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Foto: Arnaldo Torres |
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| Sandra Peres e Paulo Tatit, do Palavra
Cantada. |
COMO NASCE E SE COMPÕE UM AUTÊNTICO
"SIRICUTICO"
entrevista para Julia Bussius
Iniciada em 2003 sob a coordenação da artista
plástica Edith Derdyk, a coleção Siricutico
é uma parceria entre o selo Palavra Cantada, criado
pelos músicos Sandra Peres e Paulo Tatit, e a editora
Cosac Naify. Os quatro livros já publicados trazem
histórias que também são canções
ilustradas. Os volumes vêm acompanhados de CDs com faixas
musicais e explicações sobre o processo de composição
de cada uma.
Assim como numa banda da MPB, a criação dessas
obras é resultado do esforço conjunto de várias
pessoas ocupando diferentes funções, o que inclui
músicos, ilustradores, autores, diagramadores e editores...
A partir dessa sincronia, surgiram os livros-CDs, cada um
falando de um assunto diferente: desde o descobrimento do
Brasil (Pindorama), as paixões de um rato
(Rato) e um jogo de futebol muito especial (Oras
bolas) até a história da tristeza de uma
boneca por sua dona ter crescido (Antigamente & Tente
entender). Na entrevista que se segue, Sandra e Paulo
contam mais sobre os livros e reafirmam sua preocupação
em oferecer para as crianças um trabalho da maior qualidade.
*
Como surgiu a idéia de
montar livros a partir de canções que já
existiam?
Paulo Tatit: Essa idéia
foi uma proposta que a artista Edith Derdyk levou para a Cosac
Naify anos atrás e caiu bem, pois a editora queria
fazer algo do gênero: a idéia estava no ar. Então,
na coleção Siricutico, fizemos algo que tínhamos
vontade de introduzir na parte de áudio do nosso website,
que era mostrar os arranjos e o pensamento que há por
trás de cada canção.
Sandra Peres: Acho que
o melhor termo para o que fizemos seria um "raio-x"
da música, possibilitando à criança entender
a estrutura da composição. Pois a música
é feita de várias "cortinas", de vários
comportamentos dos instrumentos, e isso é o arranjo.
A idéia da coleção foi legal porque a
faixa chamada "toque musical", presente em cada
CD, era uma maneira de mostrar como pensamos e sentimos a
música: "Por que fulano fez essa música,
o que tem dentro dela?". E mais que isso, quando você
oferece um raio-x de uma música pode ampliar o universo
sensorial de quem escuta.
Paulo: Você chama
atenção para um certo aspecto e o ouvinte se
concentra para tentar identificar aquilo que é comentado.
Dessa forma, a música deixa de ser um bloco e torna-se
uma organização de instrumentos, músicos
e sensações. Aqueles que não são
músicos profissionais adoram quando você dá
uma dica de audição, pois começam a descobrir
uma série de coisas novas. É isso o que queríamos
passar para as crianças, introduzir ou fortalecer a
percepção musical.
Como foi unir as linguagens musical,
a textual e a imagética num único produto?
Sandra: Acho que isso remete
à mencionada faixa "toque musical". Se oferecermos
à criança um produto onde há uma ampliação
do universo da arte - e do universo sensorial -, ela mergulhará
numa possibilidade de percepção do mundo e de
expansão da sensibilidade. Até mesmo quando fizer
o seu próprio prato de comida, pode ser que não
faça mais uma pilha de alimentos e comece a compor melhor
a sua comida, sua conversa, seu quarto, sua combinação
das coisas. Qualquer criança que seja exposta a essa
experiência terá uma sensibilidade mais aguçada.
Além disso, quem pára para ler uma letra? Eu sou maníaca por isso, sempre fui, mas fico pensando... Como vai ficar essa questão do quem é quem, de quem faz o que na
música, quando as pessoas baixam música da Internet (pagando, é claro!)? Quem tocou aquela guitarra maravilhosa, quem produziu aquela coisa tão bem gravada? Não sei o que vai acontecer com tudo isso... Você leva toda uma vida para se desenvolver como músico, poeta, ilustrador, escritor, e de repente tudo desaparece! Esses livros também recuperam isso. Ouvir uma música lendo a letra faz toda a diferença.
Paulo:
Isso é interessante porque a letra da música
escrita é totalmente diferente da letra cantada,
inclusive a percepção de tempo e de tamanho
é muito distinta.
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Como ocorre o diálogo
entre os músicos, autores, ilustradores e a editora?
Contem um pouco sobre o processo de criação
dos livros.
Sandra: Na verdade é
sempre uma surpresa maravilhosa, pois o fato de não
sabermos o que o ilustrador vai fazer é, para nós,
extremamente motivador. Quando você olha, pensa: "Nossa,
olha só o que ele fez!". É maravilhoso
desfrutar da novidade, de como aquela pessoa entendeu o que
você fez.
Paulo: No começo
do trabalho, mandamos um texto breve para a editora contando
o que diz a canção, e o editor passa isso para
o ilustrador, para que ele tenha ao menos uma idéia
da nossa percepção da música. Mas esse
textinho é bem óbvio, pois a canção
fala por si. Por essa razão, no "toque musical",
falamos mais da parte técnica e dos arranjos, pois
é a canção mesma que deve dar conta do
enredo. Na verdade, o diálogo é resumido, somos
chamados à editora quando os arquivos já estão
no computador para darmos uma olhada e às vezes palpitar
em alguma coisa...
Sandra: Mas sempre fica
muito mais lindo do que a gente imaginava!
Paulo: Claro, porque numa
editora tem um bocado de gente cuidando disso. Nos preocupamos
muito com a imagem da Palavra Cantada, pois em outras circunstâncias,
como em shows, as pessoas utilizam uma iconografia que supostamente
simboliza um universo infantil: bichinhos, balõezinhos,
e muitas vezes não tem nada a ver! São coisas
muito mais de publicidade... Então tomamos o maior
cuidado! Mas na Cosac Naify sabemos que o pessoal é
mais rigoroso que nós, então tudo bem!
Qual a proposta
isolada de cada volume da coleção? Podem falar
um pouco de cada livro? Pindorama? Rato?
Ora Bolas? Antigamente?
Sandra: Cada livro trata do universo no qual a música
está inserida. O Pindorama passa pelo sotaque
do português do Brasil e de Portugal, os instrumentos,
a ginga brasileira, a rítmica portuguesa, os instrumentos
portugueses, o som da floresta tropical quando as caravelas
estão chegando aqui... Digo isso até por todos
esses elementos estarem na ilustração.
Paulo: Pindorama tem
ilustrações muito solares, com uma luz bem tropical
que cita uma iconografia antiga, um jeito de ver o Brasil
no passado. O Alex Cerveny brincou com essa iconografia que
tinha uma certa ingenuidade.
Já o Rato tem um ar de atualidade. As ilustrações
da Edith Derdyk integradas às fotos da Elaine Ramos,
deram muita realidade para o tema da canção,
pois os ratos estão mesmo por aí nas ruas de
São Paulo. É uma história que parece
acontecer hoje em dia, tem aquele clima urbano, de cidade
grande...
Sandra: E a música
"Rato" remete a entidades, o arranjo fala de algumas
entidades e muda conforme cada uma delas se apresenta. As
entidades também são diferentes nas ilustrações
e foram pensadas como uma fantasia, pois a Lua, a Brisa, a
Parede, a Nuvem e a Rata são, também, fruto
da imaginação. Foi preciso imaginar o personagem
Lua, pelo qual alguém se apaixona... e isso é
legal por remeter à intenção da música.
Paulo: Já o Antigamente
& Tente entender traz ilustrações mais
arquetípicas, uma coisa mais do sentimento, não
é tanto uma representação externa, e
sim algo mais interno, introspectivo. A expressão da
boneca não é nada convencional, é muito
forte, porque as crianças, em geral, têm conflitos
tremendos na infância.
Sandra: Ah... mas adulto
não, não tem mais nenhum conflito, só
as crianças que têm.. [risos]
Paulo: Não, claro...
é porque a criança tem esses lampejos de felicidade,
porém na hora de dormir, de acordar, na hora que sente
falta, o apego com as coisas é algo muito forte, são
emoções muito fortes...
Sandra: Porque adulto não?!
Não se sente sozinho na hora de dormir, não
tem apego às coisas que faltam... [risos]
Paulo: Ou seja: é
igualzinho! Quero dizer que a iconografia para criança
que se vê com mais freqüência por aí
é um mundo totalmente da cabeça de um adulto
maluco! Que vê tudo com bichinho engraçado, fazendo
festinhas... Mas às vezes a criança olha essas
coisas e morre de medo, medo do Papai Noel, de palhaço...
E a ilustração do livro tem esse impacto.
Ora bolas é um super "parque", uma
viagem! Tem muito a coisa da bola, do campo de futebol, mas
também há algo mais fragmentado, meio labiríntico,
que incorpora a idéia do zoom, com aqueles
caminhos todos que são descritos na letra. Forma um
jardim, ou parque, mais contemporâneo, urbano: os desenhos
constróem uma imagem na qual você viaja nos detalhes.
Você vai, folheia, e anda com aquelas cores, e vai se
perdendo naquele labirinto.
Sandra: Por outro lado,
a música "Ora bolas" propõe esse
zoom que ecoa uma pergunta que nos fazemos constantemente
quando crianças: de onde eu venho, para onde eu vou?
No arranjo musical, a gente propõe um grupo de crianças
respondendo ao outro, brincadeira de pergunta e resposta,
com a força da indagação de cada grupo.
Paulo: Em "Antigamente"
usamos o violino, um instrumento que, ao soar notas longas,
fica super triste, e quisemos, de fato, "arrebentar o
coração", para depois dar o contraste da
superação em "Tente entender".
foto: Arnaldo Torres
Compor e fazer livros para um
público infantil é muito diferente?
Paulo: A gente parte da idéia de que todo mundo,
criança ou adulto, poderá escutar.
Sandra: Não fazemos "música
para criança", mas sim música para ser
humano! De qualquer localidade do planeta! E pensamos que
a música para criança deve ser a melhor.. E
sempre procuramos criar um mote lúdico, que prenda,
como um gancho...
Paulo: A música
precisa ter uma historinha que "pega", interessante,
como a do "Rato" ou da boneca... Ou uma situação,
como a do "Pindorama", onde a força
não está na história, inclusive muito
conhecida, mas na maneira de contar essa história...
Sandra: "Pindorama"
traz dois meninos, um brasileiro e um português, e nesse
contexto cada coisa tem uma "pegada", algo que salta
para atingir a atenção da criança.
Paulo: Pois logo em nosso
primeiro disco, o Canções de ninar,
percebemos o seguinte: se a música tiver todos os elementos
possíveis para tentar agradar a criança, torna-se
chata. Por exemplo, uma letra simples, uma melodia simples
e um arranjo delicadinho, cheio de "plim plim",
"ti ti" e sininhos fica um negócio muito
chato!
Sandra: Aquela vozinha
de criança pequena, falando tudo no diminutivo...
Paulo: Fica tudo muito
infantilizado, como se a criança vivesse num mundo
encantado... Por isso fazemos a música livremente.
Vemos o universo infantil justamente como um lugar para ser
mais experimental, para fazer coisas que não precisam,
necessariamente, se inserir em algum lugar. Esquecemos, praticamente,
que é algo para criança, apenas desejamos fazer
algo legal!
Sandra: Não gostamos
das coisas fáceis, prontas e imediatas, pois se a pessoa
pode ter várias possibilidades de visão, com
o máximo de sentidos, ela vai construir sua vida assim,
mesmo que de maneira não consciente. Tudo é
pensado para expandir o universo de percepção.
Vocês têm contato
com as crianças quando compõem?
Sandra: Quando compomos não, mas às vezes
chamamos algumas crianças para acompanhar quando fazemos
o arranjo. Porém não fazemos música junto
com as crianças, nem fazemos uma música e mostramos
para ver se a criança gosta e tal...
Paulo: Às vezes
você tem um contato com a criança, mas não
com a sua presença, você apenas lembra dela no
momento em que está compondo. Por exemplo, o convívio
com a filha de algum amigo nosso pode ser muito inspirador,
a criança é muito musical e, de repente, você
forma uma imagem dessa criança na sua cabeça,
a gente lembra dela batendo com o garfo, a atenção
dela ouvindo música.
Sandra: Sim, às
vezes nos remetemos a elas, mas isso muda todo o contexto.
Porque algumas pessoas acham que a Palavra Cantada é
um pátio com um monte de crianças brincando,
ou que a gente dá aula... Mas na verdade o que fazemos
e nos remeter ao universo da criança. Fiz a música
"Sopa" a partir da observação de dois
sobrinhos pequenos e a dificuldade da mãe para fazer
eles comerem. Às vezes é até algo da
nossa própria infância. Por exemplo, para a história
da boneca de "Antigamente" chamei o Zé Tatit
e disse: "Quero fazer uma música sobre a época
em que deixei de brincar com a minha boneca, que foi a primeira
grande separação da minha vida, os dias passavam
e eu via que não tinha brincado mais com ela...".
Contei ao Zé essas coisas da minha infância mesmo...
Paulo: O Zé Tatit
também tem uma filha, que ele criou, então ele
conhecia muito bem essa experiência. O interessante
é ter saído uma letra do ponto de vista feminino,
porém escrita por um homem!
Existe distinção
de gênero nesses livros? O Antigamente foi
pensado mais para meninas?
Paulo: Sim, mas uma professora de Belo Horizonte nos
telefonou para dizer que deu essas músicas para as
crianças e ficou super emocionada após a aula
porque os meninos ficaram super solidários com as meninas!
E ela achava que eles iam "tirar um sarro", coisa
e tal... Mas eles vivenciaram aquilo também, e isso
criou uma unidade, uma solidariedade em sala de aula que deixou
a professora maravilhada! Então ela ligou para relatar
essa experiência de unidade entre meninos e meninas
de 9 ou 10 anos.
Por que inserir uma faixa "karaokê",
apenas instrumental? Ela aproxima a criança das canções?
Paulo: Foi mais por causa de um pedido das pessoas.
Sempre pediam, mas ainda não tínhamos isso nos
discos do Palavra Cantada. Assim, aproveitamos a oportunidade
desses livros-CD para reforçar a parte musical do disco,
reunindo a faixa "toque musical", a vinheta do Siricutico
e a faixa karaokê, atendendo a pedidos!
Sandra: Esse karaokê
é legal porque desenvolve a percepção
musical da criança, ela pensa: "Agora tenho que
esperar para 'entrar' e tal"... Ela encontra o tempo
da música, e isso é muito bom.
De onde saiu o nome Siricutico?
Sandra: É um nome que eu adoro, sempre gostei!
E o meu e-mail era siricutico@...
Paulo: Quando a Edith Derdyk
começou a coordenar a coleção, disse
que precisávamos inventar um nome e então, no
meio da discussão, perguntou para Sandra: qual o teu
e-mail? e era siricutico@palavracantada... Então ficou
Siricutico!
Sandra: É um nome
muito musical! Tem uma coisa serelepe, um movimento, uma divisão
silábica que já é um ritmo... Siricutico
é essa energia que as crianças têm: "Ai,
você está com siricutico hoje!". E na vinheta
fizemos um trava-língua, porque é uma palavra
difícil de falar, e por isso resolvemos fazer desse
jeito, para as crianças desenvolverem a coisa de brincar
de falar e inventar a sua própria língua...
A vinheta não quer dizer nada, é um amontoado
de sílabas com uma rítmica.
Vocês têm alguma avaliação
dos resultados obtidos com os quatro livros-CD já lançados
da coleção? Ela potencializou de alguma forma
o trabalho de vocês?
Sandra: Temos avaliações maravilhosas,
sempre falando bem! Em ocasiões que mostrei esses livros
na França, as pessoas ficaram chocadas com a beleza!
Não acreditavam que aquilo tinha sido feito no Brasil!
É um produto com uma qualidade tão cuidada,
que tem um nível internacional, e muitas coisas aqui
não têm esse nível... A Cosac Naify investe
nisso, assim como a Palavra Cantada preza por esse nível,
não vamos economizar para fazer um disco, para nós
isso não existe. Sempre damos um jeito de acomodar
o necessário para o que queremos fazer. Uma gravadora
francesa disse que nunca tinha visto uma coisa tão
bonita! E nós nos sentimos muito prestigiados em ter
nosso trabalho dentro de uma proposta dessas, isso honra o
nosso trabalho.
Quais são os próximos
projetos da dupla?
Sandra: Estamos fazendo um disco em espanhol! E também
divulgando bastante e fazendo muitos shows do Pé
com pé, divulgando também a coleção
Siricutico e nos programando para gravar nosso DVD do Pé
com pé assim que conseguirmos um patrocinador.
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