácio assinado por ele estabelece o contexto histórico
em que o livro foi escrito, pontuando de forma esclarecedora
a trajetória da obra de Nabuco. Na entrevista a seguir,
José Almino (que atualmente preside a Fundação
Casa de Rui Barbosa) fala sobre a inegável contribuição
intelectual do autor de O abolicionismo à
formação do pensamento brasileiro, de sua personalidade
polêmica e de sua particular visão sobre os acontecimentos
chilenos do século XIX, os quais lhe serviram de ponte
para defender seu projeto de nação.
Recentemente, Nabuco atraiu atenções
diversas: Caetano Veloso musicou trecho de Minha formação
(1900); foi lançada a biografia Joaquim Nabuco,
de Angela Alonso, (Cia das Letras, 2006), e agora Balmaceda
integra a coleção Prosa do Observatório.
Por que este interesse renovado em torno de Nabuco?
No trecho de Minha formação
cantado por Caetano em seu disco Noites do Norte
[2001] destaca-se uma frase, uma espécie de vaticínio
pungente, misto de queixa e revolta, aliado a uma intuição
sociológica que até hoje nos provoca e comove:
"A escravidão permanecerá por muito tempo
como a característica nacional do Brasil".
Já em O abolicionismo, Nabuco identifica a
escravidão como o elemento fundador, e por mais de
três séculos constitutivo, da sociedade brasileira.
Este sistema teria definido a economia, a organização
social, a estrutura do poder político, a ordem de idéias,
e o comportamento social. Diferentemente de sua geração
- influenciada pelos vários cientificismos do século
XIX , de Comte e de Spencer - Nabuco oferece um olhar contemporâneo
sobre a sociedade brasileira, o que o situa como legítimo
precursor dos fundadores da nossa análise social moderna:
há uma linha direta entre ele e Gilberto Freyre, e
mesmo entre ele e Caio Prado Jr.
Tanto diante dos embates chilenos como das forças
que passavam a compor a República no Brasil, o discurso
de Nabuco era o da pacificação dos conflitos:
"monarquista no Brasil e republicano no Chile",
segundo sua análise. O que diferenciava os dois países
aos olhos dele?
Nabuco, em uma série de discursos posteriores ao 13
de maio de 1888 e que antecederam a proclamação
da República, no período imediatamente antes
do 15 de novembro de 1889, acreditara na possibilidade de
uma evolução democrática harmoniosa e
inclusiva, promovida por uma monarquia tornada popular pela
abolição. Identificava a agitação
republicana pós-abolição, como sendo
alimentada pela reação despeitada dos escravistas.
No Brasil, uma monarquia tolerante às liberdades públicas,
centrada em uma classe política oligárquica,
havia sido abatida por um movimento armado. A instalação
do regime republicano através de um golpe militar de
estado nivelava o país à maioria das nações
americanas, instáveis internamente - entregues às
diversas formas de caudilhismo, abertas a conflitos primitivos
e vulneráveis externamente. No Chile, segundo Nabuco,
havia se constituído uma situação constitucional
conservadora, criada e fortalecida por um arranjo oligárquico,
sob a forma republicana e parlamentar. O Chile republicano
do século XIX era, portanto, muito semelhante ao Brasil
monárquico. Ao tentar impor a força do Executivo
contra o parlamento, Balmaceda agira à semelhança
do golpe militar republicano no Brasil: Nabuco estabelece
um paralelo evidente entre o residente chileno e a figura
de Floriano Peixoto.
Concretamente, que lições tomadas da
experiência chilena Joaquim Nabuco consegue disseminar
nos meios oligárquicos brasileiros? E nos meios intelectuais?
Como foi a recepção da obra quando saiu, em
1893?
A década de 1890 vai assistir ao desenvolvimento e
a consolidação de uma interpretação
revisionista da história da monarquia brasileira e
segue de perto as linhas gerais do diagnóstico de Nabuco,
cujos ecos se encontram, por exemplo (embora de maneira ainda
partidária), no grande balanço intitulado A
década republicana, promovido pelo Diretório
Monarquista e organizado pelo Visconde de Ouro Preto. Também
se prolongam em O ocaso do Império (1925)
de Oliveira Viana e constituem ainda a versão canônica
de boa parte da historiografia brasileira. Punha-se de lado
a longa duração do regime servil e sublinhava-se
a extinção pacífica da escravidão;
fazia-se abstração das revoltas regionais e
punha-se em relevo a consolidação da unidade
nacional desenvolvida pela Coroa e a obra de construção
do Estado brasileiro, do sistema político-administrativo,
o funcionamento continuado do parlamento e de partidos políticos,
tudo isso em um regime no qual vigorava ampla liberdade de
expressão.
Joaquim Nabuco assume, com todas as letras, seu fascínio
por Balmaceda, um fascínio alimentado pelo contra-exemplo,
minimizando o caráter político do suicídio.
Como o senhor vê esta atração que o presidente
chileno provocava no brasileiro?
O suicídio de um homem público incomoda porque
ele naturalmente sublinha, e muito, o seu grau de envolvimento
com a causa que defendia. Através dele, o gesto existencial
por excelência aparece como resultado extremo do engajamento
público e transforma-se por sua vez em fato político.
Nabuco parece pressentir a vantagem moral que o gesto final
de Balmaceda lhe auferia e procura, como bom polemista, despolitizar
seu suicídio - minimizando o fato de que ele havia
sido dramática e politicamente organizado - e insistindo
que se tratava da reação de um rústico,
um movimento sentimental, exibicionista, "casuísta
da honra" é a expressão que utiliza, de
alguém ligado a um código de comportamento primitivo.
Seria curioso estabelecer uma comparação detalhada
entre três famosos suicídios sul-americanos -
o de Balmaceda, o de Allende e o de Getúlio - nas suas
ritualísticas, nos seus cuidados em deixar claramente
por escrito (ou gravadas, no caso de Allende) mensagens políticas
explícitas e bem elaboradas.
Como sociólogo, são claros os motivos
que o levaram a se interessar por Joaquim Nabuco. Gostaria,
então, de saber mais sobre a trajetória de sua
família, a vivência com as idéias de Miguel
Arraes, enfim, como a marca familiar o influenciou em seus
interesses por esta parte da história.
Nabuco é quase um clichê da nossa história
ou da história dos intelectuais no Brasil, pelo menos
para aqueles de minha geração: membro da elite
que se interessa pela causa dos oprimidos, literato diletante
que se ocupa de assuntos políticos, estudioso e polemista
que se dedica a pensar sobre os destinos do país, a
imaginar um futuro que nos trouxesse justiça, grandeza,
originalidade entre ao outras nacionalidades. Melancólico,
impaciente, frustrado, ele é, no entanto, objeto da
admiração e da inveja de muitos de nós
porque teve a chance de ter participado de vários momentos
decisivos da nossa história.
Acredito que o golpe de 1964 foi um desses momentos. Nele
coube a minha parte de filho de um dos seus protagonistas;
protagonista derrotado, como se sabe. Da experiência,
entre outras coisas, veio-me a atração por esses
instantes - como o de Balmaceda - em que o destino se inverte,
em que a ação dos indivíduos conta, em
que se vislumbra "o que poderia ter sido e não
foi".
VEJA
O QUE PENSADORES DO BRASIL E DA AMÉRICA LATINA DISSERAM
SOBRE BALMACEDA: Davi Arrigucci Jr.,
Celso Lafer e Pablo Neruda
COLEÇÃO PROSA DO OBSERVATÓRIO NA COSAC
NAIFY
A
invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares
O
cavalo perdido e outras histórias, Felisberto
Hernández
Só
para fumantes, Julio Ramón Ribeyro
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