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Scribner Classics |
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| Para Leiris, as touradas são o
único espetáculo ainda capaz de mobilizar
emoções |
ESPELHO DA TAUROMAQUIA: O EROTISMO
DO ENSAIO
Neste pequeno ensaio, que condensa uma etnografia
e uma reflexão sobre estética, Michel Leiris
(1901-1990) realiza uma crítica cultural ao identificar
no mundo ocidental moderno a carência de instituições
como a tragédia antiga, que purgam os impulsos da afetividade
humana. Nesse contexto, o autor considera a corrida de touros
espanhola o único espetáculo atual do Ocidente
capaz de mobilizar a emoção à semelhança
dos ritos, jogos, festas, vistos em outros séculos
e em outras culturas.
A estrutura do livro segue de perto a estrutura
da tourada: os três capítulos centrais - fora
introdução e conclusão -, correspondem
aos três terços da corrida. O primeiro terço
compreende a disputa com os picadores que, sobre cavalos,
lanceiam o touro na cernelha [fio do lombo]; no segundo, terço
de banderillas, o torero crava três pares de varetas
enfeitadas para amolecer o animal já ferido; no último,
o terço da morte, em perigosos passes, o matador subjuga
o touro com a muleta vermelha e dá sua estocada final
com a espada, levando a cabo seu sacrifício.
Embora não se realize uma analogia literal com o andamento
da tourada, o livro também vai se construindo aos poucos
para nos arrebatar na conclusão do último capítulo.
Primeiro apresenta a tauromaquia como mais do que um esporte,
pois esta culmina com o sacrifício do touro. Segundo,
por seu aspecto trágico ela se aproximaria da arte,
mas a tauromaquia é bem mais do que isso. Nela há
elementos estranhos a qualquer manifestação
artística em sentido estrito. Segundo Leiris, encontra-se
na corrida algo análogo à união de contrários
que define o ideal poético de beleza para Baudelaire:
quando numa beleza clássica ideal irrompe uma falha,
uma "rachadura", uma passagem aberta pelo infortúnio.
O último desses três capítulos dedica-se
à relação estreita entre a arte tauromáquica
e o erotismo. Ali se refaz a corrida, momento a momento, descobrindo-se
em cada passe, ritmo, expressão, sacrifício
e exaltação uma correspondência no ato
passional. O erotismo, como a tauromaquia, é uma atividade
em que figura a "rachadura" do belo de Baudelaire
por conter, por mais simplesmente que seja consumada, o traço
original do pecado. Trata-se, assim, de um espetáculo
revestido pelo aspecto sagrado.
O texto é instigante, pois, esconde seu final, cercando
as pistas que compõem essa região em que o homem
"tangencia o mundo e a si mesmo". Finalmente, a
arte tauromáquica mostra-se uma atividade de "construtores
de espelhos", que são, conforme Leiris, aqueles
que mobilizam nossas emoções por meio dessas
experiências cruciais que se tornam "revelações".
Mais que neutralizar os males e a morte, anseio de toda religião,
a atividade desses construtores de espelhos consiste em assimilá-los
e incorporar a morte à vida, operando sua transformação
mítica em arroubos de exaltação.
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