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Capa do livro em formato que lembra os livros-poema criados por Gullar

O MOVIMENTO NEOCONCRETO POR FERREIRA GULLAR
* por Margarida Sant'Anna e Rejane Cintrão

Em 1959, Ferreira Gullar redigiu o Manifesto Neoconcreto com o apoio de Amilcar de Castro, Lygia Pape, Franz Weissmann, Lygia Clark, Theon Spanúdis e Reynaldo Jardim. Quase cinqüenta anos depois, ele presta seu depoimento sobre as teorias e os fatos de um dos momentos mais radicais da arte brasileira. Tanto como poeta quanto como teórico, Gullar desempenhou papel fundamental nos movimentos concreto e neoconcreto no Brasil.

Nas primeiras linhas de apresentação de Experiência neoconcreta: momento-limite da arte, o autor deixa claro o objetivo da publicação: "tornar mais compreensível esta experiência que reuniu um pequeno grupo de artistas plásticos e poetas no espaço de alguns poucos anos, mas que prosseguiu para além dos limites da linguagem artística".

Conheça os livros-poema do autor


Experiência neoconcreta
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HISTÓRIA
O relato, inédito, tem início no momento da publicação de A luta corporal, em 1954, explorando de forma inovadora a diagramação dos elementos gráficos. O livro de poemas chamou a atenção dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e de Décio Pignatari, representantes da poesia concreta em São Paulo. A reunião entre eles dá-se no ano seguinte e perdura por correspondência, como vemos na carta de Gullar a Augusto de Campos, reproduzida na edição, a propósito da publicação da revista Noigandres. A partir desse intercâmbio, o poeta maranhense cria O formigueiro, com o qual integra, em 1956, a I Exposição Nacional de Arte Concreta, realizada no MAM de São Paulo, e apresentada no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, no início do ano seguinte.

As diferenças entre os dois grupos, já perceptíveis, se acentuaram quando, discordando do texto enviado pelos poetas paulistas para o "Suplemento Dominical" do Jornal do Brasil (SDJB), Ferreira Gullar (colaborador do jornal desde 1955), Reynaldo Jardim (diretor do Suplemento) e Oliveira Mattos assinam o texto "Poesia concreta: experiência intuitiva". Dá-se definitivamente o rompimento entre os grupos paulista e carioca.

Mas um novo movimento surge logo em seguida. Em 1959, no Rio de Janeiro, vários artistas vindos do concretismo pretendiam expor trabalhos realizados nos últimos dois anos. Gullar foi incumbido de escrever o texto de apresentação da mostra. Refletindo sobre a produção dos artistas, viu que ali já existia algo de diferente. Surgia assim o neoconcretismo. O nome, inventado por ele, é um neologismo: todos os artistas daquele grupo partiam de descobertas e invenções da arte concreta, mas já estavam distantes dos princípios do concretismo. O texto de apresentação da I Exposição de Arte Neoconcreta, conhecido como o manifesto do movimento, é assinado por todos os integrantes do grupo e também publicado no Suplemento Dominical do SDJB.

A EDIÇÃO
O teórico Ferreira Gullar é de importância capital para a historiografia da arte brasileira. Em 1958, foi convidado a escrever o texto de apresentação da mostra individual de Lygia Clark na galeria Arte das Folhas, em São Paulo. A análise da obra da artista, da qual resulta o ensaio "Lygia Clark: uma experiência radical", o levou a uma nova leitura do processo de arte contemporânea, dando origem, no ano seguinte, à "Teoria do não-objeto" (ambos os textos compõem esta edição). Para ele, a partir do surgimento da pintura não-figurativa, quando a figura é eliminada, o próprio quadro torna-se o objeto da pintura. Nesse momento, o espectador passa a ter uma participação na obra e não apenas contemplá-la.

É o conceito de participação na obra o que se tornou, com o passar dos anos, o diferencial da arte neoconcreta em relação aos demais movimentos de vanguarda, na opinião de Gullar. Esse conceito nasce do livro, que é, por definição, um objeto manuseável. Os livros-poema, abandonando o formato livro e ganhando estruturas tridimensionais cada vez mais complexas, já são não-objetos. Posteriormente, a participação do espectador nas obras de Lygia Clark (com Objetos relacionais) e Hélio Oiticica (com Bólides e Parangolés) adquire outro significado.

Alguns dos documentos reproduzidos no apêndice de Experiência neoconcreta não ganham reedição há anos, e poucas vezes alguns deles foram reunidos numa única publicação, o que faz deste livro um instrumento indispensável para estudantes e pesquisadores.

Outro ponto alto é a reprodução de poemas praticamente inéditos, assim como projetos e comentários do autor. Estão reproduzidos "vermelho", "casulo" e "girassol", nos quais o poeta articula expressão espacial e visual com experiências ótico-fonético-semânticas. "Verde erva", do mesmo período, prefigura o livro-poema, que se compõe progressivamente, com o passar das páginas. Fruta já se apresenta quase além da forma do livro e leva ainda mais longe a participação do leitor, solicitando que este abra suas partes articuláveis. Lygia Clark se inspirou nesse livro-poema - que, assim como outros dois, é publicado pela primeira vez neste volume (ver encartes) -, para fazer seu primeiro Bicho.

A edição inclui ainda imagens dos poemas espaciais, fotografados especialmente por Vicente de Mello, que já foram vistos em algumas exposições sobre a arte do período (obras como Não, Pássaro e Ara). E há o texto sobre o Poema enterrado, projeto construído na casa paterna de Hélio Oiticica (o primeiro caso de um poema com endereço), onde a experiência do leitor/visitante deve ser de corpo inteiro, descendo uma escada e desvendando palavras em cubos escondidos num quarto subterrâneo. Nesse momento, diante do radicalismo da experiência, Gullar reavalia sua trajetória de poeta.

O fac-símile do catálogo da I Exposição de Arte Neoconcreta, conhecido como o manifesto do movimento, completa a edição bilíngüe.

*Rejane Cintrão é curadora de arte e autora de Grupo Ruptura, da Coleção Arte concreta paulista (Cosac Naify). Margarida Sant'Anna é curadora de arte.

Lançamento de Experiência neoconcreta e debate com Ferreira Gullar, dia 19 de outubro, no Rio de Janeiro. Veja detalhes

SAIBA MAIS SOBRE FERREIRA GULLAR

NA COSAC NAIFY
Corte e dobra: Amilcar de Castro, Tadeu Chiarelli
Coleção Arte concreta paulista, vários autores

 

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